Poemas de sobrevivência à quarentena - Nic Cardeal

 

(imagem do Google)

QUASE AGORA

Depois a gente esfrega o chão
recolhe os tapetes
ergue os varais com as toalhas e os lençóis
corta a grama que já extrapolou os limites
abre as persianas e deixa chegar outro sol

depois a gente corta o fio
afia a navalha
estende o cordão entre as paredes
pendura as fotografias que sobrarem no baú
precisaremos afinar o olhar - o jeito certo de olhar -
para não perder nenhuma palavra desviada
daqueles olhares estancados da vida
como meros ingredientes do nada

depois a gente chora
enxuga o leite derramado
diz o amor engolido a sete chaves
corre o risco de perder a hora, o trem, a viagem depois do fim
e recolhe cada um dos abraços deixados de lado
na cama, na poltrona, na cadeira da cozinha, sobre o armário
empilha um por um, dobrados e cobrados,
nunca dados, os beijos desejados

por ora, resta-nos a máscara
o lábio amargo
a garganta seca
luvas guardando dedos sem anéis
em mãos mil vezes lavadas em água, sabão e desespero

por ora, já é quase agora
essa pobre senhora desconhecida
estendida no varal entre razões escusas
a vida - por um fio.

(13.03.2020)

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SENHA

O crepúsculo é esticado,
nenhuma estrela cadente atravessará os céus realizando desejos,
não é de desejos que se alimenta o broto,
mas de algo tão mais genuíno e íntegro.
Esquece o desejo,
livra-te dos anseios,
o vento segue sua rota independente dos obstáculos,
a água escorre pelos veios, pelas veias, pelos vãos,
porque sua natureza é seguir o curso.
- Qual é teu curso na natureza? -

Lembra daquela casa antiga na colina,
os pássaros fazendo ninhos, despreocupados,
os frutos sabendo quando é hora de tombar ao solo
para a regeneração da semente.
- Ninguém sabe da vida melhor do que a própria -

Depois do agora um futuro não se sabe quando,
o que é demorado nem sempre se alcança,
na pressa gasta os sapatos apertam.
- Aprende o ritmo da espera, da véspera, da partida,
um passo de cada vez no caminho mais estreito -

O crepúsculo é denso - eu também sei -
nada se desfaz antes da hora,
ergue-te acima do horizonte das incertezas,
e não esqueças da abelha buscando o pólen na flor de laranjeira,
nem da formiga carregando o fardo mais pesado,
ou da cigarra que canta sem descanso,
anunciando um tempo logo ali (ou distante) de felicidade.

Os ciclos se repetem, os homens se repetem, os sonhos se repetem,
nunca estranhes o gole amargo da angústia,
ou a falta de notícias dos outros mundos inteiros,
lá longe nas galáxias.
Não percas a rota,
nem arrebentes a porta!
- Esquece a porta: a saída tem outra chave,
nós um dia já soubemos a senha! -

(29.03.2020)

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FAÇA DE CONTA 

que hoje é domingo,
que amanhã é domingo,
depois, domingo!

Esqueça que um dia tivemos semanas,
que os meses foram estendidos em calendários insanos,
e os anos, um a um,
passantes despercebidos da nossa pressa vertiginosa!

Domingos são dias de soprar esperanças,
faz-se necessária a alegria inundando a casa inteira,
brinca-se de olhar à janela e observar as nuvens,
estende-se a rede na varanda, no quintal, na sacada, ou mesmo na sala,
e se você quiser, é permitido o balanço! 

Pode-se dançar aos domingos,
olhar ao espelho, esquecendo as rugas, os brancos, os ranços,
é permitido os olhos no espelho,
como se adentrassem aos olhos do espelho,
até sumir de vista a face,
até adentrar à casa da alma!

Decretem-se todos os domingos felizes,
com um cochilo depois das doze,
pode-se até pedir aos deuses o melhor dos sonhos,
escolhe-se a música,
sente-se o vento, o sopro, as flores,
um café da tarde na imensidão tão bonita!

