UniVerso de mulheres 10 - A crônica urbana e poética de Fernanda Vieira, por Valeska Brinkmann



UniVerso de Mulheres 10



                                                        


A crônica urbana e poética de Fernanda Vieira, por Valeska Brinkmann



Nada mais importa
 
Que me importa o que eles falam? Que me importa o que eles dizem?

Deslizo meu corpo na fluidez da minha liberdade de mulher que sabe, sabe que nada mais importa. Cantarolo uma música de que não sei a letra. Eu que nem sei como pavimentei esse caminho pelo qual vou me escorregando. Vou me abrindo na confiança de ser sempre nova amanhã. E meus olhos recebem desejosos seja lá o que tocarem. Escancarei as janelas da minha alma porque perdi o medo de me machucar no escuro. Tão perto de mim que pouca coisa importa. Esbarro nas coisas e derrubo pedaços de mim por aí, descuidada. Hoje eu me abri para o infinito. E me invadiu a consciência de tudo tão violentamente que meus poros transbordam e transpiram. Transformam. E essas palavras todas que eu não vou não sei não quero não preciso dizer vão te encontrar de alguma forma. Estamos muito tão perto que nada mais importa. Só esse agora. Esse agora que me dá a mão e me enleva e me tange e me desdobra. Nova.

 
Largo Allegro
 
Tinha aquele olhar apaixonado. Célia fitava o céu como se projetasse a alma.

Não cabia mais no corpo. A música penetrava tão profunda e completamente que nem o livro entre as mãos, apertadas, poderia perfurar tamanha barreira de contentamento. As letras escapavam do livro e escorriam pelas suas mãos, fugidias, como pequenas dançarinas, e se esparramavam pelo chão do ônibus, pelos bancos, tomando tudo.

Só o respirar ritmado da violinista lhe era íntimo naquele momento. Duas delicadezas que se tocavam. Numa intimidade tão forte, intensa, estrangeira e genuína: a musicista na sala do rádio e ela na poltrona do ônibus.

Nem os chiados ocasionais da transmissão perturbavam a força que a suspendia no ar. Largo allegro, como o sorriso, espalhado pelo corpo.

... De pé, passageiro do mesmo ônibus, mas não na mesma condução, observa, des.co-m pas.sa-do, e a desenha em seus pensamentos: tsc, d e v e s e r m a l u c a.

 
 
 
 
 


Fernanda Vieira
  (Sub)urbana, Indígena, indigenodescendente, de origem Xokó. Raízes paternas em Aracaju; maternas no subúrbio carioca. É ativista, escritora, professora, tradutora, além de pesquisadora e doutoranda em Estudos de Literatura pela UERJ. Em 2019 foi Visiting Scholar na Universidade de Boston. Criou a plataforma Ikamiaba, onde atualiza regularmente informações e pesquisas sobre Literaturas Indígenas, questões decoloniais e textos autorais. Em 2017 publicou sua primeira obra de ficção Crônicas ordinárias pela Macabéa Edições, de onde foram tiradas as crônicas desse artigo.
www.ikamiaba.com.br
 
www.macabeaedicoes.com



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