Conto | A Ira de Amon, por Jeane Tertuliano

|Coluna 07|

Chuva incessante banha a noite porta afora. Algumas pingueiras se fazem ouvir no cômodo ao lado, e eu tento bloquear o som incômodo pondo o grande travesseiro da minha finada mãe nos ouvidos. Amon ladra lá fora. Certamente, deseja se amparar, mas eu estou preguiçosa demais para pô-lo dentro de casa. São Miguel dos Campos nunca fora um lugar divertido, isso é indubitável; porém, há alguns dias que as ruas estão desertas, sequer ouço o choro irritante do bebê na casa vizinha.


De acordo com o calendário, injetei cocaína anteontem. Eu havia bebido o restante do whisky e permanecido numa sobriedade ensandecedora, por isso decidi pôr um fim no pó que escondi no meu porta-joias. O meu irmão viajou com a namorada e me deixou sozinha nessa casa velha e imunda. Amon continua ladrando, parece estar enfurecido e desesperado ao mesmo tempo. Pergunto-me se é certo ignorar as súplicas do pobre animal, e concluo que não sou obrigada a responder agora. Após alguns minutos de total concentração, consigo me erguer da cama. Titubeando, caminho até a cozinha e bebo um pouco de água. Sento-me em uma das cadeiras tortas da mesa ainda mais torta e tento comer uma banana meio apodrecida que estava solitária na fruteira. Lá fora, a chuva só piora. Os trovões silenciam o choramingo de Amon e eu encosto a cabeça na mesa com o intuito de amenizar a tontura que engolfou o meu corpo.


Repentinamente, faz-se ouvir um forte barulho na porta dos fundos, como se ela houvesse sido fortemente pressionada. Congelo. Amon já não ladra e eu me pego a imaginar o pior. Determinada a me pôr de pé, me ergo. A minha visão enturva e tento me apoiar nas laterais da mesa, forçando-me a manter um pouco de equilíbrio a cada passo. O silêncio incessante faz com que eu sinta o sabor amargo do medo e a sensação aterradora parece haver inundado as minhas veias, pois todo o meu corpo bamboleia e eu receio ir de encontro ao chão no instante seguinte.


─ Quem está aí? ─ minha voz enche o recinto com o questionamento lançado ao breu. Amedrontada, arrasto-me até a parede mais próxima e encaro o corredor escuro que antecede o quintal. O fato de eu não conseguir enxergar se há alguém encarando-me de volta, me submerge a um nível de agonia que eu jamais pensara existir. Mesmo estando totalmente incapaz, decido rumar à escuridão, pois não consigo suportar a falsa calmaria que se faz presente. Por trás do meu crânio, uma voz sussurra para eu permanecer dentro de casa, como se o Eu que a mim fala estivesse prenunciando o mal.


─ Crrrr ─ escuto a porta abrir. Ainda sem enxergar nada à minha frente, estagno; e um gelor absurdo invade a minha pele e se instala em meus ossos. Através da minha visão periférica, vejo o cômodo atrás de mim escurecer, enquanto um vulto mais negro que a própria escuridão começa a tomar forma diante dos meus olhos. Socorro ─ tento gritar, mas é como se a minha voz estivesse aprisionada em minha garganta. Na penumbra, vislumbro algo vindo em minha direção enquanto um rastejar inumano se faz audível. Paralisada, aguardo em estado de mortificação enquanto o negrume se achega cada vez mais, sibilando coisas que não consigo compreender. Insanamente apavorada, fecho os olhos, clamando para que tudo não passe de um terrível pesadelo, jurando aos céus que não mais buscarei por entorpecentes quando me sentir demasiado infeliz. Silêncio… Conto até dez e abro os olhos. À minha frente, olhos vermelhos enormes me encaram. A luz que anteriormente havia apagado, agora está acesa, possibilitando uma visão mais ampla do ser hediondo que está me observando. A coisa em si lembra um cão, pois possui duas grandes patas frontais e na parte traseira assemelha-se a uma cobra; por isso o rastejar, penso. As grandes esferas que me fitam são de uma coruja macabra que parece estar se divertindo com o meu assombro.


─ O que é você? ─ pergunto, e a minha voz soa inegavelmente chorosa.


─ AMON! ─ a besta esbraveja num guincho que mais parecia um rosnado. Eu havia deixado o cachorro do meu irmão no frio e agora a criatura está berrando o nome dele sem parar. Pesar domina o meu ser quando imagino que a coisa à minha frente possivelmente haja posto um fim nele. À medida que ouso me afastar da coisa, calor invade-me a epiderme. Olho ligeiramente para trás e vejo que a mesa está logo ali, basta eu caminhar mais um pouco e… Assim que retomo o foco, espavoro-me com a visão pavorosa da coisa: ela vem em minha direção tal qual uma ave de rapina prestes a alcançar a sua presa. O desespero me consome e esforço-me para correr até o meu quarto, mas acabo escorregando na pequena poça d'água, amaldiçoando as inúmeras pingueiras no telhado. Quando me recomponho, sinto o meu corpo ser lançado violentamente contra a parede, e sucumbo íntima e intensamente à costumeira escuridão.


É noite. As pingueiras estrondosas fazem com que a dor na minha cabeça aumente de um modo que chega a ser insuportável. Todo o meu corpo está dolorido, e a minha garganta está seca a ponto de eu sentir uma pungência ao engolir minha saliva. Meio grogue, saio da cama. Rumo à cozinha e apanho uma banana na fruteira, eu estou tão faminta! Amon ladra lá fora. Caminho em direção ao quintal para ver o motivo da algazarra. Abro a porta, nada vejo. Não me surpreendo com o negror mórbido, pois as nuvens carregadas de chuva fizeram a luminosidade da lua dissipar.


─ Amon?! ─ nenhum sinal dele. Resquícios de um pesadelo surgem abruptamente em minha mente no mesmo instante em que Amon torna a ladrar.


De costas para o quintal, sinto um intenso baforar açoitar a minha retaguarda. Um mau cheiro de putrefação inunda o ar e sou automaticamente acometida por ânsia de vômito. Ergo a mão à maçaneta, mas ela está há cerca de dois metros de distância. Sem mais delongas, adentro a casa e apresso-me em fechar a porta, latidos estridentes preenchem todas e quaisquer lacunas existentes no meu maldito lar. Maldição! A droga da porta não quer fechar! Continuo empurrando-a inutilmente em meio ao caos. Trovões, pingueiras e latidos sem fim, isso certamente poderia endoidecer até mesmo a pessoa mais sã do universo. Olho para baixo com o intuito de descobrir o empecilho e lá está ele: uma pata canina gigante! Devo alucinar, sussurro de mim para mim mesma. Concentro toda a minha força e piso na pata, e há uma explosão de ganidos terrificantes ao mesmo tempo que a porta foi aberta estrondosamente, jogando-me no chão ferozmente. Um ser hediondo saltou em cima de mim, me pressionando contra o chão com uma força monumental. Sufocando, clamo fracamente por misericórdia. A criatura me olha atentamente com seus olhos raivosos e antes de eu sussurrar mais uma prece em vão, ela vocifera num timbre de voz gutural: EU NÃO SOU OBRIGADO A SER MISERICORDIOSO COM VOCÊ! Risadas e berros medonhos perfuram os meus tímpanos enquanto sou conduzida à funesta inconsciência.



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