Faça de conta que hoje é domingo,
que amanhã é domingo,
depois, domingo!

Em todas as noites, sê permitido olhar para a Lua!
Lua crescendo, cheia, minguada, adormecida na Luz  bem guardada,
trazendo à tona a nossa esperança:
proíba-se, assim, morrer aos domingos!

(04.04.2020)

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AO SAIR APAGUE A LUZ 

O país em delírio coletivo
o rei insano, proferindo brados loucos,
carregando consigo vassalos ensandecidos,
enquanto nós, parecendo poucos,
nada conseguimos,
estáticos, trancafiados em nossos desesperos tantos.

De que adianta a minha casa guardada
se lá fora tanta gente dando a cara ao tapa
da morte - já tão forte -
procurando- nos de porta em porta?

A vida suplicando trégua,
a vida sussurrando rouca:
- haverá melhor caminho para o nada?

(20.04.2020)

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(imagem do Google)

COMPORTAMENTO

Cientistas descobriram que borboletas bebem as lágrimas das tartarugas,
as lagartixas conseguem regenerar a cauda perdida para o predador,
os pingüins são capazes de se consolar uns aos outros, diante da perda dos companheiros,
humanos não sabem para que serve a empatia.

Tartarugas não têm nenhuma pressa em viver,
lagartixas são hai-cais de jacarés,
pingüins vivem toda a vida com o mesmo amor,
borboletas vivem duas vidas consecutivas,
poetas são colecionadores de esperanças.

Tartarugas gostam tanto de ficar em casa, que carregam a sua nas costas,
Borboletas ficam em sua casa/casulo, quietinhas, durante boa parte da vida, sem reclamar,
pingüins sabem a importância de um abraço quando perdem o amor/sua casa,
os homens não entendem o que significa ficar em casa.

- Cientistas não sabem dizer se haverá futuro depois de amanhã -

(27.04.2020)

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SUBNOTIFICADO

Onde um corpo se deita não há  mais lugar para a esperança,
nem espaço suficiente para a coleção de ontens
lembranças já não servem ao corpo findo,
roupas novas, sapato gasto, gravata apertada,
a rosa, o girassol, o cravo, a margarida
- que serventia têm flores mortas atiradas sobre um corpo que se deita? -

Um corpo é só mais um corpo
deitado na solidão perene,
sem saber do dia ou da noite,
a que horas passa a lua céu acima,
ou se águas caem céu abaixo regando a terra.

Um corpo é mais um corpo,
entre corpos e mais corpos e outros corpos,
sem dizeres, sem lágrimas, nem lápides,
sem a reza, nem o credo ou o poema derradeiro,
um corpo é mais um nu sem a alma
- a quantas saudades de distância fica a história desse 'mais um' corpo que se deita? -

(03.05.2020)

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RECEITA PARA NÃO CHORAR NO DIA DAS MÃES

Outro dia a gente chora.
Hoje não é hora.
Coloca a máscara, escondido o pranto,
diz à mãe que hoje o filho não vem,
nem depois, nunca mais um filho, nunca mais,
- e daí -

Outra hora a gente reza.
Hoje não tem vez.
Também pudera,
a vida - assim - tropeçando em covas rasas...
Ajeita bem a fala, cuida das palavras,
diz ao filho que hoje a mãe não vai,
nem depois, nunca mais a mãe, nunca mais,
- e daí -

Noutro tempo a gente grita.
Hoje não é dia.
Goela abaixo toda a dor,
diz aos filhos - não tem mãe!
diz à mãe - filhos...mais ninguém!
nem depois, nunca mais, nunca mais,
- e daí -

Sejam impedidas todas as agonias!
Busca um sonho bem antigo
(há de ter mais um no baú dos teus guardados),
desembrulha cada uma das presenças,
esfrega bem cada uma das lembranças,
até que vejas
na transparente cortina das retinas,
do outro lado - bem acesa a saudade -
mascarada a utopia dos impossíveis...

