A POESIA E A PROSA DE JEOVÂNIA PINHEIRO | Projeto 8M


fotografia do arquivo pessoal da autora 

8M (*)

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardeal)


Viaje na palavra múltipla - em prosa ou em verso -  de JEOVÂNIA PINHEIRO:


O AMOR DA MINHA VIDA

O amor da minha vida não é verde
É negro

O amor da minha vida é a solidão 
Uma solidão negra
Quente como o mar negro
Incapaz de deixar misturar
Esperança ou dinheiro 
Compra e venda de amor

O amor da minha vida é forte
Como a resistência aos troncos e chibatas

É originário 
Do Eu em si
Do princípio dos homens
Vem lá da África 
Firme na certeza de ser o que é 

O amor da minha vida

(* poema do livro A-M-O-R, p. 27)

capa do livro A-M-O-R 
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A OUTRA PARTE

Eu não te chamei pelo nome, tava tarde e eu nem sabia reconhecer nenhum dos teus traços nem se eras humano ou ilusão noturna. Tava mesmo muito tarde, num negrume que era impossível se ver a imagem do espelho, quiçá saber quantos o miravam consciente ou inconscientemente. Reflexo é algo que não existe direito dentro de tamanha escuridão, mal se pode tatear as coisas para não cair, imagine ter reflexo, saber desviar de algo ou ser imagem em corpo espelhado. O reflexo é uma ilusão que a ausência de luz não permite surgir. Por isso não te chamei pelo nome, gritei apenas de medo, desejei que houvesse alguém ali ou nas proximidades capaz de me ouvir. Até se tu existias era uma incógnita para mim, poderia muito bem não haver nada e ser tudo aquilo abismo sem fim que a escuridão traz consigo quando ficamos cegos. Não te chamei pelo nome, esperava apenas que tivesse alguém ali, que fosse capaz de acender a boca de um fogão e deixar ali, sem panela, só para ser luz, só para ser fogo, só para enxergar o que havia ali, ver o espelho e poder nomear a ti que abre a boca e não grita, nem produz som algum, só abre, só estica os braços, as mãos, mas não toca nem acende o fogo. Inerte. Ser de mímicas, que não é de ação, que nem na luz faz algo além de me olhar.

(* conto do livro Quem abriu a boca da pedra?, pp. 78-79)

capa do livro Quem abriu a boca da pedra?
-*-

LAURA


A pele negra molhada do banho, reluzindo as gotas de óleo recebe as mãos que percorrem as carnes voluptuosas, enquanto o olho olha do buraco da parede e goza.

(* microconto do livro Quem abriu a boca da pedra?, p. 100)

imagem do Pinterest 
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MULHER NEGRA


Não abrir mão dos cachos
Dos olhos saltitantes 
Da curiosidade feroz
Da inteligência aguçada
Do molejo nos quartos

Nem do direito de usar esses lábio pra gritar
Nem de usar esses outros com quem quiser

Não abrir mão de si mesma
Por ninguém 
Nem por sociedade alguma 

Nunca abrir mão desses peitos fartos
E cheios de sentir

Afinal
Quem leva o fardo e o prazer de ser
Uma mulher negra 
É só a mulher negra

(* poema da coletânea de poesia e contos O livro das Marias, p. 33)

capa da coletânea O livro das Marias 
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BRECHANDO

Coloquei o globo do olho
No buraco da fechadura 
Pra espiar
Tudo isso que tem entre as linhas
Da escrita feminina

Tudo que cheira
Tudo que arrepia
Tudo que vibra e goza

Toda a luz
Que atravessa a porta

(* poema da coletânea de poesia e contos O livro das Marias II, p. 87)

capa da coletânea O livro das Marias II 
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(*) 8M: 8 de Março = Dia Internacional da Mulher: Projeto 'Homenagem a mulheres escritoras/artistas', iniciado em março/2021, por Nic Cardeal.


fotografia do arquivo pessoal da autora 

JEOVÂNIA PINHEIRO é natural de Natal/RN e reside em Bayeux/PB. É graduada (bacharelado e licenciatura) e mestre em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba - UFPB; especialista em Educação pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB; licenciada em Letras pela UFPB Virtual; atualmente cursa especialização em Educação Financeira pela UFPB, e é aluna especial do doutorado utorado em Literatura pela UFPB. Educadora pela Secretaria do Estado da Educação da Paraíba e professora da disciplina de Filosofia do Governo do Estado da Paraíba. É escritora, poeta, atriz, diretora teatral, produtora musical. Possui publicações em jornais online, zines, blogs, livros individuais, antologias e coletâneas. Obteve Menção Honrosa no 'IV Concurso de Poesia Luís Carlos Guimarães', pela Fundação José Augusto, em 2001. Conquistou o 1° lugar no 'I Concurso Literário de Contos  dos Estudantes da UFPB', em 2006; bem como o 1° lugar  no 'I Concurso Poético-Performático da SAMBA', em Natal/RN, em 2011. Dirigiu o espetáculo poético-teatral 'Desconstruindo a poesia', participante do 'Projeto Aldeia SESC/PB', em 2017. 

Participação em antologias e coletâneas: O livro das Marias (poesia e prosa, org. Jeovânia Pinheiro, São Paulo/SP: Editora Ixtlan, 2019); O livro das Marias II (poesia e prosa, org. Jeovânia Pinheiro, São Paulo/SP: Editora Ixtlan, 2020);  O livro das Marias III - Uma força sublime (poesia e prosa, org. Jeovânia Pinheiro, RJ: Editora Revista África e Africanidades, 2021);  O livro das Marias IV - O feminino vestido de fé (poesia e prosa, org. Jeovânia Pinheiro, RJ: Editora Revista África e Africanidades); Escrituras negras - A mulher que reluz em mim (org. Jeovânia Pinheiro, São Paulo/SP: Editora Ixtlan, 2020); Escrituras negras II - As marcas (org. Jeovânia Pinheiro, RJ: Editora Revista África e Africanidades, 2021); Escrituras negras III - As pretas também amam (org. Jeovânia Pinheiro, RJ: Editora Revista África e Africanidades, 2022); entre outras.

Livros publicados: Palavras poéticas (poesia, São Paulo/SP: Editora Ixtlan, 2016); Poeticamente entre versos & bocas (poesia, São Paulo/SP: Editora Ixtlan, 2019); A-M-O-R (poesia, Belo Horizonte/MG: Sangre Editorial, 2019); Quem abriu a boca da pedra? (poesia e prosa, Belo Horizonte/MG: Editora Venas Abiertas, 2019); Na estrada da poesia (poesia, 2021); Olhar (poesia e prosa, Belo Horizonte/MG: Venas Abiertas, 2021); entre outros.




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