A POESIA IMPRESSIONANTE DE IVY MENON | por Nic Cardeal


fotografia do arquivo pessoal da autora 


8M

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardeal)

Navegue pela poesia sempre impressionante de IVY MENON:


IN_ADEQUAÇÃO 


infelicidade a minha
nasci poeta
não há muito o que dizer à rua
o dia se vende
e de mercado nada entendo
pouco sei de sangue
suor
e lágrimas derramados no campo

não comercializo Poesia
ocupo-me de desimportâncias
gastei-me noutra dimensão
fugi da linha de combate
desgostam-me enfrentamentos

meus dedos uivam sílabas
eu temo mediocridades
luas novas
idade das trevas
e fogueiras bruxuleantes
a incinerar-me as letras
teimo-me cobrir de cores abstratas
riscar-me de giz
e as margens não comportam in_adequações

restam-me ruas desertas e versos inacabados

(* poema publicado na Revista 'Ruído Manifesto', 30/10/2018)

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poema-ilustração do arquivo pessoal da autora 


MAPA DAS MÃOS DA MINHA MÃE 

minha mãe desnasceu artesã
nada sabia da beleza das retas
suavidade nas curvas das linhas e agulhas
e me ensinou ponto cheio
rococó
escama de peixe
quase aprendo o ponto atrás
do ventre dela desnasci artesã

observo a colcha de retalhos
herança torta
o forro frouxo desigualado nos cantos
entendo o mapa de suas mãos
e seus olhos apavorados com o frio

minha mãe nunca soube costurar belezas
conhecedora de matemática
vivia de multiplicar pão
e transformar miséria em aconchegos
nela me vejo
:
minha mãe era especialista em construir espelhos

(* poema postado na Revista 'Mallarmargens', 21/04/2020)

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poema-ilustração do arquivo pessoal da autora 

TRÊMULA

pendurei Poesia no varal
poemas bêbados de ontem
lágrimas de riso e dor tramam seus fios
lavei-os
levei-os para longe

nua
observo a curva do tempo no arame 
cubro farpas
disfarço rusgas
conto as horas

costurei cinzas
letras perdidas que se arvoram flores
:
que a brisa as embale
que o vento lhes enxugue os olhos
que o sol lhes seja leve

mais uma vez 
me visto de versos secos
e sigo
refaço caminhos de pedra e sangue
reescrevo o destino

(* poema extraído de sua TL, de 21/03/2021, para o Dia Mundial da Poesia)

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capa do livro Matemática das algemas 

EXPOSIÇÃO 

as dores se deitam ao meio-dia
no meio do meu caminho
espinho na carne

penso fugir
carrego cruzes
alho nos bolsos
e dois dentes caninos me brotam afoitos
não há onde me esconder da sina

as esquinas me perseguem
lepras escarpas escaras
trapos estendidos pelo chão 
as calçadas mendigam amor

afeto
choro réstia de luz

não fosse o amor fratura exposta
algoz
adaga a perfurar-me artérias 
escreveria versos em braile
e
... arrancaria os próprios olhos

(* poema do livro 'Matemática das algemas', pág. 19)

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poema-ilustração do arquivo pessoal da autora 


DIÁRIO DE BOIA-FRIA

dos meus maiores medos
menina boia-fria
era o amanhecer
:
de madrugadinha
a mãe preparava a comida
no embornal da família
o cheiro de café me acordava

gravetos estalando no fogão
bater das tampas e colheres
frigir do óleo na panela
(cantar de galo no telhado)
me faziam tremer

a labuta chegara de novo
não teria escolha
o corpo ainda doído de ontem
ultrapassaria limites

tinha muito medo de nascer o dia
o sol traria em seu rastro
caminhão enxada moringa
chapéu de palha marmita
exaustão de ruas de soja
a serem carpidas
imensidão dos cafezais
a serem colhidos
cana a ser cortada
feijão a ser arrancado
debulhado ensacado

o algodão branco em flor
arrastado em fardos
amarrados na cintura
deixaria rastros fundos no chão
onde eu descalça trilhava

nos eitos capinados por boias-frias
homem mulher menino menina
preto branco
parceiros da mesma agonia
paga distribuída
de acordo com o trabalho
medido ao fim do dia

cresci metendo a enxada no chão
sangrando a terra vermelha
vertendo suor
vendendo a força dos braços finos

e temia
mais que o nascer do dia
tremia não ouvir o frigir das panelas no fogão
temia perder a esperança 
do prato de comida em minhas mãos

(* poema extraído de sua TL, de 01/05/2021, para o Dia do Trabalhador)

-*-
(*) 8M: 8 de Março = Dia Internacional da Mulher: Projeto 'Homenagem a mulheres escritoras/artistas', iniciado em março/2021, por Nic Cardeal.

fotografia do arquivo pessoal da autora 


IVY MENON (Ivanilda Maria Menon) é natural de Cornélio Procópio/PR, e atualmente reside em Rio Negro/PR. É bacharel em Direito, pós-graduada em Filosofia e Teoria do Direito, especialista em Direito do Trabalho. Escritora, jornalista e teóloga. Desde muito jovem trabalhou no campo como boia-fria; aos 20 anos passou a trabalhar como jornalista no jornal 'O Diário do Norte do Paraná' (Maringá/PR); a partir de então, e até se aposentar, exerceu atividades junto ao Tribunal de Justiça do Trabalho do Paraná. Em 2006 venceu o 'I Concurso Carioca de Poesia', promovido pela 'Associação Brasileira Cultural de Apoio à Cidadania - Abraci', em parceria com a 'Academia Brasileira de Letras - ABL' e com a 'Federação Nacional de Cultura - Fenac'. É membro da 'Academia de Letras de Maringá'. Escreve poesia, contos e crônicas, publicados em revistas eletrônicas e nas redes sociais. Finalista do Prêmio Off Flip 2018, 2019 e 2021.

Livros publicados: Flores amarelas (poesia, prêmio do I Concurso Carioca de Poesia'/2006); Matemática das algemas (poesia, e-book, Camino Editorial/2021); Asas de terra e sangue (crônicas, Arribaçã/2021).




Comentários

  1. Honradíssima pelo carinho de ter poemas meus publicados por vocês! Obrigada.

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