Porque toda mãe sabe não chorar (chorando),
toda mãe é exímia bailarina das rotinas,
toda mãe entende bem de precipícios
(e de asas sempre atentas à beira)
- mães não são feitas para alcançar o fundo de nenhum mundo -
mães são rios de beber o mundo nos próprios olhos/enchentes d'água
porque só um rio/mundo sabe desaguar tristezas num coração de profundas águas.

(10.05.2020)

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SOBREVIVÊNCIA (SOBRE VIVER)

                      "Minh'alma é formada de lama, de ternura e de melancolia".
                       (* Vasily V. Rozanov, Esseulement)

Lama, terra inundada de água
por todos os lados, no meio, dentro, fundo, denso.
Lama, do barro seco ao berro ardido,
água que escorre marrom embaçado
cheirando a semente em latente delírio.
Lama, alma em estado desconexo,
do lado oposto ao medo convexo,
no poço sem fundo do precipício,
aguardando o recomeço,
um tempo descascado em devaneios.

Ternura, se a dor te vira do avesso,
nervos expostos em contrassenso,
escondendo a cura do sofrimento.
Ternura, ter nervura entre os ossos,
suportando o peso em dores profundas,
traumas sobreviventes de dramas
- tramas tão indecentes -.
            
Melancolia, desencanto, tristeza tão funda,
passos desfeitos, respiros, suspiros,
suspeitos assombros de um mundo aos pedaços.

(22.05.2020)

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CONSTRUÇÃO

Pendurei tijolos na janela,
neguei-me a vê-los empilhados à beira,
no esmo das coincidências inverossímeis,
quero tijolos para a construção de lugares habitáveis em vida, um a um,
unidos em muitas paredes pulsantes,
guardando segredos de gerações inteiras.

Não me venha com discursos de opressão,
já basta a morte rondando as ruas,
catando as gentes frágeis pela garganta,
roubando o ar da sua graça,
na triste moeda de troca do desespero sem volta.

Pendurei tijolos na janela,
como um pedestal homenageando as [inacreditáveis] partidas,
neguei-me a vê-los empilhados à beira,
esperando a fila interminável sem despedidas.

Insisto que um tijolo seja respeitado em sua sina
de fazer da vida uma fortaleza bem protegida
na casa que nos guarda a portas fechadas,
onde ainda insistimos,
embora silentes,
que nos é de direito a vida por inteiro,
- só depois o barco de Caronte, 
a viagem, as despedidas - 
até a hora [exata] da nossa morte, amém!

(que até a hora da nossa morte, amem!)

(15.06.2020)

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TRANSBORDAMENTO

Embrulhadas, as horas extras dessa vida vagarosa
seguem adormecidas entre os dias,
mesmo quando a noite 'inda mal começa
- não há remédio para esse tempo
que mais parece um ouroboros -

a gente vai, a gente vem
entre paredes gastas e portas fechadas,
da sala para o quarto,
da cozinha para o próximo mundo,
um pequeno cortado de quintal, mato crescido, borboletas indo e vindo da janela do céu que se enquadra aos olhos vistos,
roupas no balde, no varal,
encharcadas as nossas angústias,
mãos guardadas na equidistância suficiente dos nossos medos,
dos bons modos sufocando encontros,
desfazendo abraços em brisas,
o beijo que se demora na fumaça
entre a boca e a palavra
- silêncios inteiros meteoros desistentes das urgências -

A Lua vai, a Lua vem
- e eu devoro a própria cauda da minha ilusão
tão à míngua -

(03.07.2020)

-*-*-*-*-*-*-*-*-*

(imagem do Google)

DELÍRIO

Procuro poemas que durmam entre as quinas, molduras, rodapés, e um chão todo nu
(poemas também acordam insones no meio da noite,
procurando frestas estreitas para o grito de alerta,
ou um silêncio certeiro que cale a boca aberta
no vazio exato do mundo exausto).

