A ESCRITA DE GIOVANA DAMACENO | por Nic Cardeal

 

fotografia do arquivo pessoal da autora 

8M

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardeal)


Mergulhe na palavra sempre impressionante de GIOVANA DAMACENO:


1)

SEM FILHOTE


imagem via Pinterest 

Uma amiga me perguntou como está o ninho vazio. (Pra quem não sabe: é quando os filhos vão embora pra assumir seus próprios encargos neste mundo e a casa fica de um jeito que toda hora é nó na garganta.)

Minha resposta ficou vaga, confesso. Não sei explicar claramente o que sinto sobre essa ausência. Não me vejo como a mãe que a sociedade considera normal, aliás, nem meu filho me vê dentro da caixinha.

A educação dele foi libertária, com base em amor, respeito e liberdade de escolha. Os amigos e as mães dos amigos estranhavam ao ouvi-lo contar: “minha mãe diz que eu tenho de ir embora, estudar longe e ficar por lá”. Ele cumpriu o mandato e a mãe ficou satisfeita. Sério. Com choro, mas sem nem um pingo de dúvida do estímulo certeiro que dei.

Já vi mulheres dizendo de tudo um tanto sobre seus ninhos vazios. Da boca pra fora, da boca pra dentro, com estardalhaço, deprimidas. Já vi filha voltando em definitivo pra casa com pena da mãe, que ligava todas as noites chorando. Já vi mãe que se desfez em lágrimas durante os cinco anos em que o filho estudou fora. Já vi mãe que largou tudo pra trás e foi atrás da filha (essa história foi um desastre!).

Não há receita para viver. Não há dica milagrosa, simpatia, nem mágica. No meu caso, foi uma afirmação elementar: não educá-lo pra ficar agarrado na minha saia ad eternum. É cruel demais exigir isso. É o que penso. Pragmática que sou, foi mais fácil planejar e me programar para entregar meu rapaz à própria vida, até porque, se eu não entregasse, iria assim mesmo. É como funciona a nossa natureza e quem se recusa a ela, sofre.

Circula muito pelas redes sociais uma fala do Rubem Alves, que diz: “Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.”. Vai voar, sim, pra quão longe desejar ir, sabendo que tem pra onde voltar, em terra firme, se e quando quiser ou precisar. Jamais deixarei de ser a mãe, e com o respeito mútuo que cultivamos, viveremos bem um com o outro, ainda que à distância.

O ninho está vazio. Perfeito para escrever, estudar, vagabundear pelas redes sociais; pra me dedicar sem interrupção ao trabalho minucioso de pesquisa, aprendizado, criação e montagem dos meus terrários; pra tomar café comigo, tomar cerveja comigo, ir ao cinema no meio da tarde comigo, ler no sofá durante um dia inteiro sem interrupção. Tudo isso com plena certeza de que o cara está feliz. Tão simples e tão complicado de absorver, né? Está feliz: cursando o que escolheu por vontade dele, independente e autônomo como sempre foi e como batalhei para que fosse.

O ninho está vazio. E nada me falta.

(* crônica do blog 'giovanadamaceno.com', 09.11.2017)

-*-

2)

SILÊNCIO ABAFADO 


imagem via Pinterest 

Há um silêncio que me incomoda, a ponto de provocar mal-estar. Um tipo de silêncio abafado, como se houvesse no ar uma pressão qualquer e, dessa pressão, um som sem som se fizesse ouvir. Já escrevi sobre dias frios, sobre o silêncio dos dias frios. Lembro bem daquela manhã – estava em um banco de praça, meu filho brincava por perto. Era um dia frio e silencioso. O mesmo silêncio abafado. Diria que um silêncio acachapante. O silêncio do frio. As pessoas se encolhem, se recolhem, as ruas se esvaziam.


Tantos anos depois, ainda que goste muito – e cada vez mais – de silêncio, me desconforta esse tal silêncio abafado das tardes frias. Nem passarinho canta. Bem longe soa um pio fraco que logo some. Lá de mais longe vem um latido e mais outro latido. Em alguma cozinha louças se esbarram ou caem ou quebram. Um ônibus passa na avenida principal.

Tomo uma xícara de café, sozinha à mesa, atenta a esses ruídos distantes e abafados pelo silêncio da tarde fria. Respiro o vapor do café. Sinto uma tristeza. Passeio no passado.

