SEIS POEMAS DE MAR WOLKERS



fotografia do arquivo pessoal da autora 

ESCRITORA 

Eu não deixei de escrever, só porque não escrevo mais, aqui fora
Porque há mil mãos invisíveis que escrevem no meu dentro à tempo inteiro
E eu só não liberei os muros de mim grafitados de poesia de rua, porque não o quis

Todo dia um muro com versos é erguido nas minhas ruínas
E eu não me afobo em mostrar do meu abstrato, todos estes meus concretos repletos de sonhos

Vou construindo a minha cidade...
Cidadezinha esta, bem do meu interior:
Pacata, comezinha, simples e paradoxalmente,
Faiscante e fantástica 

Eu não deixei de escrever.
Escrevo enquanto
trinco a maçã,
estendo a roupa,
troco fraldas,
faço sexo, comida, arrumações 
durmo, 
atendo o telefone

escrevo sobretudo, sem a atuação e o exercício das mãos.
escrevo na mente com o meu coração e
vice e verso

e a poesia vai beirando o penhasco da filosofia,
da fisiologia
urino escrevendo dias à dentro
a sede faz-me beber a água e ela desce escrevendo na garganta
Peito rabiscado
No meu tórax um poema fresco
Da fome do estômago, ronca um soneto
E vou escrevendo sem dar por isso
E sem alguém sequer ver
Porquê está tudo escrito, só que invisível
Mas se colocarem uma lupa ao sol,
E mirá-la na minha alma
Saberão que a minha tinta é o fogo

Eu não deixei de escrever, só porque aqui fora o mundo é frio.

-*-

ilustração da autora

MULHER CHUVA 

Precipitada como a chuva,
Ela caiu em terra bruta, amansando as pedras mais cruéis.

Acalantou o solo áspero com  mãos de nuvens em condensação...

Então, 

As rachaduras do chão uniram-se, como se faz a ferida quando cicatriza.

A relva costurou e bordou todo o terreno terracota de verde.

Deu um coche de água à uma vaca cadavérica.
Esta levantou-se parindo um bezerro, ao mesmo tempo em que jorrava leite bravo de suas tetas.

Chuviscou no cacto beijando seus espinhos de leve,
E no seu cume brotou uma sempre-viva cor de laranja.

A vida nasceu do inesperado...
Ninguém espera chuva na seca.

Garoou brincando na tristeza,
Trouxe para o pesar, leveza.
E nessa levedura toda, fez crescer com fervura, bicho, fruto, mato,
Água no copo e comida no prato.
Chuva de imensidão e volume,
A gratidão do povo enterrou o queixume.

Abriu as flores e borrifou água em todas elas.
Não houve uma que não desabrochasse orvalhada exalando sua essência e perfume.

O céu nimboso, de tão pesado, caiu nos montes.
E a garganta rochosa dos recôncavos, mataram a sua sede engolindo o alto.

Arrefeceu os tetos de barro e tamborilou nos telhados de amianto.
Cada pássaro saiu de seu ninho e soltou um novo canto.

Ela, na sua força tremenda, 
Encheu a vida de água e espanto
Como oferenda.

Poços solitários livram-se do eco vazio de anos.
Veredas imensas atravessaram os olhos dos mais abismados, como se fossem oceanos.
O ecossistema pulsava torrencialmente.

Crianças brincaram e dançaram na chuva, chafurdando a lama
Alegria pouca, era tamanha!

A vida em todo aquele sertão de desilusões
Era agora a tempestade justiceira com toda a sua sanha

Pois veja,
Chuva, mulher precipitada e sertaneja
Caiu do céu e devolveu à todos,
 vida nova e benfazeja

Grande façanha e
Que abençoada,
Ela,
Essa mulher chuva
Para todos
Seja.

-*-

ilustração da autora 

LISBOA SAUDADE

Nem como turista hoje, gostei ou gostaria de Lisboa...
Não encontrei retrosarias antigas
Pois que...
Onde fui comprar um isqueiro numa loja de um antigo português, quase fui expulsa por um paquistanês
O chão estava acabadinho de limpar, eu sei, mas
Pedi licença antes de por os pés, só para dar o dinheiro e apanhar meu isqueiro que vinha imitando azulejo. 
Em poucos minutos o auto colante saiu.
Bufou pra mim com mau humor. 
Expulsou-me com o olhar

Eu... Eu já não reconheço a minha Lisboa
Perguntei pra um:
- Onde fica X coisa?
- What?
E eu não sei falar inglês
E nem francês
E nem alemão
Mas eu não encontrei na rua nenhum português que me indicasse o caminho

Perdi meus isqueiros sempre na vida...

- Do you have "tic tic"? perguntei
Ninguém me compreendeu.

Só portugueses têm a audácia de fumar nas ruas 
Beber na praça da Figueira com liberdade
Rir alto no Largo do Carmo ou fumar um charro no Adamastor

Será que ser velha e careta é ser isto?
Saudosa e cheia de... recriminações?

Não havia um jovem skatista saltando a rampa de frente a Casa das Bifanas (mas isso acontecia muito mais perto do pôr do sol)
E tenho vergonha de visitar as tascas que me conhecem cerca de há 10 anos atrás,
Tudo porque engordei muito
Mas eles devem ter engordado também, ou falido ou 
Até morrido

Só sei que Lisboa é uma Dama pequena
Num aglomerado de pessoas que não conheço mais

Lisboa nova para turista viver e visitar
E velha para português lembrar enquanto trabalha no seu esquecimento

-*-

ilustração da autora

ANTES

O beijo é apenas a cereja, o enfeito do bolo
Porque tudo,
Excelentemente tudo que antecede ao beijo, foi muito mais importante do que o encontro das bocas,

Antes das bocas se encontrarem...
Já os olhos teriam se cruzado, se mirado e se beijado 
Os corações já teriam corrido em disparada batendo de encontro um com o outro
Os dedos triscaram-se fazendo faíscas que no escuro da noite se avistaria

Antes do beijo, milhares de lagartas construíram suas crisálidas nas barrigas dos apaixonados

Antes das bocas e das línguas, tudo se encontra e beija primeiro
E é só no fim que tudo é carimbado,
Selado
Por isso que ao beijo tão almejado,
Também chamamos selo.