As janelas estão tão fartas,
as portas exalam abismos vindos de fora,
os degraus esperam passos feitos de vento,
as lâmpadas esqueceram do brilho,
as cortinas já estão fora dos trilhos.

Procuro poemas que sacudam a pele contra as paredes gastas,
as tintas envelheceram anos a fio nesses meses insanos,
os copos vazios sonhando águas, delírios,
uma réstia de luz afina a passagem até o canto do armário,
denunciando um verbo perdido entre os escombros do dicionário.

Procuro poemas que me salvem,
o precipício já começou lá fora,
a gente se esgueira entre as coisas da alma,
a gente só quer a vida inteira depois da metade perdida
- se ao menos poemas fossem sementes -

(16.07.2020)

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DE SÚBITO

O tempo entre as mãos
ao largo das mãos
nos olhos
na pele
no rasgo da rotina que não termina
a boca escancarada de espanto
o tempo escorrendo pela garganta
os passos paralisados
o tempo que passa
nos meses estacionados
de um ano que não veio
o tempo estancando vidas
e a nossa agonia
perdida entre (quantos) tempos
"vento que voa o tempo" (*)
temporal de dores súbitas.

(02.08.2020)

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PREVISÃO PARA SETEMBRO

dias armazenados nos armários
na casa - santuário de dores suspensas -
não se pode mais doer as rotinas
é preciso estar atento ao vento
repartindo passos em patamares de descanso
entre subidas e descidas
para que não nos leve ao desespero
a monotonia

um pouco de chuva
nenhuma chuva
tempestades anunciadas
nos intervalos, as despedidas
dias de espera por esperanças
passando arrastados
como areia espalhada pela estrada
de grão em grão a gente vai marcando o caminho de joão e maria
- é preciso marcar com grãos de areia
nacos de pão estão sujeitos a fomes desmedidas -
não é hora de fomes alheias
nem momento de perder a rota
(já sou maria desde nascida
por enquanto ainda me sinto desencontrada
depois disso serei quase nada)

(02.09.2020)

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UTOPIA

Eu queria juntar dos becos as palavras,

das sarjetas imundas os verbos mais sedentos de água limpa,

das esquinas escuras aquela luz que nunca finda, como uma estrela binária,

das mesas vazias, cheias de fome e de angústias,
um prato repleto das Plêiades iluminadas.

Eu queria varrer da garganta toda a secura que restou dos silêncios estocados a ferro e brasa,

das entranhas, as coisas escassas, as águas ralas, as tristezas penduradas pelas paredes gastas de uma alma já sem arestas e sem beiradas.

Eu queria dizer por dizer, sem receio de não ter razão, sem anseios por caminhos vastos e sem calçadas, sem desejos por estradas longas, trilhas demarcando idas e vindas.

Eu queria espalhar uns ventos, bons presságios, terras férteis a fecundar sementes das melhores esperanças,

eu queria ter o dom da vida, ressuscitando dos mortos a saudade nunca vencida, e um coração de poeta que nunca se cansa da biblioteca dos sentidos arquivados em 'desordem' alfabética,

onde o Amor pudesse deitar a cabeça no aconchego do Sonho,

e a Simplicidade fizesse ciranda de mãos dadas com as Crianças, as Andorinhas e as fronteiras da Alegria!