O cheiro da tarde fria de silêncio abafado lembra o café da infância atravessando o coador de pano e enchendo o grande bule. Lembra o aroma do pão quentinho na cesta do padeiro de bicicleta, que buzinava subindo a rua. Lembra os finais de tarde em que chegava do colégio junto com a noite e juntava o que havia nas panelas num delicioso mexidão: arroz, pedaços de angu, caldo de feijão, ovos.

As tardes frias de silêncio abafado com cheiro de café e pão quentinho lembram o banho com a luz do sol fraco no basculante do banheiro, a camisetinha de algodão com paletó de flanela por cima e o pescoço branco de talco perfumado.

As tardes frias de silêncio abafado com cheiro de café e pão quentinho e talco perfumado lembram a horta no quintal e o canto do galo no galinheiro. Galo disciplinado, jamais perdia a hora. O canto da tarde encerrava o dia, a brincadeira. O canto da manhã… ah, desse eu não lembro.

As tardes frias de silêncio abafado com cheiro de café e pão quentinho e talco perfumado e canto do galo no galinheiro são tempos que fixaram morada eterna na memória, mas não são saudosos. Não os recordo como tempos felizes. Eram dias e tardes e noites melancólicos. Eram dias duros, de uma vida dura, das obrigações rigorosamente cumpridas, para garantir a sobrevivência. Eu era criança, não sabia de nada, mas sentia peso no ar. Sentia a vida sendo empurrada pela pressão acachapante das carências impostas pela vida. E o silêncio daquelas tardes é o mesmo que ouço agora, com os mesmos cheiros e ruídos. A mesma melancolia. Tomo mais um gole de café.

(* crônica do blog 'giovanadamaceno.com', 26.11.2019)

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3)

Sinopse sobre o livro

ALGUÉM PRA SEGURAR A MINHA MÃO

livro Alguém pra segurar a minha mão 

"Se morrer é um evento natural da vida, não podemos tirar das pessoas o direito de morrer em paz”. Essa foi uma das inúmeras frases marcantes que a jornalista Giovana Damaceno ouviu em horas de entrevistas e em visitas domiciliares, acompanhando o médico José Antônio Pereira Fernandes, do Serviço de Atenção Domiciliar de Volta Redonda/RJ. Tudo o que a jornalista apurou está no livro “Alguém pra segurar a minha mão”, (...).

Trata-se de um livro-reportagem, cujo projeto nasceu da compreensão de que pacientes terminais têm direito a morrer dignamente. Amiga pessoal do médico José, a jornalista conheceu o trabalho do SAD, que assiste esses pacientes em casa, até que encerrem seu ciclo, permitindo que se desliguem da vida naturalmente, com apoio e amparo da família e, por mais que possa parecer contraditório, com qualidade de vida, até o momento final.

— É difícil explicar, quando me perguntam “sobre o que é seu livro?”. É sobre a morte, mas não exatamente sobre a morte; é sobre o conceito de boa morte, a que todo ser humano tem direito: sair de cena suavemente, em casa, acolhido pelos familiares, com alguém querido a segurar-lhe a mão – Giovana tenta esclarecer.

Além de acompanhar as visitas domiciliares da equipe do SAD e entrevistar o médico e outros profissionais envolvidos, a jornalista mergulhou em pesquisa em literatura – livros e artigos produzidos por especialistas em cuidados paliativos, para conhecer tanatologia, entender ortotanásia, saber da origem dos cuidados paliativos e como se espalharam mundo afora. Giovana também dedica um capítulo à medicina, ao médico levado à condição de Deus e sua dificuldade (não revelada) em lidar com o fracasso da perda de seus doentes.

A jornalista acompanhou vários pacientes, esteve perto em seus dias e minutos finais e no livro relata três histórias que emocionam, por exibir a realidade como ela é e, segundo ela, como deveria ser para todos. Como declara no livro, “em princípio pensei ser forçoso tentar naturalizar a morte, contudo me dei conta de que não é possível naturalizar o que já é natural”.

