A PROSA E A POESIA DE LINDEVANIA MARTINS | Projeto 8M

fotografia do arquivo pessoal da autora 


8M (*)

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardeal)


Mergulhe na palavra sempre precisa - em prosa ou poesia - de LINDEVANIA MARTINS:


NOTAS FINAIS DE UM FARSANTE

No fim, ao menos no fim, devemos ser verdadeiros. É quando nada mais importa. Nem ridículos, nem rejeições, nem misérias. Então, digo, antes de sair de cena. Sempre tive medo.
Da morte. Do amor.
Até das palavras sentia medo. Por isso tive que escrevê-los, exorcizá-los, desgastá-los. Como a uma faca que se usa muito sem pedra que a afie. Cegá-los.
Usei-os como um deus implacável exercitando sua ira. Tudo o mais foi secundário, acessório. E ninguém pode me acusar de parcialidade. Fui justo. Nem a mim poupei.
Claro que desde o começo sabia que não seria para sempre. Do mesmo modo que vocês sabem que suas existências são datadas. Ainda que varram tais pensamentos para baixo do tapete sob o sol de domingo.
Eu e vocês estamos apenas tentando nos safar. Como os outros. Impossível não haver feridos se o fazemos ao mesmo tempo, não é?
Enganei-me muito tempo dizendo que preferia a verdade. É mentira! Prefiro a fantasia. 
Mas deixem-me rir um pouco que meus dentes velhos ainda são belos.
Talvez tudo tenha sido um grande equívoco. Pilhéria. Mas se até agora não obtive certezas, quando as terei?

(* conto publicado no livro Anônimos: invenções de amor, morte e quase-morte, pp. 137/138)


capa do livro Anônimos 

-*-


LONGE DE MIM

O Outro meteu os pés em nossas vidas depois que o Tio Paulo se foi. Cinco anos depois, nada sei sobre aquela partida. Apenas que naquela noite havia uma chuva grossa e fazia um frio tão forte que puxei o cobertor inteiro sobre meu corpo. De nada me recordo, nada ouvi. Talvez estivesse cansada, talvez o barulho da chuva fosse alto demais, talvez discutissem baixinho ou simplesmente ele nada tenha dito, apenas se esgueirado em silêncio pela madrugada.
No dia seguinte, nenhum comentário ela fez sobre seu sumiço, nenhum gesto. Coube a mim fechar as portas escancaradas do guarda-roupa e recolher os cabides vazios. No banheiro, o creme de barbear ficou abandonado sobre a pia. Mais tarde, na soleira da porta, observei marcas de pegadas no chão de cimento cru. Indo e voltando. Como se, ao se lançar para fora, ele retrocedesse indeciso.
Ela nunca falava sobre si mesma, nem se lamentava. Porém, ainda que nada dissesse, seu semblante era só tristeza. Não levantou da cama, não puxou meu cabelo, não brigou comigo, nem perguntou porque eu faltara à escola. Por meu lado, não fiz barulho, não liguei a televisão e permaneci muda, sentada no chão ao seu lado, para ver se ela dormia um pouco. Não sentia fome, embora já fosse tarde e nada tivesse comido desde a manhã. Brincava ao pé da cama com o quebra-cabeças que Tio Paulo me dera. Montava e remontava as peças, elaborando os mesmos desenhos, enquanto a vigiava com os cantos dos olhos. Uma certa tristeza também se abatia sobre mim naquele silêncio. 
Mais tarde, fiz a comida que ela não quis. Contrariada, parei de pedir que levantasse, que comesse algo, que lavasse o rosto. Encolhida, ela não tinha vontade de nada. Seus olhos permaneciam parados, fixos no vazio. Às vezes, faziam pequenos círculos e depois se fechavam para se abrir de novo para a mesma fixidez. Lembrei da minha irmã morrendo no hospital. Ela tinha só algumas horas de vida e seu olhos também abriam e fechavam daquela maneira esquisita. De repente, tive tanto medo que ela também morresse que pisei o quebra-cabeças espalhado pelo chão e de um pulo subi na cama para abraçá-la.
Naquela noite, dormiria abraçando seu corpo e ela nem reclamaria, se aninhando junto a mim. De tal modo enlaçadas, parecia tanto ser eu e a mãe e ela a filha, que embriagada pela novidade, cantarolei músicas de ninar baixinho em seu ouvido, fingindo que ela ainda não dormia. Feliz por aquela inversão, senti um calor tomando meu corpo e desejei, do fundo do coração, que ela fosse abandonada mil vezes.

