Cinco poemas de Márcia Machado | "Jogo-me na vida sem medida"

 

S. Hermann & F. Richter

Cinco poemas de Márcia Machado

"Jogo-me na vida sem medida"


Bebido e Sentido

 

Café, boto fé

além do sabor

que pode variar

ao gosto do freguês

da cultura, da tradição

forte, fraco, doce, amargo,

o fresco que é quente

desperta os sentidos

levanta o astral

aquece o coração.

Pra quem viveu

todo o processo

do plantio à colheita

pode descrever

cada etapa:

Florada branca

o verde fruto

depois vermelho

pra finalmente

seco, preto

socado, limpo

torrado, moído

coado, bebido.

Evoco memórias

infância, adolescência,

meus velhos pais, irmãos

exploração de patrões…

mãos congelando

na derriça dos

maduros frutos

Verdade seja dita

o café faz parte

da minha história

que posso chamar

       BONITA!


 

Cheiros, Sabores e Amores

 

Aroma, substantivo masculino,

desculpa aí, hoje versamos

sobre os aromas femininos

ah podem ser tantos! Sedutores,

inebriantes, saborosos, higiênicos…

Sabão, detergente, amaciante, água sanitária

em mãos cansadas, que higienizam, envelhecem,

sal, alho, cebola, pimenta, salsinha, coentro,

que temperam, que alimentam a humanidade,

açúcares, pó de café, chás de aromas e sabores,

bolos, biscoitos, pães, sobremesas diversas…

Ah essas mulheres exalam cheiros naturais

que denotam a labuta, o suor, a luta, muitas

exploradas, exauridas, não reconhecidas…

outras amadas por oferecerem amor

em forma de cuidados, proteção à saúde

à alimentação, por saciar a fome dos seus.

Ora, mas são somente esses aromas?

Não, mulheres podem ser divas sedutoras

plantar flores, conquistar amores,

perfumar, se enfeitar, se sacrificar para

adquirir em pequenos frascos, perfumes

que acreditam aumentar o poder de sedução,

mulher é versátil, não duvide do que é capaz

as mesmas mãos que se estragam na limpeza

podem ser hidratadas, cuidadas, esmaltadas,

encantar, cheirar, conquistar e abençoar.


Alexas Fotos. Fonte: pixabay.com


VIVER


Jogo-me na vida sem medida

caia onde cair, pra chorar e sorrir

nem tudo é belo, há feiúra demais

mas não me impedem jamais

aprendi o valor de ganhar, de perder

gemidos, ora  de dor, ora de prazer

tantas pequenas coisas importam

outras parecem grandes e entortam

nada é gratuito, tudo tem preço

sigo buscando o que mereço

agarro-me a qualquer fio de esperança

curto o presente, sou amante de lembrança…

no futuro, às vezes sou tão descrente

assusto, tenho pensamento demente

ah basta um bom vento soprar

pra de novo o coração  se alegrar…

 

 

Sentimentos


Medos me devoram

não é medo de longe

é de perto, infelizmente

pensamentos que sufocam...

 

São tantas pancadas

sinto me esvaziando

mágoas se acumulando

em emoções ressecadas...

 

Quem me dera cantar beleza

sentir tristeza sem dores

ser otimista perante horrores

ser capaz de combater a frieza...


 

Atualidade


Chorosa, entediada, chateada

impotente, injustiçada, excluída,

dolorida, desajustada, assustada

experimento na carne todas as dores

penso  que todo o planeta sente….

paradoxal e vivamente, sinto também

pequenas doses de alegrias, conquistas,

admiração e empatia recíprocas com

amigos e amigas virtuais, quase sempre

trazidas pelas artes, pela poesia que emana

tantos seres lindos, livres, desinteressados

que o único interesse é encantar almas

melhorar os dias, amenizar dores, acordar

a SENSIBILIDADE.


Rihaij. Fonte: pixabay.com


 

Márcia Machado (Márcia Elizabeti Machado de Lima) tem 56 anos, é paranaense de Itaúna do Sul e mato-grossense de coração, há 34 anos residindo em Cáceres-MT. Graduada em Letras pela UNEMAT/Cáceres, professora aposentada no Ensino Básico da Rede Estadual de Mato Grosso, contratada da UNEMAT e da FAPAN, amante de todas as formas de arte. Mestre em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP, com a dissertação intitulada O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago: escrita e transgressão; Doutora em Estudos Literários pela UNEMAT, com a tese Capitães da Areia e Cinco Balas contra a América: escritura, transgressão e militância em narrativas engajadas. É autora do livro de poesia Ebulição Interna (Carlini & Caniato, 2020).



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