A POESIA E A PROSA DE INES MAFRA | Projeto 8M

fotografia do arquivo pessoal da autora 


8M (*)

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardeal)


Mergulhe na palavra sempre surpreendente - em poesia ou em prosa - de INES MAFRA:


QUEM É VOCÊ 

Quem é você 
que só acontece nas noites 
em dias de chuva
em dias de vento
nunca em dias muito quentes
Quem é você 
que quebra o vidro
separador do real
e das fantasias
Sinto estranha loucura por você 
uma loucura forte e rápida 
como o raio
que aparece sem tempo de reflexão 
e desaparece sem explicação 
e joga seu fogo no céu 
mas a chama explode na minha cabeça 
Quem é você 
que horror, que loucura
que estranha energia 
você conhece
Que imprevisto futuro te espera
que rara cinza envenena teus olhos
que terríveis pensamentos 
te enlouquecem
Que puro desejo
se irrompe nesta tempestade 
e te santifica
Quem é você?

(* poema de Ines Mafra publicado no 'Acadêmico - Jornal Catarinense de Cultura', ano IV, n° 34, junho/1978, Blumenau/SC)

imagem do Pinterest 
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TERRÍVEL NOITE DE JULHO

Ele vinha falando de estrelas
Os telhados das casas estavam molhados
O sereno caía sobre nossas cabeças
Era uma noite de julho
Fria e terrível noite de julho
Não havia escadas para subir
Ele arrastava no chão os velhos chinelos
Nos olhos trazia aquele estranho enigma
que inutilmente tentei decifrar 
As mãos eternamente nos bolsos
O frio gelava seu corpo
O medo gelava minha alma
Andamos sobre a mesma estrada
naquela medonha noite de julho 
Os gatos saltavam dos telhados
Os morcegos agitavam as negras asas
Entre nós e o mundo existia
uma escura névoa 
O céu cinzento, pálido, sem estrelas
E ele trazia estrelas nos bolsos furados
Como poderei esquecer?
Se aquele vento noturno
ainda estremece a minha cabeça 
Estou sempre tropeçando nos gatos
Os morcegos me perseguem todas as noites
E todas as noites se transformam
naquela terrível noite de julho
Andamos eternamente na mesma estrada
desesperados.

(* poema de Ines Mafra dos anos 80, escrito em meu 'caderno de anotar motivos n° 02')

imagem do Pinterest 

-*-


Porque dentro estava latente 
o sono
era preciso luz forte
pra recuperar o espaço perdido
pra acordar do sono
que nos invadira
pra tirar o medo
e cair na vida
porque fora as coisas ficavam
cada vez mais difíceis e confusas
era preciso se fortalecer por dentro
era preciso uma força 
vinda de não sei onde
não esquentar a cabeça 
era preciso mais loucura
do que nunca
loucura solta e sadia
apesar de tudo, alegria
mas, como praga 
a neurose se alastrava
era preciso virar-se do avesso
descobrir o lado torto e o esquerdo 
ser mágico, malabarista
pra não cair na rede
feito peixe apanhado
feito homem acuado
pelo medo.

(* poema de Ines Mafra dos anos 80, escrito em meu 'caderno de anotar motivos n° 02')

"El malabarista", Michael Parkes, by Pinterest 

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VIRGI HALEM E O ANJINHO

Tinha muita chuva caindo do céu
era uma chuva diferente
que trazia pedrinhas transparentes
pedrinhas mágicas que sumiam sem explicação 
Tinha muita chuva caindo do céu 
e um anjinho por descuido também caiu
num lugar onde só existiam plantas
voava no verde imensamente leve voava
Tinha muita chuva caindo do céu 
o anjinho descobriu a plantinha única 
era uma plantinha frágil e solitária 
uma plantinha amarela quebrando a monotonia verde
o anjinho amou tanto essa plantinha
deu-lhe o nome de Virgi Halem
Virgi - ele dizia - O céu é muito lindo
correr em cima das nuvens é tão macio
Tinha muita chuva caindo do céu 
a terra amoleceu tanto
que Virgi Halem se desprendeu e morreu
e o anjinho dizia - O céu é tão lindo 
mas, Virgi Halem apodrecia no chão 
O anjinho ficou tão triste e voou
ninguém sabe pra onde
Tinha muita chuva caindo do céu.

(* poema de Ines Mafra dos anos 80, escrito em meu 'caderno de anotar motivos n° 03')


imagem do Pinterest 

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JANELA DIVINA

Deus acordou uma noite com vontade de se debruçar numa janela. Ele era muito só, só podia contar consigo mesmo. E havia uma janela. E Deus foi se aproximando com os olhos atentos, havia algo que o fascinava na janela, uma atração que vinha desde sempre, pois Deus não teve princípio, não nasceu. O fascínio que sentia não era propriamente pela janela, mas pelo que havia além da janela, por aquilo que se podia ver (imaginar?) através dela.

E Deus parado diante da janela. Esta o conduzia para um lampião de  um antigo poste. A janela dava para o mar. As ondas batiam de encontro à murada. Perto do poste: margaridas, parecendo que nasceram sozinhas, cresciam desordenadas, abandonadas de cuidados humanos,  eram tão bonitas com esse ar de abandono, pareciam tão livres.

