Preta em Traje Branco | Aquilombamentos de Valéria Mendonça


Coluna 32


Foto Paul Brennan por Pixabay

Aquilombamentos de Valéria Mendonça

Dois corações machucados 
De relacionamentos anteriores 
Como voltar a se envolver?
Como podemos esquecer as dores?

Não tínhamos como saber 
Apenas escolhemos viver 
Começamos de mansinho 
Bem escondidinho

Em um mundo só nosso 
Que aos poucos foi se abrindo 
Perdendo o medo 
Deixando as mágoas pelo o caminho

Fomos conquistando 
Algo que achávamos impossível
Nessa caminhada 
Choramos, sorrimos
 
Juntos continuamos, seguimos 
Com essa parceria incrível 
Obrigada por ter me escolhido 

************************

Família 


Sete letras 
Uma palavra pequena 
Com tanto significado 
Algumas são pequenas 
Outras não se contentam
Com os laços de sangue 
E coloca os agregados 
Não entendeu?

Pera aí já irei explicar 
São tantas coisas 
Fica difícil começar 
Tem aquela que não é tia 
Mais se torna 
Por que cuidou  da sobrinha
 
Tem a ex cunhada 
Que se tornou amiga 
Tem a cunhada atual 
Que me  trata tão bem 
Sempre me dá café 

Quando eu chego no quintal 
Tem o sogro que avisa pro genro 
Que a filha é doida,
Se levar 
Não aceita devolução
Pode rir 
Quanta confusão

Isso porque não cheguei 
Nem na metade 
A sogra gosta do genro
Até parece milagre 
Tem a filha que não fala 
A sobrinha matraca 

O sobrinho 
Um sobrinho 
Tão pequeno 
Mais destrói a casa 
A tia que só grita 
A mãe que  só trabalha
 
Tem cachorro, coelho e gato 
Tudo junto e misturado 
E assim vamos vivendo 
E aprendendo
 
Conviver não e fácil 
Cada um com seu jeito 
Às vezes rola 
Uns arranca rabo 
Mais sempre 
Com um amor inexorável

************************

O berimbau chorô
Quando o negro
Arrancado de sua terra 
No navio entrou 

O berimbau chorô 
Quando milhares ficaram pelo  caminho
Morreram de banzo 
Já prevendo seu destino 

O berimbau chorô 
Com cada chibatada 
Com cada corrente arrasada 
Com cada negra estuprada 

O berimbau chorô 
Com cada ọmọkunrin
Que nasceu 
Sem pai, sem pátria 


Valéria Mendonça, Mãe, mulher, filha. Trabalha na área da saúde - é técnica em necropsia - é cuidadora de idosos e no meio a pandemia se descobriu poeta. Traz o viço da leitura e o desejo de que as mulheres alcancem os lugares de prestígio e liderança.






 

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