UM CONTO DE HENRIETTE EFFENBERGER - por Nic Cardeal


(fotografia do arquivo pessoal da autora)
8M
Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!

Hoje é dia de 'viajar' neste incrível conto da escritora Henriette Effenberger:


AÇÚCAR E CRAVO-DA-ÍNDIA 

(Henriette Effenberger)


"A moranga é conhecida cientificamente como Cucúrbita máxima, Duschene, Dicotyledonae, Cucurbitácea.
Originária da América do Sul, a abóbora-moranga já era produzida por civilizações pré-colombianas. Planta rasteira com folhas arredondadas verdes, sem manchas; o pedúnculo do fruto é esponjoso, cilíndrico e não se abre ao atingir o fruto. As folhas são semelhantes às da abóbora rasteira [...]. Fruto com casca alaranjada e polpa amarela."
(SEAGRI)


"Nem era dia de fazer doce, mas sentiu necessidade do aroma invadindo a casa e seu coração. Cortou a moranga nos sulcos. A faca afiada deslizava após romper a casca. Lavou os pedaços. Retirou as sementes.

O tacho grande recebeu também o açúcar e o cravo-da-índia. Pôs fogo baixo, para cozinhar lentamente. 

Sentia-se assim: cozendo em fogo baixo. Suas sementes desperdiçadas. Como as da moranga, jogadas no lixo. Não germinaram. Não germinariam.

A casca grossa a protegeu das intempéries,  preservando o coração intacto. Tal qual a moranga, era macia por dentro e dura por fora.

Jogada ao solo, semente ainda, livrou-se da capa protetora e criou raízes. Germinou. Agarrou-se à terra fértil. Ainda no escuro, debateu-se entre as pedras, livrou-se dos insetos, esquivou-se das ervas daninhas, que poderiam sufocá-la. Respirou. Vez por outra, uma chuva silenciosa molhava o chão, quando o sol teimava em ressacá-lo.

A primeira rama de folhas verdes arredondadas procurou o sol. Forte como o ferro de que era composta, espalhou-se. Outras ramas vieram. Algumas delas transformaram-se em caldos e refogados, as restantes preparavam-se para abrigar a flor.

No primeiro abandono - menina ainda -, acordou com a discussão em altos brados. Era a mãe brigando com o pai. Quase não se ouvia a voz dele, só a da mãe,  gritando sem controle... Levantou-se de mansinho. Por uma fresta da porta do quarto, viu o pai pegar o paletó de linho branco no porta-chapéus, jogá-lo nas costas e sair de casa. Ouviu seus passos afastando-se na calçada e o choro convulso da mãe na sala. O pai só voltou alguns dias depois, para pegar a mala que a mãe preparara na véspera. A mãe foi para o quintal, deixando a menina sozinha com o pai, para a despedida. Ele disse-lhe que não iria mais morar ali, mas que voltaria sempre, para vê-la. Disse também que nunca se esquecesse de que seria para sempre a sua princesinha. Recomendou que tomasse conta da mãe e que fosse forte. Ela foi.

Ainda botão, foi preservada das moscas-das-frutas e das brocas. Abriu-se em flor. Era certo que não tinha a beleza das rosas, nem o perfume do jasmim. Uma simples flor de abóbora. Houve quem a admirasse. Beleza simples e útil. Deixou-se encantar pelo primeiro gafanhoto. O solo, pulverizado por defensivos, evitou sua destruição. No segundo abandono, deixou cair as pétalas. Nua de adereços, escondeu-se entre ramas verdes, que a protegeriam enquanto o fruto se formasse.

Às vezes,  chorava escondido. Sobreviveu à ausência e à saudade. Vez por outra, o pai a visitava, dava-lhe presentes e afeto. Ainda era a sua princesinha. Foi boa aluna. Filha obediente, cuidou da mãe. Estudou muito. Driblou a falta de beleza com charme e inteligência. Muito nova, começou a trabalhar,  para custear as próprias despesas. Apaixonou-se.

A flor perdeu as pétalas e começou, por entre as folhas ásperas, a formar o fruto. Um aluvião quase o abortou. Providencialmente, o sol trouxe a estiagem, fazendo com que o fruto se desenvolvesse vagarosamente no terreno pedregoso. Desbastou-se das folhas supérfluas, evitando assim o contato com o solo muito úmido. Ao mesmo tempo, para não se contaminar, evitou intimidades com outros tipos de abobreiras. Ficou longe dos pepinos, dos pimentões,  dos tonates e das melancias. A grossa casca, ainda muito verde, começava a se formar.