Quando as bocas se unem,
As borboletas no estômago, florescem...

-*-

fotografia do arquivo pessoal da autora 

DEPOIS DE NÓS

Depois que a gente se amar...
O mundo inteiro fumará um cigarro por nós,
O Papa Francisco vai erguer uma taça de vinho argentino na janela do Vaticano,
Três vulcões adormecidos irão deitar lava,
Nascerá um sol ao lado da lua crescente da bandeira da Turquia,
Uma virgem se esfregará no braço do sofá da casa do rapaz que ela ama,
Nevará em Cuiabá,
A Moça com brinco de pérola, usará alargadores,
Os girassóis de Van Gogh brotarão nas falésias do Algarve,
Alguém em Alzerbaijão estará ouvindo Noturno de Chopin ao amanhecer
Enquanto o mundo inteiro fuma um cigarro por nós
Depois que a gente se amar...

-*-
fotografia do arquivo pessoal da autora 

DEPOIS DE NÓS 
         (DOIS)

  (para Angela Becker,
Donizete Antonio Santos,
Sergio Ravi Rocha)

Depois que a gente se amar outra vez mais,
já que o mundo inteiro fumou um cigarro por nós,
Toda gente fará um jejum intermitente por nós dois...

Os nômades criarão raízes nas plantas dos pés,
O mar vermelho adoçar-se-á,
As obras de Santa Engrácia vão ter fim,
O sol da meia noite brilhará em pleno inverno Ártico,
Nascerá mais uma nova franja de cor nas montanhas do Peru,
O whisky mais velho do mundo vai ser aberto,
Um poço de petróleo será encontrado no nordeste do Brasil,
Dom Sebastião voltará mais vivo do que nunca,
Fátima reaparecerá com os três pastorinhos no altar do Santuário,
Haverá três luas cheias no deserto do Saara,
O rio Nilo vai se encontrar com o Amazonas,
Erick Clapton e Keith Richards tocarão juntos no trio elétrico da Bahia,
Nascerão pitangas numa gingeira,
As placas tectónicas voltarão a se juntar,
Todos os cadeados do amor no gradeamento do Miradouro da Senhora do Monte irão se abrir,
O diabo vai rezar o terço e um demônio vai crismar,
Uma mulher estéril dará a luz no campo de lavandas no Planalto de Lavensole,
A NASA descobrirá dois novos planetas no sistema solar,
Será o equinócio no obelisco de Macapá,
Uma viúva solitária há vinte anos vai tirar o seu véu preto de luto e usará um lenço vermelho de cachemira,
A receita secreta dos recheios do pastel de Belém será descoberta,
Cristo redentor vai sair do topo do Corcovado  e fechará seus braços abraçando as favelas,

Depois que a gente se amar outra vez mais,
já que o mundo inteiro fumou um cigarro por nós,
Toda gente fará um jejum intermitente por nós dois...

-*-

fotografia do arquivo pessoal da autora 


MAR WOLKERS é natural de Goiânia/GO, e reside em Portugal há 22 anos, na zona de Sintra.

É membro acadêmico da ALAF - Academia de Letras e Artes de Fortaleza. 

É presidente da UHE - Goiás, Brasil, colaboradora do jornal africano O Kwanza, formada em Ofícios do espetáculo pela escola circense Chapitô, e é Técnica em Ação Educativa.

Foi classificada em 3º lugar no 'Concurso Internacional de Contos' de Araçatuba. 

Venceu o concurso 'Peças de Um Minuto', com a peça 'Beijo de Línguas', pela 'Companhia de Teatro Parlapatões'.

Obteve menções honrosas no 'Concurso Literário de Goiás' e no 'Concurso Nacional de Poesia da CICDR', na luta contra o racismo em Portugal. 

Fez parte do 4º e 5º Festival Internacional de Poesia 'Grito de Mulher' (CEMD – Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora).

Classificou-se em primeiro lugar no '1º Concurso de Prosa Erótica', da Silkskin Editora, cujo prêmio consistia em publicar, sem qualquer custo, a sua primeira novela erótica: 'Amantes Lepidópteras', que assinou com o seu pseudônimo erótico: Petchella, sua alcunha de criança. No entanto, os livros não chegaram a ser impressos devido ao falecimento da proprietária da editora.

Antologias e Coletâneas: criou e coordenou 3 projetos - Antologia 'Saloios & Caipiras' (Editora Suis Generis); Antologia de Cartas & Poesias 'É Urgente o Amor' e a Coletânea Natalícia 'Dê Coração de Natal' (Edições Vieira da Silva). Também participou de mais de 30 antologias poéticas e obras coletivas das mais diversas editoras. 

Livros publicados: como Marcella Reis, publicou 3 obras - Era Uma Vez a Poesia... (Chiado Editora/2012); O Dia Em Que Pari Minha Mãe (Edições Vieira da Silva/2013); e Lágrima Artificial (Editora AlmaLusa/2016). Em 2018 publicou sua primeira obra poética infantil, com seu heterónimo Cellinha: Bem-vindos à Selva da Cellinha (Edições Vieira da Silva).


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