MulherArte Resenhas 05 | Pré-história de Paloma Vidal

 



Pré-história de Paloma Vidal

(Rio de janeiro:7letras, 2020)

- Por Eurídice Figueiredo


No romance Pré-história,  Paloma Vidal (2020) fala de um luto não pela morte de alguém, mas pelo fim do casamento. A narradora fala diretamente com o ex-marido, numa espécie de acerto de contas. Segundo Freud em Luto e melancolia haveria dois tipos de reação diante da perda do objeto amado:  o sujeito aceita a perda e começa a fazer o luto ou o sujeito não aceita a perda, incorpora aquele objeto perdido, tornando-se melancólico. O tom do livro é melancólico porque a separação ainda não foi bem resolvida, ainda ecoa nos sentimentos da narradora; a própria escrita faz parte do esforço para elaborar o luto da perda. Ela usa um mecanismo um pouco retorcido: insiste mais na cena inicial, o encontro dos dois adolescentes na festa de seu aniversário no play do prédio, do que em brigas que teriam levado à separação do casal, o que vai aparecer mais para o fim do livro.

Já numa espécie de preâmbulo ela escreve: “Este livro é a sombra de um outro que eu queria escrever para te ferir, para te tirar do sério, para fazer você berrar comigo, dizendo que eu não entendo nada, que as coisas são muito simples, e eu nunca entendo, eu não quero entender, mas tudo é muito simples” (VIDAL, 2020, p. 13. Em itálicos no original). O simples e o complicado são palavras que voltam sempre, porque os relacionamentos parecem ser simples e, na verdade, são complicados, ou ainda, tentar se entender no âmbito do casal nem sempre é fácil. Contar essa história é tarefa que custa um esforço para a personagem-narradora que repete sempre a necessidade de fazer frases simples, ir devagar, como se fosse possível entrar em pânico. A escrita em forma de fragmentos é uma necessidade de tomar fôlego, respirar. Como escreve Leonardo Gandolfi na orelha do livro: “Perder alguém pode ser a chance de encontrar a si mesma, só que do lado contrário”. Talvez a sombra do outro livro seria o lado contrário, à maneira do bordado em ponto de sombra, no qual o avesso tem muita linha e no lado direito só aparecem as linhas finas  em pequenos pontos; feito em tecido fino, o sombreado das linhas do avesso pode ser percebido. O romance se constrói assim, de maneira delicada e sutil.

A epígrafe, de Marina Lima e Antônio Cícero, “Você me abre seus braços/E a gente faz um país”, junta o amor e a política, dois temas que perpassam toda a narrativa. Além do exílio dos pais, que deixaram a Argentina por causa da ditadura, vindo para o Rio de Janeiro quando Paloma tinha dois anos de idade, a narradora evoca o fim da ditadura daqui e, sobretudo, a eleição de 1989, quando Collor, que disputava o segundo turno com Lula, foi eleito. O paralelo com a eleição de 2018 fica patente: os populistas de direita têm todos o mesmo discurso moralista de combate à corrupção, seja Jânio Quadros em 1960 com seu jingle “Varre, varre, vassourinha/varre, varre a bandalheira/que o povo já tá cansado/de viver dessa maneira/Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado/Jânio Quadros é a certeza de um Brasil moralizado”, seja o “caçador de marajás” em 1989, seja o capitão anti-sistema, anti-política em 2018.

A disputa no casal passa pela política. Se na cena inicial, o adolescente que encantou a protagonista usava um pin com a estrelinha do PT, que pintou a cara pedindo o impeachment do Collor, ao se tornar homem maduro, no final do casamento, ele se entusiasma com a condução coercitiva do Lula, se alegra com o resultado da eleição de 2018 ao passo que ela e os pais choravam juntos. O período que antecedeu o impeachment da Dilma foi de crise, como se estivessem em campo minado. Neste sentido, o luto não é só pelo casamento desfeito, é pelo país que se desfaz. Esquerda e direita são, para o marido, talvez, palavras vazias, que não têm mais sentido, mas é assim que ela vê o mundo e sua história. “Do jeito como experimento contar essa história, elas nos uniram e, em algum momento, nos separaram” (VIDAL, 2020, p.76). Ou ainda: “Eu queria continuar te amando, mas como separar o amor da política?” (VIDAL, 2020, p.78).

A dor do esgarçamento da relação amorosa é reforçada pela dor de ver o país se despedaçando, pela incompreensão no casal quando o outro parece ser incongruente, indiferente ao caos que viria em decorrência do resultado da eleição de 2018. Eles têm percepção diferente do tempo: ela declara que adora o passado e o futuro, lembrar e planejar, oscilando entre a melancolia e a ansiedade, enquanto ele prefere viver o presente.

A obra de Paloma Vidal oscila entre a autobiografia e a ficção e algumas frases assinalam esse entrelugar. “Essa história é meio inventada, meio verdadeira, você sabe” (VIDAL, 2020, p.23). “Não invento tudo. Não quero. Não posso. Não sei qual dos lados não me deixa” (VIDAL, 2020, p. 37). “Não invento tudo. Meu avô era um sobrevivente de uma infância órfã e pobre, que com 21 anos se formou como professor [...] e depois se tornou revisor, editor e tradutor” (VIDAL, 2020, p. 52). Em outra passagem a narradora diz que escreve para vencer o medo, inclusive o medo de perder o seu parceiro. Assim, ao escrever, ela pode simular a separação como em Algum lugar, romance que gira em torno de sua estada em Los Angeles, no doutorado sanduíche. Ela comenta isso: “Fingir que te perdia, que você ia embora, que eu te largava, para, terminado o livro, constatar que você ainda estava lá. Encenar a perda para encarar o medo, sem perdê-lo” (VIDAL, 2020, p. 91).

O abuso sexual aparece de maneira muito contundente no seu romance Mar azul, constituindo um trauma que, de certa maneira, plasma o futuro da personagem que leva uma vida melancólica, exilada no Rio de Janeiro. Aqui em Pré-história existe menção a um estupro que a narradora teria sofrido entre o encontro na festa de aniversário e o reencontro dois anos depois. Ela não contou para ninguém. “Quase cheguei a esquecer que a primeira vez que um homem se deitou sobre mim foi sem que eu quisesse. Talvez se você tivesse perguntado, eu teria te contado” (VIDAL, 2020, p.110).

Nenhum luto é igual a outro, cada um tem uma tonalidade nos diferentes momentos vividos. Como escreve Marília Kubota em Eu também sou brasileira (2020, p. 98): “O que se pode dizer quando se perde uma pessoa de seu convívio diário? [...] Vamos aprendendo a perder um pouco a cada dia para que no fim nada sobre. E assim seja mais leve a última perda, a do incomensurável ego”.

Não é que o luto passe, é uma ferida sempre aberta, às vezes mais dolorosa, às vezes mais apagada, mas ela está lá. O luto é nosso pão cotidiano.







Eurídice Figueiredo é professora do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da Universidade Federal Fluminense e bolsista do CNPq.


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