De Prosa & Arte | Dispensáveis e substituíveis


Coluna 38


Foto Maria Aparecida Castro Augusto


Dispensáveis e substituíveis

Nessa vida fui capaz de construir muitos (des) caminhos, transitando entre os (im) possíveis. Nada fiz sozinha, embora tenha tecido, um longo rastro de solidão em quase tudo que produzi. Desde os afetos às conquistas materiais.


Minha vida sempre me pareceu um comercial de refrigerante concorrente. Aquele com muito Caramelo 4.

Toda vez que desejei algo, a vida me perguntou: - Pode ser Pepsi?

Eu que sempre tentei ser grata a tudo que me veio, nunca neguei.

Só tomei Pepsi...


Entendi que tudo era como poderia ser. Com aquilo que mereci durante as construções das trajetórias de (in) sucessos.


Não posso reclamar em demasia, pois tudo que tenho, talvez seja mais do que eu mereça. E por isso, não renego. As coisas que me causaram perdas físicas, materiais e emocionais, entendi como aprendizado necessário pra me criar casca e escudo.


Estou transmutando meus afetos, até aqueles que me são mais caros. Pois, não quero tolher o voo de quem me acompanha. Quero permitir que possam planar sobre seus desejos e construir suas realidades.


Gostaria que as pessoas nutrissem mais gratidão, compaixão e alteridade… como devolutiva aos caminhos que trilhamos juntos, que me proporcionaram e que eu possa ter entregue.


Tudo que entreguei, foi de coração, com amor… o melhor que pude!

Não sei se era o desejado por terceiros. Mas era o que eu podia oferecer na integralidade.


Minhas entregas são intensas, muito e sempre. Habitualmente assustadoras, alguns dizem que sou controladora, dramática, que não exercito bem a escuta que merecem. Ando aceitando as críticas, porque me movem em direções de progresso. Me incitam a refletir outras possibilidades de ser e existir.


Penso que trago sim, um exagero dramático. Talvez seja minha característica cênica de me portar, precisei teatralizar alguns comportamentos como defesa. Hoje, tento eliminar a performance, porque também me cansa, falsear compreensão a tudo, parecer sempre democrática, moderninha, antenada… enfim… isso me adoeceu.


Agora, tenho vontade de migrar pra sonhos abandonados no caminho. Estar na centralidade dos meus projetos para o futuro. Mas não ansiá-lo tanto que me desequilibre a organização do presente momento.


Vou reerguendo meus “castelos” desmoronados pelo tempo, passo a passo. Devagar e sempre!

Vou aprender a não me decepcionar, se não houver contrapartida. 

Vou tomar distância segura do que me desanima.


Portanto, em qualquer papel dramático que eu tenha desempenhado, e por isso, sido julgada pelo cuidado, intensidade e sinceridade do personagem, declino!


Todos os papéis que performei são dispensáveis e substituíveis. Aos que viram meus personagens e se desagradaram, caminhem para outras narrativas.

Aqui meu “show tem que continuar”. 







 

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