(23.11.2020)

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(ilustração de Márcia Cardeal)

CARTOGRAFIA DAS PARTIDAS

A casa onde me guardo
já não tem janelas nem portas,
ela é toda ventania
dos pés à cabeça

sem pé nem cabeça
a vida vai virando do avesso,
o que antes era, foi embora,
o que veio depois, já saiu de linha

cacos de tempo esmigalhados pelos cantos,
de que adianta saber que hoje é quinta-feira,
que dezembro já chegou e logo termina,
se nossas vidas nem viveram as rotinas costumeiras?

o coração em permanente sobressalto,
respirando ofegante em minúsculo compartimento,
o espaço que nos separa
também nos ampara
no habitante paradoxo dos caminhos

o tempo que nos devora,
a morte que nos espreita,
um estranho sino de vento
[ou tempestade]
em meus ouvidos
- onde seremos sementes
para depois do futuro? -

nossas mãos malabaristas
quedam-se exaustas às palavras,
que já nem dizem nada
diante do ano que ora finda,
levando consigo todo aquele qu'inda nem queria...

o tempo é raso,
o tombo é rasgo,
sangue ardente em estranhas veias,
sentimentos repartidos
em dores finas,
quase povilhados de relutâncias

[entre as frestas de tamanhas dúvidas
haverá certeza sobrevivente?]

e a gente,
como quem colhe flores brancas
para a morte do jardim,
nem se dá conta que já rasgaram nossa estrada
e não temos mais a trilha

[com quantas dores serão feitas as nossas despedidas?]

(10.12.2020)

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AMNÉSIA

Há um cansaço infiltrado entre os dedos
melhor não pensar em tristezas antigas
quem dera pudesse recolher alegrias das fotografias

melhor evitar contato com qualquer dos sentidos
as memórias andam estranhas
precisaremos poupar nossas lágrimas
os tempos são de securas
folhas caídas, sementes escassas, amores perdidos

o lixo não foi recolhido
e as coisas do corpo 'inda pedem urgências

das coisas da alma ninguém se lembra
melhor não desejar nada além disso

das coisas da morte ninguém se esquece
você se lembra das margaridas na casa vizinha?

quem sabe  a amnésia seja o melhor dos antídotos...

(14.12.2020)

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CALENDÁRIO

Diz-se que em dezembros os anos findam
e esperanças costumam ser semeadas bem na curva do caminho
há que haver a rega, a poda, a relva,
para que novos anos nunca dantes vistos
brotem precoces, felizes, alvoroçados!

(depois do dezembro que já se vive aos tropeços,
só vejo cacos desmembrados de janeiro
e um futuro sem anseio por sementes...)

(16.12.2020)

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SOBRE VIVENTES

Quando é dia sem tempo
tudo segue a esmo
na mesma
o mesmo
a gente se esfola nas lembranças
como velhos amigos
quase desconhecidos
contando vantagens tolas
remendos ou cicatrizes

não adianta
varrer os destroços
costurar os rasgos
recuperar as sementes

mal sabemos nós
que andamos todos tristes
perdidos
sobreviventes.

(17.02.2021)

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NUBLADAS

A casa pede consolo
o céu está cinza
nuvens espessas cheirando a despedidas
olhares vazios pelos corredores
janelas trancadas receando vendavais
- é preciso colocar de volta os tapetes ao chão
enxugar os molhados de hoje
aguar a alma das securas de amanhã
preparar o café, o almoço, o jantar -

porém,
se precisarmos abandonar a casa sozinha
é de bom alvitre que saiamos com os pés calçados
mãos lavadas e olhos abertos - atentos, perplexos -
há rumores de que tempos absurdos andam por aí
aos bandos
- e tempos estranhos pedem cuidado -
aconselha-se ainda
que prossigamos no caminho da vida sem grandes alardes
[façamos silêncio, tudo é tão tarde!]
diz-se que é chegado o tempo de acontecer
- acontece e pronto -
sigamos em frente
não há maneira de estancar a ferida
derramada em tristezas por entre as retinas
a não ser seguindo a sina - os sinais, as rotinas -

porque viver também se vive em casas nubladas
ainda que em alegrias mínimas ou angústias máximas

que em casas nubladas a alma não seja expurgada
permaneça alojada no timo, nas quinas dos olhos
ou mesmo a espiar por entre as fibras diversas
que fazem membranas entre os gestos sutis das lembranças!

que em casas nubladas
'inda seja permitido um verbo na garganta
a dizer sobre as dores incandescentes dos desejos
- moradores rebeldes do coração -

(01.03.2021)

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 (arte de Cyril Rolando)

ISOLAMENTO

À janela
um céu resvalando azuis pelo poente
nuvens em pinceladas escassas
andorinhas ambulantes entre idas e vindas

Chegar, verbo inconjugável
haverá retorno para aquele que não vai?
Como voltará sem caminho marcado
terá andado muito, pouco, quase nada
ou resvalado os dedos na calçada cinza?

