De Prosa & Arte | Páscoa, Renascimento e o Capital


Coluna 25

Raheel Shakeel por Pixabay


Páscoa, Renascimento e o Capital

Nestas épocas em que se lotam supermercados atrás de futilidades que nada tem a ver com a energia, com o tônus espiritual desse momento, esvaziam-se as gôndolas. Estamos passando por um período de muitas mortes. Às vezes a fé parece esmaecer.


Vivenciamos um desgoverno pseudo religioso onde os menos favorecidos precisam escolher entre a iminência de morrer contaminados no trânsito diário ou de fome pelo desemprego. Ainda assim, esvaziam-se as gôndolas.


Caminhamos alienados diante do capital e pouco estendemos nosso raciocínio para além do senso comum. Seguimos o discurso empresarial e econômico que sobrepõe a segurança e a saúde pública, consequentemente a vida, nas filas de supermercado atrás de embalagens coloridas.


Num país onde as desigualdades sociais são intensas e a luta de classes acirrada. Quem movimenta a economia e está atrás de volante, vassouras, máquinas, balcões são "as minorias", na verdade a maior parte da população em extrema pobreza, tenta de alguma forma manter a esperança conseguindo um mimo pra família. Isso não é um julgamento, é apenas uma reflexão.


Refletir os deslocamentos que o capital produz também nas questões da manutenção da fé é missão de todo religioso. Estou me permitindo hoje transitar na seara dessa análises com cuidado e responsabilidade.


Eu me desencanto da maneira como infelizmente caminhamos ao abismo da individualidade a passos largos. Na lógica da competição e da meritocracia. Sem qualquer compaixão ou alteridade.


Venho neste  cultivo aproximado da fé, amo falar sobre coisas do espírito a fim de que não seja só um discurso. Que eu não use performance de santidade com privações, restrições físicas e alimentares. Mas que seja uma prática rotineira na minha conduta. Que seja possibilidade e aliada ao conhecimento/sabedoria, capaz de me tirar as travas impostas por esse coletivo social forjado na exclusão, preconceito, na monetarização das relações. Não sou afeita a datas Cristãs que se tornaram produto.


Nosso país é o que tem maior número de casos da América Latina, por conta de uma política de egos inflamados.  Só saberemos a importância da quarentena quando as baixas forem familiares. Já está acontecendo. E lá se vai mais uma embalagem colorida pra um caixa de mercado superlotado. E também mais um último suspiro a espera de uma vaga na UTI do SUS.


Estou buscando entender o verdadeiro significado do renascimento no Cristo Planetário. Não apenas me prostrar diante da imagem daquele estereótipo eurocêntrico.


Mas de grandes sábios que surgiram em tempos diversos sob várias roupagens étnicas pra trazer ao mundo a unidade com o Cosmos, com o Astral, o Religare Essencial.  Assim pra se fazerem ouvir nas diversas civilizações, todos estes de alguma forma dizimados pela maldade, ambição e egoísmo que infelizmente ainda cultivamos na lógica do capital.


Talvez eu empregue muita força humana pra desfazer a imagem que permeia o imaginário coletivo. Talvez seja a ligação que venho travando na busca de minha ancestralidade. Com esse axé que me levanta diariamente. Meu povo de branco, meu povo de Santo.


Tenho me desencantado da humanidade que caminha a passos largos para o abismo da individualidade.


Me desencanto também de mim. Queria fazer mais pelo outro e nunca me acovardar. Então, vou tentar o exercício de desvio das armadilhas do Ego. Sem carregar culpas, pois consome energia. Cultivando a humildade. Fazendo meus pequenos milagres diários, que é oferecer afeto, escuta e acolhimento emocional ou material a quem precisa. Aos nossos mais próximos.


Quero ser  a mudança que busco. 


Valorizando o amor fraterno. Valorizando a vida. 


Eu nem sei se essa catarse aqui exposta tem pé ou cabeça.

Hoje me pergunto: Há o que comemorar?

De que forma o faremos?

Esvaziando gôndolas?

Não me parece a única opção.


Tomara que no meio de nossos devaneios capitalistas, tenhamos um minuto de reflexão junto aos nossos enquanto abrimos embalagens coloridas. Que sejamos capazes de elevar os pensamentos a todos que fazem sua passagem nesse cenário de guerra pela vida. Desejo que sejam estes acolhidos no Orun.


E nós que aqui permanecemos, tenhamos um Feliz Renascimento. 

Ressurgir. Ressignificar. Reavaliar. Refazer. De dentro pra fora.

Usando como mantra: Quero ser a mudança que busco!


Que sejamos capazes de vibrar cura, compaixão e alteridade em escala Mundial.





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