Mais além: o farol. Mil luzes dentro da noite. Luzes esparsas, o barulho do mar, o vento e a escuridão.  E um lampião aceso próximo à janela. E um mistério que chamava, chamava... atraía. Deus não conseguia resistir. Não conseguia fechar a janela ou se afastar dela. Queria olhar (descobrir, experimentar, ir adiante) mais e mais. Assim acabou sentindo o que os homens,  mortais com maior ou menor grau de contradição,  costumam sentir. Prazer era a sensação  que experimentava quando contemplava a vida além da janela. Culpa era a sensação que tinha de não estar fazendo o que devia. E paz era era quando se encontrava consigo mesmo depois dos deslumbres diante da janela. E saudade... (ah, como essa era forte!), quanto ficava algum tempo sem poder voltar à janela. Acabou experimentando o que é agonia, angústia, loucura, alegria,  tristeza... e até mesmo ousou chegar numa palavra considerada inatingível (utópica?): felicidade. 

O vento sul... tão forte,  Deus acabou pegando um resfriado. Adoeceu gravemente,  não morreu porque Deus é imortal. Mas, bem que queria ter morrido. E, mesmo doente, nas outras noites, também levantava tentando chegar na janela. E, mesmo sendo Deus, não conseguia entender a sua paixão por uma janela.

Afinal, pensou, paixão é assim mesmo (é como loucura), não é pra entender,  é viver. Eis o mistério da fé. 

(Onde? Onde?)

(* conto de Ines Mafra publicado no livro Dança de cabeça, pp. 42-43)

capa do livro Dança de cabeça 

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CREPUSCULAR 

Eu prefiro sonhar
Estendo as mãos, vou buscar
o que é feito de matéria mais sutil
o que é leve e delicado
azul, pluma, caminho flutuante
Sons de órgão, de alaúde
Suave estremecer de violino
água cristal espuma
primavera cambiante, pôr do sol.
Eu-só-vendo-enternecida
Assistindo reverente.

(* poema de Ines Mafra publicado no livro Cristal)

fotografia do arquivo pessoal da autora 

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A poesia está no lixo e na rosa
em dois dedos de prosa...
O poema tremula
na fragilidade e na fundura
Nos paradoxos do dia a dia... quem não adia,
não alcança a alegria?
A Vida é voragem, noite e dia
A Vida é coragem, travessia
Entre o brutal e o sublime, um fio de esplendor arrebentado...
Partidos, fragmentados, espiralados,
tateamos na noite dos tempos 
com tempestades nos acordando, nos empurrando para o Abismo...
Onde está a Poesia?
No Coração dos Olhos que Viram 
Das mãos que se feriram
No Mar Absoluto Insondável, na Onda...
A Poesia passa, brinca de esconde-esconde 
Eterna, impermanente, insofismável, dura, amável...
A Poesia brilha nos escombros...
Sua voz oscila entre lamentos, maravilhamentos e gritos...
Quem estará disponível para vê-la, ouvi-la, tocá-la, cheirá-la?
Alguém? Ninguém?
Eu me pergunto...

(* poema de Ines Mafra publicado nas redes sociais, de 01/10/2021)


imagem do Pinterest 

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(*) 8M: 8 de Março = Dia Internacional da Mulher: Projeto 'Homenagem a mulheres escritoras/artistas', iniciado em março/2021, por Nic Cardeal.

fotografia do arquivo pessoal da autora 


INES MAFRA é natural de Brusque/SC e reside há muitos anos em Florianópolis/SC. É uma das fundadoras do 'movimento cult' dos anos 70 em Brusque/SC, e participou da organização e edição dos jornais 'Cogumelo Atômico' e 'Visor', e da revista 'Flama', todos da 'geração mimeógrafo', nos quais publicou seus primeiros textos. É graduada em Estudos Sociais pela UNIFEBE. Cursou Mestrado em Letras pela UFSC, com a dissertação 'Paixões e máscaras - interpretação de três narrativas de Hilda Hilst'. Doutora em Literatura Brasileira, também pela UFSC. É poeta, contista e contadora de histórias.

Livros publicados: Dança de cabeça (narrativas  Florianópolis/SC: Fundação Catarinense de Cultura, 1981); Cristal (poesia, Florianópolis/SC: Editora da UFSC, 1993); A casa amorosa (poesia infantojuvenil, Blumenau/SC: Editora Cultura em Movimento, 2002).

Participação em coletâneas e/ou antologias: Os contos da FURB (Blumenau/SC: Editora Acadêmica, 1979); A literatura de Santa Catarina (Florianópolis/SC: Editora Lunardelli, 1979); Presença da poesia em Santa Catarina (Florianópolis/SC: Editora Lunardelli, 1979); Outros catarinenses escrevem assim (Blumenau/SC: Editora Acadêmica, 1979); 21 dedos de prosa (Florianópolis/SC: Editora Cambirela/ACEs, 1980); entre outras.





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