Conto | Reminiscência, por Jeane Tertuliano


|Coluna 06|

EU VAGUEIO SEM SAIR DO LUGAR enquanto observo uma garota a brincar com o seu gato negro. Do alto do meu ser, eu avisto uma criança a correr, sorrindo bobamente... fecho os olhos e tento fazer com que essa sensação nostálgica evapore, pois nada é real no que vejo. Um ser pueril não pode se divertir de tal maneira estando emocionalmente em frangalhos. Deixando as janelas entreabertas, caminho até a minha cama e sento-me na beirada. Pesco Os Sofrimentos do Jovem Werther na cabeceira e o folheio; lágrimas lavam as minhas bochechas róseas enquanto me demoro no seguinte trecho:

"Por que tem de ser assim? Por que o que faz o homem feliz pode tornar-se a fonte de sua dor?"

Por quê?! — ouço a minha voz chorosa encher o recinto de melancolia. Passos se fazem ouvir do outro lado da porta e, apesar de o som ser demasiado reconfortante aos meus ouvidos, eu anseio fervorosamente não mais escutá-los. Deposito Goethe no seu devido lugar e rumo à porta, mas um tremor repentino me engolfa e me faz recuar, aflita. “Mantenha o controle, por favor” — suplico para o meu alter ego. Abraço-me e caminho de costas por tempo indeterminado, submersa em meus devaneios. 

Eu gostaria de poder aprisionar os meus demônios e buscar viver como uma moça normal, sã; mas sempre que ouso fazê-lo, sinto-me posta do avesso, suspensa por garras que dilaceram minha pele lívida, ameaçando jogar-me em um abismo lúgubre, hediondo. Ainda trêmula, viro-me e encaro a manhã. Estagno com a cena inacreditável que se desenrola diante dos meus olhos vítreos. O céu que anteriormente estava anil, agora não mais pode ser visto, pois há nuvens que o revestem de um negror mórbido. A garota que estava a brincar com um bichano de pelos da cor de azeviche, está curvada sobre uma pequena poça escarlate, onde há uma massa disforme. Seu vestido longo e volumoso me impede de obter mais claridade no que vejo, mas em sua mão pequenina eu enxergo com perfeição um martelo mediano, pingos rubros escorrem do cabo e deslizam vagarosamente sobre os dedos finos da criança até irem de encontro ao chão. Num rompante, a cabeça da miúda gira em minha direção. Olhos repletos de trevas olham para além do meu ser como se pudessem enxergar o meu âmago.

Por um mísero instante, ouvi os batimentos desgovernados do meu coração irromperem em meus tímpanos, e o desespero que ameaçara se aproximar de mim toca-me os pulmões, deixando-me a sufocar. Agonizando, busco convulsivamente pelas fechaduras das janelas. Para o meu pavor, antes de eu conseguir trancá-las, vislumbro a ausência da garota lá fora. 

Praticamente me arrastando, sigo em direção à porta, clamando ardentemente para que os passos se fizessem audíveis novamente e eu pudesse enfim me livrar desse sentimento aterrador que está a reclamar o meu fôlego. Ao passar defronte o espelho, prendo a respiração. Eu encolhi e estou trajando um lindo vestido, longo e volumoso. Em minha mão há um martelo banhado por um líquido carmesim e viscoso, mas o pior está estampado nas janelas da minh‘’alma: não há globos oculares e sangue jorra dos vãos onde deveriam constar olhos pueris. Antes de eu desfalecer, a boca à minha frente sorri e dentes pontudos e carcomidos ficam à mostra. Uma voz soprada pergunta em minha mente: “você não tentará reprimir as lembranças dessa vez? Um odor pútrido inunda o ar enquanto eu despenco em câmera lenta até o chão, e a nostalgia que me acometera noutrora embala-me à inconsciência.



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