Resenha 'afetiva' do livro de poesia CICUTA E CILÍCIO, de Jeanne Araújo


(capa do livro CICUTA E CILÍCIO)

O AMOR SAGRADO E PROFANO NA POESIA DE CICUTA E CILÍCIO 

(por Nic Cardeal)

Em seu novo livro CICUTA E CILÍCIO (Penalux, 2021), JEANNE ARAÚJO transforma em poesia contemporânea toda a paixão e o amor revelados na obra clássica As Cartas Portuguesas, por Mariana Vaz Alcoforado (freira portuguesa e escritora), e dirigidos ao Marquês Noel Bouton de Chamilly, Conde de Saint-Léger e oficial francês. O ‘eu lírico' de Mariana é desenhado na poética de Jeanne, que descreve lindamente o vendaval de sentimentos - às vezes brisa, às vezes tempestade - que tomou conta de Mariana, ao viver esse amor e posteriormente ser abandonada pelo amado.

Tanto o amor profano quanto o sagrado, ambos se misturam nos versos de Jeanne, trazendo roupagem nova e atual para o amor proibido retratado nas clássicas cartas. A personagem tem urgência de falar sobre o amor que marcou - feito tatuagem, corte, fagulha, fantasia - a sua pele, a sua alma, a sua memória. Em todos os modos de dizer sobre o amor, a autora captura a essência poética da palavra - pode ser um desejo, um delírio, um sonho, uma visão do paraíso [quando foi que Eva provou da maçã proibida e enfeitiçou seu Adão?] - e a transforma em poemas que nos absorvem por inteiro, nos apaixonam e nos mantêm atentos a cada estrofe!

O livro é dividido em 4 partes e, coincidentemente - ou não? - a quantidade de poemas em cada uma delas é decrescente, como se [arrisco dizer] a palavra precisasse, aos poucos, ou mesmo de súbito, ir se reduzindo, ao falar do 'sabor concreto' do amor, passando pelos 'quatro estágios' da sua dor, até compreender a verdadeira razão desse sentimento - aquela palavra que, afinal, ao final de toda a vida humana esbarra no seu místico sentido - assim considerado o amor o mais profundo dos mistérios humanos.

Na primeira parte, em PROFANO, os 17 poemas são como rasgos, que cortam, dilaceram, sangram todas as peles - do corpo,  do coração, das emoções, da alma - e dizem (e como dizem!) sobre o prazer do amor sentido, no mais profano e no mais sagrado nele embutidos (ou escancarados): 

"o que é profano e sagrado dentro desse quarto 
só cabe a mim e a ti"

Ora a autora/‘eu lírico’ fala dele, ora para ele, ora para si mesma, sempre em busca da poesia enraizada nas entranhas de cada seiva, desde a mordida até a fenda, desde o flagelo até o gemido, desde o sonho até o mais puro êxtase, porque 'seu' homem é o pescador dos sentidos:

"pescas um poema em minhas profundezas"

Há profecia estampada em cada linha, e a poesia não escapará do gozo e nem do delírio nas páginas da poeta, nem que sejam necessários o cilício e a cicuta para que o verbo enfim seja tatuado! Nada, absolutamente nada, na poesia de Jeanne, parece ser ao acaso - todas as medidas são propícias para o parir da palavra, ainda que o caminho do desejo seja estancado antes do "fá-lo". Pode ser que ali mesmo, no meio do caminho, o desejo se depare com o baldio do amor:

"meu destino é passagem 
casa desabitada 
em terreno baldio"

Em CLAUSTRO, os 16 poemas escorrem pelas paredes do desejo e dos espasmos, mas a poesia não se evapora, permanece marcante, concreta, inteira de si, vivente, vibrante, enclausurada entre as bocas, as pernas, as mãos e os gestos, nos afagos e nas ânsias, na gula e no afã da carne, entre preces e mandalas, sobrevivente incansável d"o amor, esse viajante que cruza o mar" e parece nunca o alcançar! Há também um aparente precipício sendo moldado, ao reverso das entrelinhas, como se os poemas ousassem pressentir o abismo que todo fim esculpe depois do voo, para além das asas: 

"arrasto os trapos 
na pele lanhada 
atravesso o tempo 
e levo comigo o silêncio 
e a escrita 
como chicote" 

Porque não há nada à toa, a poesia nunca engana: 

"entre a morte e o tormento 
a palavra como labareda"

Nos 15 poemas esculpidos em ELEGIAS, a dor é prenhe, beirando urgências de desligamentos: 

"Passei em claro escuras madrugadas 
e esta tem sido minha sina: 
um outro rosto abismado"
...
"Náufragos nunca são bem vindos 
em ancoradouros 
nem em confessionários"
...
"Restou um longo dia 
um mau agouro de coisas findas 
e a culpa de não ter fechado a porta 
na saída"

Porque nada é feito em descuido na poética de Jeanne, ainda que o amor, também ele, esteja propenso ao abandono. Até os cortes, na lâmina afiada da palavra dita - ou engolida - "entre a pele e a alma", revelam-se nas entrelinhas:

"Escondida entre as entrelinhas 
do poema inacabado 
a minha inabilidade 
com as desmesuras"

Nos 14 poemas de MÍSTICAS, o verbo reverbera e sacode até a alma: o 'corpo' da alma estremece, e finalmente reconhece que, embora os penhascos existam, 

"neles, se ganha asas 
rasga-se as costas 
a pele se despe 
e se lapida" 

Não que não haja a dor - impossível a vida indolor! - as feridas podem ser até contabilizadas em cadernos de anotar motivos, ou riscadas - uma a uma - marcando paredes em giz, ou tatuadas ali mesmo, na pele cansada, riscos dissonantes na própria 'capa' da alma! Sim, a dor, essa lembrança constante de que o amor apunhala e sangra, mas também cicatriza e pontua o lugar exato por onde arrebentarão - enfim - as asas! E o amor, ahhhh... 

"o amor como rastro 
embora o engodo 
me faça dar passos 
onde não há caminho" 

Jeanne procura pérolas em MÍSTICAS, como se desbravasse as estranhas figuras dos seus 'dentros', em busca de sentido para o amor.

A poeta diz exatamente a que veio: quer archotes, caminhos iluminados, claridades nos sombrios lugares das passagens estreitas, e segue na vigília da melhor palavra, porque o verbo, mesmo na poética, precisa gritar aos quatro ventos, aos quatro tempos, que o amor - bênção ou maldição - sabe muito bem o gosto da cicuta e do cilício em todas as peles da existência, ainda que perdidas as mãos, mas perenes as asas!

(fotografia do acervo da autora)

JEANNE ARAUJO nasceu em Acari, seridó potiguar, em 1968 e mora atualmente em Ceará-Mirim/RN, onde é membro da ACLA – Academia Cearamirinense de Letras e Artes. É professora, poeta e escritora. Formada em Letras com Especialização em Literatura e Ensino. Publicou os livros de poesia Monte de Vênus (edição da autora), Corpo vadio (Editora Penalux) e a novela Cercas de Pedras (Editora Penalux); além do romance Combustão (Editora Penalux), em parceria com o escritor e jornalista Cefas Carvalho. Integra diversas coletâneas e antologias de Concursos Literários regionais e nacionais.




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