O trabalho de Giovana é de testemunho da luta de profissionais em cuidados paliativos para uma mudança cultural que sacode o maior de todos os tabus da sociedade. A pandemia de coronavírus, cujas vítimas da Covid-19 morrem em sofrimento, agonizando em insuficiência respiratória, torna ainda mais evidente a importância de um ente familiar ao lado, segurando suas mãos, necessidade já destacada por médicos e enfermeiros que estão na linha de frente nos hospitais.

— Morrer sozinho, em qualquer circunstância, é muito triste. Com a óbvia exceção de ene outros casos, se a pessoa cumpre todo seu ciclo de vida e com certeza vai chegar a hora de encerrá-lo, por que não na sua cama, na sua casa, perto de quem ama? – questiona – No caso da Covid-19 é ainda pior: o paciente morre em agonia, com insuficiência respiratória, e sem ninguém por perto, segurando sua mão, fazendo uma prece, ou simplesmente junto. É cruel.

(* Sobre o livro Alguém pra segurar a minha mão, de Giovana Damaceno, texto extraído do site da Editora Penalux)

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4)

Sinopse sobre o livro

JUSTA CAUSA 


livro Justa causa

(por Dalila Teles Veras)

Se o caro leitor costuma olhar com ternura e compaixão para toda velhinha ou velhinho “largado” em asilos por “malvados” familiares, após a leitura deste livro de Giovana Damaceno, certamente mudará sua visão sobre o assunto e isso não será uma tarefa doce. Prepare-se para golpes no estômago e na alma. Dos livros anteriores de Giovana, li dois: Do Lado Esquerdo do Peito, Penalux 2013, narrativa de uma experiência pessoal e Alguém pra segurar a minha mão, Penalux, 2020, um livro-reportagem que aborda o tema da morte através da assistência médica em cuidados paliativos a pacientes terminais, feita em domicílio. A narrativa é tratada com delicadeza e habilidade pela autora. Em Justa Causa, Giovana se impõe mais um desafio: auscultar as tragédias de corpos velhos e frágeis, portadores de histórias inconfessáveis. Uma jovem estagiária trabalha numa “casa de repouso”, onde ouve casos com “enredos tristes, curiosos, dramáticos, horripilantes”, e aqui eu acrescentaria outros, como hediondos, apavorantes e espantosos! Dores guardadas em segredo que, finalmente, explodem na boca dos parentes dos “velhinhos fofos imundos”, ali deixados por eles em circunstâncias insuspeitadas, como a da filha que diz do pai “quero vê-lo morto, mas não vou matá-lo”. Não quero assustar o leitor. Giovana sabe como conduzir a leitura pela palavra certa e isso tem nome: Literatura — não importa o “gênero” ou “rótulo” que, eventualmente, essas narrativas venham a receber. Leia e desfrute do que até pouco tempo era raro de se ler: o lado mais obscuro do ser humano, narrado por uma mulher que também se dá ao direito de escrever sobre qualquer tema, sob ótica exclusiva e comando da própria linguagem. 

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(*) 8M: 8 de Março = Dia Internacional da Mulher: Projeto 'Homenagem a mulheres escritoras/artistas', iniciado em março/2021, por Nic Cardeal.

fotografia do arquivo pessoal da autora 

GIOVANA DAMACENO é natural de Volta Redonda/RJ, onde reside. É jornalista e escritora. Seus escritos estão compilados em seu blog pessoal (giovanadamaceno.com). Também possui textos publicados em diversas coletâneas e revistas literárias. É membro da Academia Volta-redondense de Letras.

Participação em coletâneas e antologias: I Coletânea Contos & Poesias Mulherio pela Paz (Alemanha/Brasil, ABR/2018); O livro das Marias (org. Jeovania Pinheiro, Ixtlan/2019); Sou mulher, logo existo! Amor, Liberdade, Luta e Resistência - 3a. Coletânea de Poesias e Prosas (org. Vanessa Ratton, ABR/2019); Antologia Comemorativa Dia Internacional da Mulher Mulherio das Letras Portugal  - Prosa e Conto (Lisboa, In-finita/2019); entre outras.

Livros publicados: Mania de escrever (crônicas, Clube de Autores/2010); Depois da chuva, o recomeço (crônicas, Clube de Autores/2012); Do lado esquerdo do peito (relato autobiográfico, Penalux/2013); Alguém pra segurar a minha mão (livro-reportagem, Penalux/2020); e Justa causa (contos, Penalux/2022).



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