Entrevista com a poeta Michaela v. Schmaedel | Por Fernando Andrade

 


Entrevista com a poeta Michaela v. Schmaedel

Por Fernando Andrade



Fernando Andrade (F. A.): A imagem do coração batendo a vida toda, sem cansar, numa melodia percussiva, parece ser uma literalidade para a vida. Mas seu livro, já pelo título, faz um belo contraponto para esta canção que pode ser triste como uma balada. O coração nos toca naquilo que temos de mais terno, que são as afecções que nos enternecem de pulso, mãos, e dedos. Como foi esta mudança de imagem?

Michaela v. Schmaedel (M. S.): O título veio do poema "Autorretrato", um dos primeiros que fiz já pensando no livro. Depois, uma amiga que sabia da minha ideia de usar Coração Cansado como título me mandou um outro poema com o mesmo termo, do italiano Araldo Sassone, que coloquei na epígrafe. A verdade é que usar a palavra coração como uma metáfora das nossas emoções é algo bem conhecido e bastante utilizado. Mas quando me veio esta parte do poema: "da minha total descrença no mundo, / do meu coração cansado", percebi que a expressão, além de falar do estado de espírito que rege o livro, também remete a uma condição física. Porque, se você jogar no Google, vai ver que coração cansado é também um termo médico para insuficiência cardíaca. Então, achei que isso ampliava bastante o sentido: havia ali um cansaço das emoções e também algo físico que não ia bem. E também, gosto de lembrar,  há uma referência sutil a um poema do Fernando Pessoa (do heterônimo Álvaro de Campos), que gosto muito: "o que há em mim é sobretudo cansaço". Sofremos muito hoje (e talvez sempre, de formas diferentes) com o cansaço. Mesmo antes da pandemia, já que o livro foi escrito entre 2018 e 2019, sentia esta forte onda de cansaço coletivo e pessoal. O coração bate a vida toda, é verdade, mas muitas vezes aos trancos e barrancos (rs).

F. A.: Seu trabalho com a palavra é muito cuidadoso. É quase uma artesania com os afetos que uma ideia, um tema podem exprimir em suas vias metafóricas. Você é de sentir o poema quando começa a criá-lo? Como é tua manifestação?

M. S.: Olha, eu sigo um exercício muito simples passado numa oficina de escrita pela poeta Angélica Freitas. Escrever sem pensar, durante o tempo que tiver disponível, e depois ver se há ali alguma ideia forte, uma energia, nestes escritos aparentemente desconexos. Meus melhores poemas nascem assim, acho. Os que tento, de antemão, construir de forma muito consciente, acabam ficando mais fracos. Neste exercício, o trabalho consciente vem depois, na hora de pensar na quebra, na troca das palavras, na ordem dos versos, no ritmo, na sonoridade. Eu costumo mexer bastante nos poemas, leio alto, mando pros amigos-poetas, reescrevo tudo. O trabalho de edição leva mais tempo do que o resto. De toda forma, partir da escrita não-consciente me ajuda muito a ter a ideia principal e a força do poema.

F. A.: Qual é a relação entre poesia e existência terrena? Enquanto estamos mais vivos somos mais poéticos. O poeta vive de angústia? Neste livro em questão?

M. S.: Não acho a poesia essencial para a existência. Conheço muita gente que não dá a mínima para a poesia e parece ter uma vida ótima (rs). Agora, pessoalmente, a minha vida gira em torno da poesia. Tudo que vejo, ouço e penso tem uma dimensão poética. Não no sentido de virar poema, mas no sentido de ver as coisas de uma maneira deslocada. É como se a realidade não bastasse. Você olha uma coisa e ela se relaciona a outra, que vira outra e assim por diante. É como se você vivesse num devaneio poético. Não acho isso ruim, mas às vezes é cansativo. Gosto de um poema de um amigo português, o Rui Esteves, que diz assim: "usar o gesto substituir a palavra /olhar para os lugares e ver apenas os lugares."  Um alerta, acho, para esta fuga da realidade e do tempo presente tão comum entre os poetas. Se vivemos de angústia? Não diria de, diria com. Mas isso vale também para não poetas, certo? Ainda mais quando se vive no Brasil. Este meu livro, Coração Cansado, fala de uma dor pessoal, a morte do meu pai, e de uma dor pela ruína que já tomava forma no nosso país.

F. A.: O quanto é importante a companhia de outro poeta para o que escreve? Gostas de fazer intertextos com os colegas, as citações te apetecem? O caminho das referências são também as pegadas da poeta? Por onde já trilhou?

M. S.: Acho a coisa mais importante este intercâmbio entre poetas. As citações são, muitas vezes, gatilhos poderosos. Eu leio muita poesia, de autores contemporâneos e também de outros mais antigos. Não é uma regra ter sempre citações, mas, em geral, eu gosto de informar ao leitor de onde partiu o poema, acho uma informação valiosa. Então, se eu escrevi aquilo com um verso de alguém na cabeça, por que não colocá-lo ali? Com os poemas que são dedicados a um autor, o movimento é diferente: é como se naquele poema, de alguma forma, você sentisse a presença daquela determinada pessoa, seja pelo tema, seja pela forma. Então, por que não dedicá-lo? Reparei que há em meus poemas muitas citações de poetas portugueses, como Manuel de Freitas e António Pina, poesia que eu adoro, e também de poetas norte-americanos, como Reymond Carver, Paul Auster, Frank O'Hara, além, claro, dos muitos poetas brasileiros que me influenciam.


https://www.editorapenalux.com.br/loja/coracao-cansado



https://casaedicoes.com/livros/quenia/





Michaela v. Schmaedel nasceu e mora em São Paulo. É jornalista e poeta, autora dos livros Coração Cansado (Penalux, 2020) e Quênia – poemas de viagem (Cas’a Edições, 2021).



Fernando Andrade é poeta, jornalista e crítico de literatura, autor de A perpetuação da espécie (Penalux, 2018), Logaritmosentido (Penalux, 2019) e Interstícios (Penalux, 2021), entre outros.




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