De que são costuradas as partidas, os destinos, as chegadas?
Por onde se guardam as mãos na espera por nada, por ninguém?
Quantos são os olhares vazios deixados por aí, a esmo
no breu comprido das melancolias amontoadas pelas esquinas?

Lá fora
tão longe
um céu azul a desligar o dia
nada sabe ele - o céu - dos homens dispersos pelas ruas, guardados em si na solidão das pessoas
- nem as andorinhas -

Hoje só teremos salvação depois de ultrapassadas as nossas margens de loucura

Em que instante dessa tempestade
tornamo-nos tão estrábicos de alma?

(11.03.2021)

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PREVISÃO PARA ABRIL

o olhar
continuará fechado no casulo
nenhum dedo terá ousadia
para o atrevimento lá fora

- tudo se demora -

nem queira soprar o vento:
o ar, objeto raro de desejo
estará condenado - maus presságios continuam incólumes vagando a esmo -

a vida
linha fina
andará quase extinta

com quantos fios
serão trançados nossos traumas?

depois
disso [tudo]
será mesmo amanhã?

(03.04.2021)

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AUSÊNCIAS

Morrer é um mistério:
o menino morreu ontem
a mulher morreu semana passada
o rapaz que fazia questão de ficar sempre em casa,
por descuido de não se sabe quem,
morreu hoje de manhã
morrer é bem assim
- todo dia se morre -

mas, e agora?
morrer todo dia
já não é suficiente
- todo minuto se morre -
antes mesmo que eu diga
alguém por perto
muito perto, morreu
nunca se conjugou tanto esse pretérito descalabro
morrer sempre é passado
- nada mais tão semelhante ao fim 

eles morreram com uma hora de diferença
vós morrestes sem sequer pronunciar o perdão
nós morremos por dentro
ele morreu sozinho lá fora
tu morreste sem dizer adeus a alguém
eu
    morri
              de tristeza
porque não consegui olhar
nos olhos [ainda abertos] de minha mãe

a cada 25 segundos
um último suspiro
no corredor do adeus

- por favor, não me diga quem será o próximo -

(06.04.2021)

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(imagem do Google)

SUBTRAÇÃO

Eu não sei mais fazer contas
eu, que entendia de matemática
que estudei astronomia
e contava estrelas nas efemérides
pendurando-as, uma por uma,
nos fios invisíveis das constelações
para nunca mais esquecer que os deuses habitam os céus

Eu não sei mais usar o ábaco
eu, que sonhava outros mundos
perdi o jeito para a tabuada, a calculadora
depois que os mortos se multiplicaram às minhas costas
se enfileiraram à minha esquerda
fizeram aglomerações à direita do pai
da mãe
do filho
até do espírito santo
e já não há terra suficiente
para germiná-los em outras sementes

Eu não sei mais somar
[subtraindo indivíduos do mundo]
eu, que anotava versos entre tantos números
que ousei poesia
perdi as contas
sequer tenho forças para os rosários,
japamalas, escapulários,
ave-maria cheia de graça
rogai por nós pobres mortais
pecadores máximos de culpas mínimas
agora - quase na hora das nossas mortes? -
ensina-me a matemática das partidas
na exata dimensão da minha dúvida
de que seja certo que os deuses
habitam os céus, incólumes
- sem olhar para baixo -
amém.

(06.04.2021)

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