De Prosa & Arte | Pelo Centenário de Paulo Freire

 


Coluna 30 

Pelo Centenário de Paulo Freire

Hoje me ocorreu contar de uma experiência pedagógica que tive em terras mineiras (minha terra natal ancestral), precisamente em Belo Horizonte, adentrando o ambiente Universitário da UFMG: 


"Seguimos num grupo de docentes congressistas para ouvir palavras de aprendizado e acalanto da nossa alma educadora, trocar vivências pedagógicas e nos afinizar com as ideias de Paulo.

 

Nessa ocasião, tive oportunidade de reconhecer a força motriz dos povos nativos, nossos irmãos indígenas, caboclos, curadores, da força primaz do verde e da terra-mãe num lindo Toré. Eram Pataxós Hã hã hãe, Guaranis Mbya, Maxacalis e Xacriabás. Naquele rito circular sob manifestações indígenas de liberdade a presos políticos, se via a intenção de manter a resistência contra a opressão que limita o povo da terra, os originários. Num dos líderes indígenas, relembrei um tio, já falecido, do qual não pude beber a passagem-morte. Tudo nele lembrava seu jeito. Como mover o corpo, sorrir e olhar. Não pude deixar de observar, isso me emocionou deveras. 


Em seguida, o toque do Moçambique (Congada), o rufar dos tambores, ecoando vozes negras e o chocalho ritmado dos passos marcados, arrepiaram e me levaram às lágrimas. Um lindo cortejo absoluto e inclusivo, que também renova minha energia primaz. Ali estava posto o desejo de manter o punho em riste por nenhum direito a menos e nenhuma causa de luta apagada. Indígenas, Negros, Quilombolas, Tatás e Ialorixás. Aos gritos de Marielle Presente e Rafael Braga Livre! Lembramos Freire.


Ando mesmo muito afetada por uma série de questões que envolvem minha busca pessoal de crescimento profissional e humano. Ver o espaço educativo ocupado pelos meus, renova minha esperança de maior ocupação nos lugares de prestígio e liderança, mantenho os olhos abertos e carrego meu vermelho rubro. Recuar e esmorecer não é mais possível, de posse do conhecimento humanizador, progressista e emancipatório.


Daí, lembro minha avó negra índia que me ditava ou soletrava palavras difíceis com seu pouco estudo, mas muito conhecimento vivenciado. Minha vó preta, pura pajelança e griotagem. E como essa força me levou até ali, num ambiente acadêmico. Universidades ainda são pra mim lugares assustadores, uma sensação de não pertencimento. Mas sei que preciso existir ali e levar narrativas dessa construção negra que tenho produzido.


Junto aos colegas congressistas ansiamos o diálogo com Paulo, que fomos buscar através das ideias de M. Arroyo. Quebrando protocolos, o que seria uma mesa solene, se perfez numa sala de estar, onde o reitor negro trouxe Freire, e sua luta pela alfabetização de adultos, em sua simplicidade nos contando que em sua tenra idade havia ensinado sua mãe a ler, para dar-lhe o poder de trocarem cartas/escritos de afeto e encorajamento. Hoje, a frente da Universidade refazia mentalmente os caminhos de estudo de sua matriarca.


Freire também chegou nas palavras de sua esposa Nita, fã e organizadora literária, cuja autoestima reaviva o eu mulher. Sim, ocupamos! Nos refazemos, somos fluxo contínuo de conhecimento.


Em posse do desejo de troca humanista, seguiu o baile pelas palavras da linda professora Analise Silva, negra de voz branda e diálogo franco, cuja apresentação do convidado tornou-se sincera, poética e poderosa reminiscência. Recebemos o palestrante M. Arroyo, tendo sido mencionado pelo livro Passageiros da Noite, causa do nosso estudo e reflexão.


Neste livro, Arroyo dá voz aos oprimidos e nos diz que nada do que escreve deve ser prescrito como bula ou modelo, nos provoca a buscar no original Freire, estimula a seguir acautelados da vaidade do tudo saber.


Em terras mineiras, recebendo a unção das palavras dos mestres. Sob as bênçãos de Freire, na quebra de protocolo de estudante ou intelectual, no meio das minhas pirações poético-pedagógicas, deixe-me ir. Educar e aprender é caminho... Livre Passagem!


O espaço acadêmico é também meu espaço de saber, preciso retomar sem medos essa trajetória. Na mente só ecoa: 4P (Poder Para o Povo Preto e Paz).


Nos livros me livro, versejando palavras e reflexão, sinto todos em trânsito... passageiros da noite e do dia seguimos em construção político-pedagógica e social."


Um Viva a Paulo Freire!


Edição By Guiga Preta



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