A POESIA MÚLTIPLA DE ETEL FROTA | por Nic Cardeal

fotografia do arquivo pessoal da autora 

8M

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardeal)

Viaje na poesia múltipla e impressionante de ETEL FROTA:


Ah, como eu queria
que fossem meus
os olhos que se alinham às estrelas
no campo de girassóis

Não importa

Antes um poema requentado
que poesia nenhuma

(* poema do livro Artigo oitavo - poesia escrita, falada e cantada)

-*-

capa do livro Artigo oitavo


Não me confunda desse jeito
com minha poesia
com meu bordado

Uma cria
cruel e fria
levo trancada no peito
a cadeado

(* poema do livro Artigo oitavo - poesia escrita, falada e cantada)

-*-

poema de Diálogos lunáticos 


LÍNGUA 

Insano
insensato
insuficiente
apêndice verbal

Esfolado
insistes no som
que dê nome à vertigem
adjetivo à dor sem cura

Antes estivesses viajando
sabendo desse homem o sal da pele
o gosto secreto de suas dobras
a curva lisa do céu de sua boca
a dureza de seus dentes
as voltas todas de sua orelha

Assim, mudamente
sabendo a paixão

Sonho algas e serpentes.

Tua mão de explorador
meus lábios entre teus dentes.

Sonho então tua língua afoita
estudando minhas dobras.

Sonho lagartos e cobras.

Sonho com um orgasmo louco
gemido obsceno e rouco.

Sonho todas as volúpias.

Teu falo, triste e cansado,
jaz, inerte, ao meu lado.

(* poema publicado no site 'www.antoniomiranda.com.br, abril/2014)

-*-

poema de Diálogos lunáticos 


LIRA DOS CINQUENT'ETANTOS

Contrariando todos os oráculos e a previsão do tempo,
reaprendiz de tudo: reenfoco a mirada, 
reequilibro-me na  amurada — beirada do barranco.  Que pode muito bem ser a mesma beirada do oceano, depende de onde se olha. 
Depende de com que olho se olha. Haja ângulo.

Reencabaço-me, para melhor me dar ao meu amor. Reforjo-me donzela. Redonzelo-me.
Refaço-me puta sem pecado, retomada de compaixão por todos os homens do mundo, suas premências
e desejos. Haja tesão.

E assim — dia não dia sim — me re-doo em abraço, em comida, em poema, em canção. 
Em arte, essa óssea parte do ofício. Haja transpiração.

Resseco de novo os olhos, boto maquiagem, pra novamente poder chorar minhas saudades. Minhas ausências, como as chorei no primeiro dia delas, 
e as chorarei até o último dos meus.
Toda borrada, me refaço um misto de santa profana e palhaço triste. Porque tristes são picadeiros, andores e paus-ocos. 
Triste é a vida, que a arte imita e teima em querer consertar. Haja pretensão.

E tanto limpo os olhos, que acabam me faltando lágrimas, secreções aquosas e outros lubrificantes. Tempos de secura.
Cada marca insiste em querer permanecer pra sempre na minha pele. 
Diário indelével. Haja soja. Haja boas lembranças e bons humores. 

Visto de novo o avental todo sujo de ovo.
Cozinho quitutes, poucas vezes. 
Nas outras muitas, aqueço congelados
- mas com tal empenho e apuro estético, que todos acreditam na farsa, e lambem os beiços, e mais uma vez me fazem feliz, me reinventam dona benta e fingem nem notar minhas unhas feitas. Haja
apetite. E assim sou feliz, porque feliz me querem. 

Rediscípula, na frente do mar - ...ah, haja mar em frente, areia sob os pés e o sol na cabeça... - pratico
com capricho meus ásanas. 
Nessa manhã, como em todas as manhãs em que namasteio, meu coração germinado acaba virando massa de pão.
Reiludo-me: quem sabe possa ter cura a fome? Haja santosha.

(* poema publicado na Revista 'Cândido' -  Biblioteca Pública do Paraná - n° 83, junho/2018)

-*-

capa do livro Mahadevi


MAHADEVI - A ÁRVORE DA VIDA

No princípio era o silêncio
   possibilidade de todas as polifonias

No princípio era a branca transparência 
   matriz e síntese de todas as paletas de cores
   [as sólidas e as cambiantes]

No princípio era o monolito com todos os quatro elementos 
   todos os quarenta sentimentos 
   todos os quatrocentos pecados
   todos os quatro mil arrependimentos
No princípio, eram todos os quatro milhões de perdões 

No princípio eram todas as matemáticas
   todos os poliedros, todos os círculos e quadraturas  
   todas as estrelas de oito pontas
   todos os octógonos e seus infinitos             desdobramentos especulares
No princípio, eram todos os espéculos
   todas as cavidades

