Coluna 08| Fala aí... Ana Mendes (Suíça)

  
coluna 08

LIVROS E SONHOS

por Ana Mendes (autora convidada)



Fechei a janela com dificuldade, pois o vento estava a aumentar a sua força. Era daquelas tempestades que nos aconchega o coração ao ouvir o rir das crianças no quarto e o barulho surdo da tv da sala... Sinais de que o que quer que se passe lá fora, a minha malta está toda comigo, em segurança e em casa!

O vento poderia cantar, gritar, uivar, que eu até sorriria no meu íntimo. E decidi acender a lareira. Adoro aquele cheirinho a queimado e o estalar dos raminhos que o acendem, fogo amigo... Calor que dá cor ao lar, convite ao amor, a um livro esquecido na mesinha por terminar...Vontade de abrir albuns de fotos e ver sorrisos a desfilar e nós em torno dele...

Quando jantamos, todos estavam excitados, pois o tio Francisco, mais conhecido pelo “Chiquinho dos livros”, iria voltar da sua última viagem e trazer muitas novidades. Ele gostava de contar aventuras da suas viagens pelo país e por vezes até pensavamos, que alguma fantasia era introduzida em seus recitais teatrais, dramáticos e cómicos como nunca!

Era o nosso Chiquinho Dos livros! O héroi das páginas soltas, das palavras de chumbo, das poesias marotas e dos versos do inteiro mundo. Ele conhecia quase todos os livros do planeta, dizia ele...Cada coleção que recebia, inventava logo uma nova estratégia para a sua promoção. Ainda que o seu carro, tão antigo, o levasse a todos os cantos do país, parecia que a cada chegada, os kilómetros percorridos se inscreviam na chapa, nos estofos, nos vidros de cada janela... Alías, cada janela estava colorida com desenhos de histórias de alguns livros, que ele mesmo pintara. 

E ao parar em frente à casa, parecia dizer:“Daqui não volto a sair!”
Cansado! Aposentado!

Eram 6 horas da manhã, quando alguém tentou deitar a porta abaixo! Batiam e rebatiam, como selvagens! Desci a correr as escadas e agarrei numa vassoura, bem usada, mas única arma que havia encontrado e avancei, fazendo-me de forte, gritei: “Quem é?!”O meu marido lutava com as calças e os chinelos, para não aparecer de qualquer maneira. Sim, porque se fossem ladrões de verdade, não bateriam à porta, dizia ele... Com o coração na garganta a fazer de guarda, esperei a resposta e ouvi do outro lado da porta: “É o Roberto, abra por favor!”. Quem é esse gorila? Sim, porque para bater assim na porta, só poderia ser um!

”Não conheço! Vá embora!” ”Mas senhora, está a chover muito, pode abrir por favor? Sou amigo do Sr Francisco! Foi ele quem me mandou!”

O meu coração sossegou um pouco e abrandando as batidas no tambor do meu peito, ficaram só os pratos a tiritar por dentro. Abri a porta e deparei-me com um gato encharcado da cabeça aos pés e até deu dó. Por pouco fazia-lhe o funeral, de tal modo ele se encontrava!

Quando se abraçou à caneca de café escaldante, depois de ter devorado duas enormes torradas, barradas de manteiga e marmelada, recuperando côr, falou enfim.” Senhora, não sou portador de boas notícias... O Sr Francisco... Ele deixou isto para si.” Como assim? Portador de más notícias?! A minha cabeça parecia parar, nem uma idéia me vinha à boca...Ou frase...e de repente explodiu! Ele já não voltaria nunca mais das suas viagens!

Não! Não podia ser! O meu Chiquinho! O nosso Chiquinho dos livros, tinha morrido! Soluços soltos foram abrindo a fúnebre melodia e deixaram então lágrimas de falta, de mágoa, de tristeza, de abandono acompanharem as nossas dores, sem ferida! Levantei-me como pude e prostrei-me perante a sua fotografia, onde abraçado de vida sorria! Como? Como faríamos agora sem ele? E as crianças que o esperavam, ainda nos sonhos da inocência, lá em cima em cada ninho adormecidos... Ai Chiquinho, Chiquinho meu, Chiquinho dos livros! Nem da sua última viagem nos tinha abraçado! Voltara, mas sem afeto, vazio do mundo que abraçava a cada abrir de olhos, apaixonado, apaixonante...

Quantas caras estranhas, te vieram dizer adeus, o último, mas eu não me despedi da tua alma, meu irmão! Tu ficas-te comigo aqui, não te deixarei partir nunca! Moras no meu ser!

Prometeste nunca deixar-nos e não te largarei nunca! E quando eles baixaram aquela caixa enfeitada de morte e flôres tristes, por terem nascido para te dizerem adeus, o meu coração estremeceu...Mas tu ficaste comigo! Eu sei! Em cada livro, em cada página que folheto e em contos que me inventam neles, encontro o teu sorriso e pouco me falta para te ouvir a voz.

E a carta que havias escrito para mim e o Roberto a entregou, chora ainda a tua tristeza, a tua fraqueza, o teu medo, do que seria a tua vida depois...Mas do que me importa com quem vivirias, que escolha o teu coração havia feito, meu irmão! De que me servem agora lamentos e preconceitos? Tu não mais viverás com quem sonhaste! E assim nos deixastes a todos, como herança apenas os teus sonhos por concretizar, um amor por viver e tanto, mas tanto para dar! A cada livro que abro leio-te e revolto-me, que estas palavras todas, não tenham a força de te fazer erguer e abraçar-me neste sofrer...E no meu coração a lembrança das tuas viagens e mais do que tudo os teus regressares... A delicada voz que conquistava os corações das crianças e os gritos que lhes escapavam na esquina sombria de uma história contada...Não, tu não morreste meu irmão. Enquanto houver um livro para abrir, tu viverás nele e no nosso coração.

A todos aqueles que partilham esta paixão do olhar uma capa, do encantar de um título, do abrir uma página e se sentar num cantinho com ele entre os dedos e um sorriso beato de uma criança que antecipa a alegria de descobrir o seu heroi , mais uma vez vencer uma batalha! Ao meu Chiquinho, a todos os Chiquinhos do mundo, o meu carinho dividido entre o abraço e o amor...













 

 Ana Mendes, luso-angolana, autora de 1   livro infanto-juvenil A ROSINHA E O CARDO   SELVAGEM (português/francês) e 1 romance policial LES SECRETS DE SANSENSE  (francês).É membro da ALALS, da AIL O. S. e da NALAP, partic/ em 30 Antologias e Coletâneas.Ganhou 1° lugar concurso/ literário da FALARJ-RJ 2020 E AJEB-RJ 2020 (conto e crónica).Recebeu Menção honrosa pela Rede Sem Fronteiras 2020 (poesia).








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