Custou a perceber que seu amor não era correspondido. Acostumara-se às idas e vindas. Ao desejo e à espera. Tal como seu pai, seu amor a procurava quando bem entendia, e ela o recebia sorridente, quase agradecida. Ocultava o desapontamento que a sua ausência lhe causava. Ele vinha, não vinha... vinha, não vinha... Até que não veio mais. Ela nunca cobrou nada dele. Nunca disse a ele que o desejava mais perto dela. Protegeu-se da dor do abandono, dissimulando seus sentimentos. Estudou mais. Trabalhou mais. Sobreviveu ao desamor, até que, novamente, apaixonou-se.

Com solo propício, sol, chuva e defensivos na medida certa, o pequeno fruto foi tomando forma, cresceu, e as primeiras colorações amarelas começaram  a salpicar a casca já endurecida. Sentia-se protegido. Sabia que sua casca poderosa o defenderia das pragas e dos insetos. Seguro, expôs-se ao sol, para que o ciclo se completasse e finalmente estivesse pronto para a colheita. 

Ele era um artista e a seduziu. Era lindo e era livre. Claro que desde o primeiro dia ela percebeu que ele era livre demais. Ainda assim apaixonou-se. Que importava se moravam a centenas de quilômetros de distância? Ele também se apaixonou por ela. Mas ele era livre. Viveram uma década inteira encontrando-se duas vezes ao ano. Ele a queria. Ela com medo da liberdade em que ele vivia. Mas ela o queria também. Havia cartas. Havia telefonemas. Havia desejo. Havia afeto. Mas havia a distância. Havia a liberdade dele e havia o medo dela. Ela não se dispunha a ficar com ele. Ele não se forçava a ficar com ela. A não ser duas vezes ao ano. Era tudo.

Até que um dia, ela amou.

Fruta madura, teve o pedúnculo cortado no tamanho correto. Manuseada com cuidado, não sofreu ferimentos ou machucaduras, foi armazenada com ventilação adequada. Protegida da umidade. Sabia-se rica em vitaminas e sais minerais. Estava pronta para transformar-se em um delicioso doce. Para isso bastava abrir-se, misturar-se ao açúcar e ao cravo-da-índia e deixar-se cozinhar lentamente.

Quando ela o viu pela primeira vez, percebeu que ele era o homem de sua vida. Não teve dúvidas.  Aproximou-se e demonstrou interesse. Ele também se interessou por ela. Apaixonaram-se um pelo outro, apesar das circunstâncias adversas. Amaram-se, respeitando-se. Ela sentiu-se acolhida pelo amor que ele lhe devotava. Ele sentiu-se seguro com o amor dela. Ambos sabiam que felicidade é provisória, ainda que o amor não fosse transitório.

Uma abelha invade a cozinha. Sobrevoa o tacho fumegante, atraída pelo aroma do açúcar e do cravo-da-índia que se desprende da moranga.

Chama apagada. Doce no ponto. Lustroso. Missão cumprida. Pronto para ser degustado e compartilhado. 

Tal qual a moranga, o amor a amadurecera. Era dura por fora e macia por dentro. E brilhava.

Rescendendo a açúcar e cravo-da-índia."

(Conto extraído do livro Fissuras, Editora  Penalux/2018, págs. 105/109).


(capa do livro Fissuras)


HENRIETTE EFFENBERGER nasceu e reside em Bragança Paulista/SP. É romancista, contista, memorialista, poeta, e também escreve literatura infantil. É sócia-pioneira, ex-presidente e atual diretora da Associação de Escritores de Bragança Paulista - ASES. 

Livros publicados: A ilha dos anjos (romance de estreia, em coautoria com Maria Dulce N. K. Louro, 2002); Aeroclube de Bragança Paulista - uma trajetória nas asas do tempo (2006, como memorialista); As aventuras do superagora (infantil, Abr/2008)Linhas tortas (contos premiados em concursos literários nacionais e internacionais, 2008);  Vida de sabiá - o que sabiam os sabiás além de assobiar (infantil, vencedor do 'Prêmio João de Barro de Literatura Infantil',  2009); Sociedade Sinfônica de Bragança Paulista - 80 anos de acordes em harmonia (2011);  Liga do Pico, Futebol e Pinga; Sindicato do Comércio de Bragança Paulista  - 70 anos (2013); Fissuras (contos, Penalux/2018); e O menino que engoliu um furacão (infantil, vencedor do 'Prêmio Manaus de Literatura 2017',  categoria literatura infantojuvenil, no prelo).

Organizadora da coletânea de contos Horas partidas (Penalux/2017) e da Coletânea de contos e crônicas  do Movimento Mulherio das Letras (Mariposa Cartonera/2017).










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