No princípio, era o para dentro
   o inconsciente como processo
   [e todas as possibilidades de alquimia]

No princípio, eram as não geografias
   a mandala perfeita
No princípio, era a mandala ancestral, tecida de raízes, ventos e cabelos

No princípio era o nada contendo a terra
   contendo o broto
   contendo a medula de seiva
   contendo a ânima de fogo e sua busca pelo ar

No princípio era o nada e sua inteireza
No princípio não havia amputação 
No princípio não havia alteração de rota, porque no princípio rota não havia

No princípio, houve a mandala e não houve amputação 

No princípio não havia espelho
   [a necessidade do espelho nasceu com o advento da amputação]
   [no verso do espelho, a prótese para a mandala alterada]

No princípio era o nada
    inesgotável balaio de princípios 
No princípio, eram todos os agoras

(* poema que 'ilustra' o livro fotográfico Mahadevi - a árvore da vida)

-*-

(*) 8M: 8 de Março = Dia Internacional da Mulher: Projeto 'Homenagem a mulheres escritoras/artistas', iniciado em março/2021, por Nic Cardeal.

fotografia do arquivo pessoal da autora 


ETEL FROTA Frota é natural de Cornélio Procópio/PR e vive em Curitiba desde os anos 80. Licenciada em Ciências pela Faculdade de Filosofia de Cornélio Procópio, graduada em Medicina pela Universidade Estadual de Londrina e especializada em Saúde Pública pela UFPR, atuou como médica por quase 20 anos. Antes de exercer a medicina, também foi professora e bancária. A partir de 1998 passou a dedicar-se à música e à literatura. Estudou no Conservatório Musical de Londrina (piano e teoria musical) e no Conservatório de MPB (teoria musical, percepção musical e canto popular). Participou de oficinas de música ministradas por Sérgio Natureza, Fátima Guedes, Roberto Gnatalli, Sérgio Ricardo, Nélson Sargento e Carlos Sandroni. Entre 1994 e 2000 participou de cursos de coral, com montagem de espetáculos, ministrados em oficinas de MPB por Marcos Leite e Regina Lucatto.

É escritora múltipla: poeta; romancista; compositora; letrista de inúmeras músicas em parceria com diversos artistas da MPB; produtora cultural; e também escreveu dramaturgia e roteiros para espetáculos musicais. Em parceria com o jornalista Alan Romero, escreve, produz e apresenta, na Paraná Educativa FM, o programa semanal ‘Poemoda, a canção em verso e prosa’. É membro da Academia Paranaense de Letras desde 2018, Cadeira 22.

Etel Frota - como 'escritora múltipla':

Dramaturgia: Vila Paraíso (três indicações ao Prêmio Gralha Azul, 2004). 

Letrista: Artigo Oitavo – poesia escrita, falada e cantada (poesia, livro e CD - 'Prêmio Saul Trumpet' de Melhor Letra de Música e Melhor Encarte de CD, 2002); Lyricas – a construção da canção (songbook, independente, 2007); América – para Eduardo Galeano (Felipe Radicetti/2015); Flor de Dor – o Tao do Trio canta Etel Frota (música, Tao do Trio,  Gramofone/2016); Meus Retalhos (Grupo Viola Quebrada, 2016); Quatro Janelas (Miriam Aïda, 2016); entre outros.

Roteiros de espetáculos musicais:  As Canções: Vocal Brasileirão Canta Zé Rodrix; Eu, Stelinha; entre vários outros.

Programa de Rádio: Poemoda, a Canção em Verso e Prosa (programa semanal na Rádio É-Paraná, em parceria com Alan Romero). Em 2015 foi lançado o CD Poemoda - a canção em verso e prosa - M-música, integrado por 9 programas apresentados até o ano de 2014. 

Entre 2015 e 2017, Etel esteve na página Diálogos Lunáticos, do psicólogo Tônio Luna (Facebook). Em 2016 começou a colaborar com a Folha de S. Paulo. No mesmo ano, Etel recebeu o 'Prêmio Grão de Música' (do qual passou a ser curadora regional no Paraná, em 2018). 

Livros publicados: Artigo oitavo – poesia escrita, falada e cantada (livro e CD, com prefácio de Thiago de Mello, 2002); Lyricas - a construção da canção (songbook virtual, disponível para download gratuito no site www.lyricas.com.br., 2007); O herói provisório (romance histórico, Travessa dos Editores/2017 - segundo lugar no 'Prêmio José de Alencar' da União Brasileira de Escritores, 2018); Mahadevi, a árvore da vida ('tradução poética transcendental' - poesia 'ilustrando' fotos da fotógrafa Dani Leela, Kotter/2019); Identidades e diversidades (um mergulho literário na fotografia documental de Rubens Guelman, no prelo).



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