(...)

(* excerto do conto Longe de mim, pp. 5/7)

capa do livro Longe de mim

-*-


MÃE, AINDA VAMOS JUNTAS

Mãe, ainda vamos juntas surpreender o nascer do sol.
Será numa segunda-feira, dia de trabalho, dia impossível, bem no meio dos meus múltiplos compromissos, para marcar a importância desse ato de liberdade. Não estarei colérica, não consultarei o relógio a cada instante, nem lembrarei das contas a pagar. Nossos celulares estarão em casa, esquecidos. Não teremos nenhum roteiro pré-definido.
Vou te oferecer um riso escancarado,visível. Chegaremos quando a praia estiver vazia. Caminharemos na areia de mãos dadas e você irá dançar como fazia antes dos filhos. Não vou me preocupar se verão que estou acima do peso em meu maiô branco, nem você irá se envergonhar das varizes nas suas pernas e coxas. O mar estará lá, nos esperando. As placas que o interditam para o banho terão sido retiradas para sempre. O mar estará limpo e límpido como nossos olhos estarão, sem nos oferecer outros perigos senão esses que as imensidões sempre nos trazem.
Agora, vai. Fecho os olhos apenas para imaginar melhor esse dia.
Mãe, não chora. Não se acredita  em tudo o que os médicos dizem. 
Mas se estiverem certos, cuida da minha filha por mim.

(* conto publicado na 2a. coletânea de prosa Mulherio das Letras, p. 80)

capa da 2a. Coletânea de prosa Mulherio das Letras 

-*-


QUANDO EU TINHA MEDO

Quando eu tinha medo
e não sabia
que Deus também o tinha
pregava pesados rosários nas paredes
espalhava santinhos com auréolas nas estantes
e sob meu travesseiro azul sempre punha
bolsa com água benta
punhal, não. 
Quando eu tinha medo
e não sabia 
que meus noturnos algozes também o tinham
embrulhava-me feito múmia 
em lençóis quase sempre brancos demais
dormia com um olho fechado
o outro muito aberto
e rezava baixinho
para que amanhecesse logo.
Quando eu tinha medo
e não sabia 
que todos também o tinham
alimentava a esperança 
de que um dia
os fantasmas cansariam
da escuridão do meu armário 
das sombras das árvores do meu jardim
e do vão sob minha cama.
Já se vão trinta anos
e hoje sei
que eles só se escondem
dentro de armários escuros
nas sombras dos jardins
nos vãos sob as camas
porque sentem um medo mais miserável
e mais amarelo que aquele que experimentei
sempre tecendo inúteis fantasias
de que um dia
nos cansemos
de segregá-los
de amedrontá-los
de matá-los.
Dos fantasmas que matei
não guardo remorsos 
uma ou outra faca
e nada mais.

(* poema publicado na  2a. coletânea poética Mulherio das Letras, pp. 22/23)

capa da 2a. Coletânea poética Mulherio das Letras 

-*-


INCÊNDIOS 

multiplicadas minhas mãos e minha boca
multiplicados meus pés e minha língua 
também se dobrarão os teus gemidos
desmembrado o meu corpo do meu riso
cavalgo esse teu corpo tão preciso
minhas costas arqueadas, teus suspiros
minha fome, tuas coxas derramadas
face contra face nos bastamos
meus mil olhos feito insetos
te devoram
misturamos nossos braços e nossos líquidos
como estrelas apagadas descansamos
os incêndios reduzidos a suor
e quando um dia o imenso nada nos tomar
nas cinzas dessa noite ainda estaremos
testemunhas de um fogo
que ainda tinta tanto a queimar.

(* poema publicado na coletânea Sou mulher, logo existo! Amor, liberdade, luta e resistência, p.32)

capa da coletânea Sou mulher, logo existo!

-*-


GAME OVER

este corpo um dia será pó
adubo da terra e da imaginação das minhocas
todos os idiomas que aprendeu
sepultados no ataúde das línguas mortas
nenhum rastro ficará
das assombrações nas madrugadas
murmúrios vindos do que não tinha voz
sem barganha nem troca
perderão o brilho todos os sóis
a memória terá sido um inútil apêndice
daquilo que findou
nada restará além da ilusão
de que foi conhecido
aquilo que se apagou

(* poema publicado na Revista Acrobata - revistaacrobata.com.br, 20/10/2020)

fotografia do arquivo pessoal da autora 

-*-


INVENTÁRIO

Nem megera nem vaca
nem vira-lata sem classe
nem bruxa na tapera
nem víbora ou puta de saia curta
nem sovaco pelado ou útero dócil
nem fóssil de Lucy ou Luiza
nem buraco fedido
nem cheiro de peixe
nem o olho da sogra
num feixe de espinhos
nem encarnação de Lilith
nem feminazi em fase kamikaze

mas a origem do mundo.

