A POESIA E A PROSA IMPACTANTES DE ILANA ELEÁ | Projeto 8M

fotografia do arquivo pessoal da autora

8M (*)

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardea)

Viaje na palavra sempre impactante - em poesia ou em prosa - da incrível escritora ILANA ELEÁ:


DEGELAR-SE

Falar por versos
Se o degelo enxágua
A neve
Antes pluma a nuvem branca
Que se fez boneco.
Lançar bola no silêncio 
Com gorro e cachecol
Ora poça,
As galochas das crianças 
Brincando.
O pescoço do grau positivo
Da temperatura
logo acizenta a nuvem,
A pluma, a neve chão. 
Mas o sol seca
Os fios escoam
Até o trator limpar a rua 
Com aqueles recomeços.
Gosto
Das fases da água e da luz
Para o verão 
Lento, na preguiça da primavera
Quem sabe no rosto nascer.

(* poema publicado na Antologia de poesias Mulherio das Letras, pp.51-52; e na Coletânea Elas e as letras, p. 189)

capa da antologia Mulherio das Letras

capa da coletânea Elas e as letras
-*-


ADVERSO

A tonteira alarga
faixas brancas 
pintadas na rua
para atravessar-se.

Os olhos cresceram
nos transeuntes
como se pudessem ver
as flechas
atravessando-me.

Virada
a mania ao avesso
do comprimido 
na travessa, a
goela vermelha 
do grito noturno.

A ala do hospital
é verde
como a espera
da lucidez
é sinal
imaturo
e verde:
Vai
Passar.

(* poema publicado em Conexões atlânticas - antologia II, p. 91)

capa da antologia Conexões Atlânticas II
-*-


MÚSICA

Era da flauta transversa
aquela voz aflita
para segurar o tempo.
Era do tamborim
a intenção de
ir afinando devagar
as distâncias que o
espaço pregaria.

(* poema publicado na Revista Literária Pixé, edição especial de 2020 - Brasileiros pelo Mundo)

capa da Revista Literária Pixé 
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AS CORES DOS SONHOS 

Derramei as cores das bandeiras
Iran, Iraque, Eritreia, Síria
na sala de rostos
na sala de aula noturna
de sueco para imigrantes

Traguei as cores
saídas das suas bocas
quando a professora indagou
sobre os nossos sonhos

Ser taxista
Ser carpinteiro
Ser pintor de paredes
Ter uma firma de limpeza,
eles responderam

E pude observar o sentido
da palavra sonho
em um trilho simples
e nem por isso menos
tortuoso

Desçam as nuvens
até aqui -
qual a altura para arriscar
o voo
quando o céu cabe no
sorriso desses meninos?

(* poema do livro Poemas acesos)

capa do livro Poemas acesos
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[MENOS CINCO GRAUS]

Voltei da caminhada
disposta
Abrir as janelas da casa
O vento frio
De março 
Correndo indomável 
Pelos poros do sofá
Fios das cobertas
Marcas no espelho
Páginas não escritas
Abrir as portas da casa
Para a fotossíntese
Sussurrada por pó
De algum sol
Acreditar-se primavera.

(* poema publicado em seu Instagram, 27.03.2018)

fotografia do arquivo pessoal da autora 
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Perseguição brutal 
Emparelha na surdina
explícita
O ódio imundo
às ideias progressistas
E valentia
Da mulher brilhante
maré de nós
Marielle.
O ódio torpe em tiros
covardes assassinos
Nos tiro-alva
Acreditando
silenciar
os princípios 

Em vão em vão em vão.

A maré de nós
Marielle
Segue em fúria 
E luta
Tendo ao seu lado
A viva brava
colorida multidão.

(* poema publicado em seu Instagram, 13.04.2018, em homenagem a Marielle Franco)


-*-


"(...)

1.

Quando Juliana abriu a porta do seu quarto, tocava a música "All the ways love can feel", do Maxwell, na pequena caixa de som conectada ao celular. Uma placa azul com a palavra STOCKHOLM estava pendurada na parede.

- Meu namorado trouxe de viagem - contou.

Ao perceber a coincidência, a antropóloga sorriu com os olhos surpresos. A anfitriã então perguntou, gentilmente, se Emma preferiria iniciar a entrevista ali mesmo ou descer para o bar mais próximo primeiro. 

- Como for melhor para você - Emma respondeu.

Emma era uma jovem antropóloga social, especialista em sexualidade. Após o primeiro ano de estudos teóricos na Universidade de Estocolmo, cidade onde morava, ela passaria seis meses no Rio de Janeiro para fazer seu trabalho de campo. 

Sua pesquisa de mestrado seguia em busca de definições de amor, sexo, desejo e paixão em relações contemporâneas no Brasil e na Suécia sob o ponto de vista de mulheres autodenominadas de "bem resolvidas", "independentes" e/ou "empoderadas".

