A POESIA DE HELENA ARRUDA | por Nic Cardeal



fotografia do arquivo pessoal da autora 

8M

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardeal *)


Leia a poesia sempre impressionante de HELENA ARRUDA:

1)

NAUFRÁGIOS 

sobre o mar ondulante
minha embarcação segue à deriva.
sou obrigada a pegar o leme e a jogar no mar
tudo o que não quero, na tentativa de flutuar
um pouco mais.
o barquinho segue afundando
: água por todos os pequenos orifícios.
sou minha própria embarcação. não cabem nela
desassossegos desmemórias
desviveres. vivo.
subo na proa e tento encontrar a ilha, mas descubro
com saramago minha existência
: cruzo as fronteiras do pensamento e
atravesso sem cessar
as tempestades.
na linha do horizonte alaranjado,
encontro alguma esperança,
um punhado de paz.
sempre amanheço
em apneia
no oceano-azul-das-palavras-que-me-moram e
lembro que ainda posso nadar.

(* poema publicado no Jornal 'O Partisano', 03/09/2020)

-*-

2)

QUARENTENA

hoje o tempo escorre entre meus dedos,
que esfrego e enxáguo sem cessar
na esperança de encontrar as
lembranças da minha infância distante.

o tempo morno, estático, dos relógios –
duram uma eternidade, e, zás!
o ponteiro muda a direção da minha vida.

penso então
[a cada mudança do ponteiro]
naquilo que vivi, mas não queria.
acelero o ponteiro em direção ao futuro.
cambaleio entre ficar ou partir.

me dissolvo nas entrelinhas

pingando lágrimas escuras e borrando o caderno
que se abre ao vento de outono
das minhas janelas pesadas, maciças.

de novo o ponteiro, e
tenho uma saudade enorme do meu pai.
sonho que corro como louca para seus braços,
protetores,
porque preciso do seu abraço,
de ficar bem dentro dos seus laços.

zás! o ponteiro acelera e me faz ver
que estou confinada,
com uma estranha sensação de liberdade,
conquistada a duras penas: mulher madura.

o ponteiro muda de novo e eu acordo suada
do sono nauseado,
entorpecida de tristeza, e então
eu choro todas as mortes da minha vida:
morri tantas vezes,
tantas. hoje eu morri de novo.

e choro todas as mortes do mundo.
choro a minha morte, porque às vezes é preciso,
porque, às vezes, é preciso chorar. anoiteço.
amanhã eu vivo de novo. amanhã o ponteiro muda e
eu acordo. amanhã eu vivo de novo.
só amanhã.

(* poema publicado no blog 'Ruído Manifesto', 05/04/2020)

-*-

capa do livro 'Corpos-sentidos'

3)

PEDAÇOS 

sou feita de ossos, suor e sal
cunhada à base de algum tipo de metal
que gruda e depois quebra
e sangra e sua e chora e ri e se autocola

sou feita de pedaços dos outros,
feita de dores
de gritos
de sussurros
de gemidos
de sorrisos brancos
e francos

sou feita de lamúrias
de escárnios
de luxúrias

sou feita de tantos materiais:
colagem
pastiche
imaginário
crendices
ideologias
bobagens

sou feita de hipóteses
de possibilidades
de fragmentos
de escuros
de mistérios e sombras
de levezas e amarguras

sou feita de estrume
de terra
de chuva
de sol

floresço no inverno
na primavera, me aqueço
costumo caminhar pelos verões
despida das minhas certezas,
mas sei que no outono
visto minhas folhas e refloresço

sou feita de mim
sou sempre os meus destroços:
pedaços que vão
espaços que vêm
e me compondo
e me recompondo
sigo me enchendo
e me esvaziando
[de ti]

(* poema do livro 'Corpos-sentidos')

-*-

4)