(* poema da autora em 'fotopoema' de Neli Germano)

fotopoema por Neli Germano 

-*- 

(*) 8M: 8 de Março = Dia Internacional da Mulher: Projeto 'Homenagem a mulheres escritoras/artistas', iniciado em março/2021, por Nic Cardeal.

fotografia do arquivo pessoal da autora 


LINDEVANIA MARTINS é natural de Pinheiro/MA e reside em São Luís/MA. É graduada em Direito, mestra em Cultura e Sociedade, pela UFMA, e mestranda em Direito Constitucional. Exerceu o cargo de Delegada de Polícia de 1998 a 2001. Atualmente é Defensora Pública e trabalha no Núcleo Especializado de Defesa da Mulher e População LGBT. É pesquisadora independente em Direito, Gênero, Tecnologia e Literatura, poeta, contista, prosadora e palestrante. Por duas vezes consecutivas venceu em primeiro lugar, na categoria contos, o 'Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís'. Foi finalista no 'I Concurso Nacional Eros de Poesia', categoria júri, em 2001. Recebeu menção honrosa no 'Concurso Nacional de Contos' da OAB Nacional, em 2006. Foi selecionada para publicação em 'Concurso de Originais' da Editora Benfazeja, em 2017. Também foi finalista no '1° Concurso Nacional de Contos Ciclo Contínuo', em 2017. Foi jurada no 'Concurso Internacional de Contos Her Story', da Plataforma Sweek, em conjunto com o 'Leia Mulheres',  em 2018. É mediadora do 'Leia Mulheres', em São Luís/MA. É integrante do movimento 'Mulherio das Letras'. Possui contos e poemas publicados em antologias nacionais e internacionais, e em diversas revistas, como 'Ruído Manifesto', 'Gueto', 'Acrobata, 'Marinatambalo: crítica e literatura', entre outras. Escreve no blog 'Catálogo de indisciplinas'. Vencedora do 6° Prêmio Cepe Nacional de Literatura - categoria conto, 2021, com o livro 'Tereza decide falar'.

Livros publicados: Anônimos - invenções de amor, morte e quase-morte (contos, São Luís/MA: Fundação Municipal de Cultura/2003); Zona de Desconforto (contos, São Paulo/SP: Editora Benfazeja/2018); Longe de mim (conto, coleção 32, Belo Horizonte/MG: Sangre Editorial/2019); Fora dos trilhos (poesia, Belo Horizonte/MG: Venas Abiertas/2019); A moça da limpeza (conto, Editora Primata/2021); Teresa decide falar (contos, CEPE Editora/2022).

Participação em antologias e coletâneas: 2a. coletânea de prosa Mulherio das Letras (Toledo/PR: Indicto Editora/2018); 2a. coletânea poética Mulherio das Letras (São Paulo/SP: ABR Editora/2018); Conexões atlânticas - antologia II (Lisboa/PT: In-Finita/2018); Sou mulher, logo existo! Amor, liberdade, luta e resistência - 3a. coletânea de poesias e prosas Mulherio das Letras (São Paulo/SP: ABR Editora/2019); Antologia comemorativa dia internacional da mulher - Mulherio das Letras Portugal Poesia (Lisboa/PT: In-Finita/2019); O livro das Marias (São Paulo/SP: Ixtlan/2019); Cadernos Negros - contos afro-brasileiros (vol. 42, Quilombhoje/2019); Admiráveis mulheres - antologia de contos (São Caetano do Sul/SP: Lura Editorial/2019); Mulherio das Letras Portugal Poesia (Lisboa/PT: In-Finita/2020); Coletânea enluaradas II - uma ciranda de Deusas (e-book, São Paulo/SP: Sarasvati Editora/2021); entre diversas outras. 


Comentários

  1. Que alegria e que honra essa publicação no dia do meu aniversário! Muito obrigada, Revista Ser Mulher Arte! Muito obrigada, Nic Cardeal!

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