Filha de mãe sueca e pai brasileiro, Emma tinha feito essa escolha devido ao interesse em pesquisar um tema familiar e estranho ao mesmo tempo. Um tema que de alguma forma dialogasse com culturas e práticas nos dois países. Mesmo tendo nascido na Suécia e morado nesse país nórdico até os seus vinte e sete anos, seu português era fluente, com um leve sotaque. A menina de cabelo louro encaracolado e olhos cor de esmeralda aprendera o idioma  em casa com o pai e também nas aulas oferecidas nas escolas suecas para todas as crianças filhas de pais imigrantes. Anualmente viajava ao Rio de Janeiro  para passar as férias com a parte brasileira do seu sangue. Dessa vez estava na cidade para dar continuidade e corpo à sua pesquisa, mergulhar no trabalho de campo, investigar sobre sexo, ouvir sobre sexo, descrever sexo. Essa era a sua imensa paixão, a verve mais quente, a sua busca pelas possíveis e mais íntimas verdades.

A antropóloga e Juliana - uma profissional do sexo  on-line e sua primeira entrevistada ao vivo - desceram até o bar Le Pulê na praça General Osório, uma animada área de bifurcação entre o final de Copacabana e o início de Ipanema. Juliana solicitou sentar na varanda do bar e pediu um Bloody Condessa - vodca com especiarias, suco de tomate e sal de aipo. Para acompanhá-la, Emma pediu um Madame  Zilda - gin, alecrim e pepino -, enquanto observava os gestos e as roupas discretas da jovem ao seu lado e de que maneira ela se adequava àquele ambiente sofisticado sem causar nenhum realce ou deslocamento.

- Hoje pedimos só mulheres em taças, vamos de condessas e madames - Juliana sorriu, revelando as covinhas. O seu vestido, como um largo e longo t-shirt cor de areia que se alongava até abaixo dos joelhos, tinha uma fenda aberta na parte lateral. Calçava sandálias baixas de couro verde-claro, as unhas dos pés no mesmo tom. A sua extravagância se concentrava na gargantilha estilo choker com ródio negro brilhante, ajustada bem no meio do longo pescoço. Emma não sabia definir se o brilho era devido ao strass ou às pedras semipreciosas. O único sinal de maquiagem era um pequeno traço de delineador em gel, também verde, nas pálpebras. 

- Pode me perguntar o que tiver curiosidade - disse Juliana, que tinha a mesma idade da antropóloga. 

- Você pode começar me contando a sua história  - retrucou Emma, com um olhar fixo intenso, sem sorrir. Conforme havia aprendido nas sessões de kundalini yoga, Emma agora fazia respiração diafragmática para manter o controle do ar, que entrava e saía dos pulmões, do seu corpo e do seu foco.

(...)"

(* excerto do capítulo 1 do livro Emma e o sexo, pp. 7-8)

capa do livro Emma e o sexo
-*-

(*) 8M: 8 de Março = Dia Internacional da Mulher: Projeto 'Homenagem a mulheres escritoras/artistas', iniciado em março/2021, por Nic Cardeal.

fotografia do arquivo pessoal da autora 

ILANA ELEÁ é natural do Rio de Janeiro/RJ, e mora em Estocolmo/Suécia desde 2011. É graduada em Pedagogia, com mestrado e doutorado em Educação pela PUC/RJ, e fez curso de extensão em Mídia-Educação, na Università Cattolica di Milano. Em 2018 recebeu o 'Prêmio Bättre Stadsdel' como promotora de cultura, ao criar uma biblioteca infantil aberta ao público - a Bibliotek Barnstugan - no jardim da sua casa, em Estocolmo, com intenção de oferecer um espaço de convivência literária e encantamento por livros às crianças e suas famílias. Trabalhou durante quatro anos como coordenadora científica na 'The International Clearinghouse on Children, Youth and Media', na Universidade de Gotemburgo, Suécia. Atualmente trabalha como bibliotecária em uma escola internacional, priorizando a leitura lírica desde tenra idade. É integrante do Mulherio das Letras Europa. Dedica-se à escrita ficcional: poesia, criação de videopoemas para o seu canal no YouTube, e livros infantis.

Livros publicados: Encontros de neve e sol (autoficção, e-galáxia/2018; Capire Edizioni/2019); Poemas Acesos (poesia, Patuá/2020); e Emma e o sexo (romance erótico, primeiro livro de uma trilogia, e-galáxia/2021).

Participação em antologias/coletâneas: Antologia de poesias Mulherio das Letras (org. Vanessa Ratton, SP: Costelas Felinas/2017); Coletânea elas e as letras (org. Aldirene Máximo e Jullie Veiga, SP: Versejar/2018);  Conexões atlânticas - antologia II (org. Adriana Mayrinck, Lisboa-PT: In-finita, 2018); entre outras.



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