CLAUSTROFOBIA

estou presa num mundo claustrofóbico. 
não há para onde ir. 
uma mulher é morta a cada sete horas 
no brasil. 
o abraço é risco de vida. o beijo é 
risco de vida. o toque é 
risco de vida. tudo é
risco de vida. 
uma mulher é morta a cada sete horas 
no brasil. 
na claustrofobia cotidiana, ainda 
há as balas perdidas
[e as achadas], 
ainda não sabemos quem mandou matar 
marielle franco. dia da mulher chegando. 
nada.
nada. 
só o silêncio. 
silêncio. 
uma mulher é morta a cada sete horas 
no brasil. 
ainda há o desmonte da pesquisa, 
mas foram os pesquisadores brasileiros 
que conseguiram testar
a positividade do vírus letal dentro 
de uma rapidez de internet
[quatro horas]. 
é a balbúrdia brasileira funcionando bem. 
mas não há vírus maior que o fascismo, 
que o machismo que mata uma mulher 
a cada sete horas no brasil, não há. 
quem mandou matar marielle franco? 
a cada sete horas uma mulher morre
uma mulher a menos de sete em sete horas 
no brasil. 
uma mulher a menos a cada sete horas uma mulher 
morre no brasil 
enquanto eu penso minha 
claustrofobia, 
uma mulher é morta porque é mulher, 
porque é. 
e ninguém faz nada. 
[nada]
ser mulher no brasil é assim. é também não ser. 
é a invisibilidade. 
mas eu poderia listar aqui, 
infinitamente, 
mulheres brasileiras que lutam e 
resistem 
cotidianamente, 
incansavelmente. 
eu poderia citar. 
seriam páginas infinitas, estrelas. 
seriam. 
mas as mulheres são invisíveis. são. 
ainda não sabemos quem mandou matar 
marielle franco. não sabemos. 
uma mulher é morta a cada sete horas
no brasil. 
[sete horas]
uma mulher.

(* poema em Divagações/2020)

-*-

5)

LUTO

hoje,
desescrevi o poema
desvivi os meses
desenterrei os mortos.
hoje,
desamanheci o dia
desacreditei nos homens
desatei os elos.
hoje,
desmontei a casa
destranquei as portas
desorientei os ventos.
hoje,
desanoiteci nas sombras
descabelei as ideias
desabei em lágrimas
à procura da esperança
: desaparecida.

(* poema para o Jornal 'O Partisano')

-*-

capa do livro 'Há uma flor no abismo'

6)

LABIRINTO

sigo divagando entre um poema e outro
decido afastar lentamente 
o sol-da-menina-dos-meus-olhos-d'água.

não quero o calor do astro-rei na janela do meu labirinto. 
corro encharcada de tristeza pelos campos de algodão e não encontro o mar.

retrocedo.

preciso me afogar no pacífico 
onde sempre sou mais feliz.

(* poema do livro 'Há uma flor no abismo')

-*-

7)

NO SILÊNCIO DO MUNDO

todos os dias aprendo a escutar as palavras
que moram debaixo das outras palavras 
: cachos que se desprendem dos meus cabelos
ou tranças que se desmancham pelas minhas
costas despidas de pudores. 

palavras 
: pios da águia ecoando nos meus ouvidos
murmuram muitas histórias. 
sigo o som, tateio no escuro o pensamento
em busca de asperezas e docilidades.

palavras
: cristais reluzentes 
quebram com facilidade o silêncio soturno
da minha vida
e depois me deixam sozinha
mergulhada na solidão da escrita.

(* poema do livro 'Há uma flor no abismo')

-*-
(*) 8M: 8 de Março = Dia Internacional da Mulher: Projeto 'Homenagem a mulheres escritoras/artistas', iniciado em março/2021, por Nic Cardeal.


fotografia do arquivo pessoal da autora 


HELENA ARRUDA nasceu em Petrópolis, RJ. É mestra e doutora em Literatura Brasileira (UFRJ). É poeta, contista, ensaísta, pesquisadora e revisora. É membro do corpo editorial da 'Revista Topus – espaço, literatura e outras artes', da UFTM. Finalista do Prêmio Off-Flip de Literatura 2021, na categoria poesia, e semifinalista, na categoria crônica. Escreve quinzenalmente para o Jornal eletrônico O Partisano.

Participação em antologias: Elas escrevem; Moedas para um barqueiro (Andross/2011); Por detrás da cortina; Amor sem fim (Beco dos Poetas/2012); A literatura das mulheres da floresta (Scortecci/2013); Hoje é dia de hoje em dia: literatura brasileira do século XXI (Multifoco/2013); Rio dos bons sinais (CMD/2014); O protagonismo feminino (Scortecci/2016); Escritor profissional (Oito e Meio/2016); Antologia de Poesias Mulherio das Letras (Costelas Felinas/2017); Mulherio das Letras - contos e crônicas (Mariposa Cartonera/2017); Tabu (Oito e Meio/2017); Casa do Desejo (Patuá/2018); Mulherio das Letras (Edição do Autor/2018); Mulherio pela Paz - contos & poesias (Edição das Autoras/2018); Ficção e travessias: uma coletânea sobre a obra de Godofredo de Oliveira Neto (7Letras/2019); Ato Poético (Oficina Raquel/2020); Ruínas (Patuá/2020).

Livros publicados: Interditos (poemas, Batel/ 2014);  Mulheres na ficção brasileira (ensaios, Batel/2016); Corpos-sentidos (poemas, Patuá/2020); Identidades em fuga: personagens-escritoras no romance brasileiro do século XXI (Margem da Palavra/Urutau, 2021); Há uma flor no abismo (poemas, Urutau/2022).



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