De Prosa & Arte | Escritos, Descritos e Prescritos


Coluna 20

Fonte @marcosnunes.fotos


Escritos, Descritos e Prescritos


Escrevo desde adolescente, porque eu fui criada num ambiente onde tinha muitos leitores e os livros eram acessíveis a qualquer tempo, então já era um hábito ler e escrever. Mas na adolescência esse processo se intensificou bastante por conta de questões da própria percepção do racismo, da minha entrada no magistério e de todas as reflexões acerca da educação, da própria vida, de todas as negativas que na adolescência eclodem por conta da questão racial e de classe, da autoestima, do cabelo, dos relacionamentos, então todas essas questões eram abordadas e apareciam recorrentes nos meus textos. Os contentamentos e descontentamentos. E desde então não parei mais de produzir.

Escrevo desde sempre e normalmente escrevo poemas / poesias, mas não só. Hoje tenho uma escrita em desenvolvimento no gênero crônicas. Com uma tendência meio dadaísta assim de ressignificar algumas coisas, tirar as coisas do contexto, às vezes um texto surge a partir de palavras aleatórias que eu vou pensando durante o dia, às vezes no contato com outras pessoas, conversas de WhatsApp, aí alguns signos vão ficando e aquilo me inspira a escrever.

Eu acho um pouco mais simples o desenvolvimento de poesias,  porque pra mim surgem fluidas e rápidas. Eu tenho essa coisa com a urgência e a velocidade  não sei se é porque sou professora e um tanto imediata.

Escrevo muitos textos mas para o bom resultado numa crônica ela precisa ser bem trabalhada, bem amarrada é uma construção que eu ainda tô fazendo dentro da minha trajetória. e intenciono escrever um livro de literatura infantil, no gênero contos. Quero também ser contista. Mas é um projeto futuro..

No início eu costumava publicar no blog pessoal hoje extinto pelo desuso. Então utilizo outras plataformas de produção de conteúdo que têm um pouco mais de visibilidade, a tecnologia vai ampliando as possibilidades e o ambiente digital se torna fundamental.

Depois que eu acessei o coletivo literário Sarau Elo da corrente em 2014, percebi um espaço para poder recitar  / declamar as minhas poesias, fomentar a palavra falada, a tradição oral me encanta. Cantar é uma coisa que eu gosto de fazer também, não como profissional, mas como uma amante da música que sou mesmo.

Depois de uns três ou quatro anos no coletivo eu fui convidada pelos organizadores para publicar os textos que eu já tinha. Na época com bastante material produzido e a minha primeira publicação saiu com o selo do coletivo em Julho de 2019.  Foi muito engraçado porque conversando com os organizadores e sendo uma frequentadora assídua do Sarau, eu intencionava publicação. Um desejo era que o meu livro tivesse o selo do coletivo.

No ano seguinte o coletivo foi contemplado através de uma de uma iniciativa, um programa fomentado para produção de coletivos literários de Periferia. Daí o convite aos poetas do nosso clã. O meu título foi o primeiro que saiu na retomada das publicações do coletivo e me deixou muito orgulhosa, muito contente. A emoção de sentir o  cheiro de um livro novo, sempre me foi cara. Mas abrir o livro de uma preta, sendo eu a própria foi incrível. Como se diz "quando a gente projeta as coisas no universo elas acabam se desenvolvendo no mundo real". 

Nesse processo tive o apoio também de páginas parceiras do meu coletivo, o que também me possibilitou o acesso aqui na SerMulherArte. Assim a gente vai criando encontros e conexões. A Literatura possibilita uma caminhada surpreendente. Depois de acessar esse Universo, jamais caminhei só.

Com a publicação do meu livro eu tive o convite de outros coletivos literários que são da minha região... apoiadores. Fiz alguns lançamentos nas bibliotecas públicas da região, em algumas escolas. Sou professora em São Paulo. Esses parceiros de outros Saraus  quando tem essa possibilidade de publicar fazem convites e a gente vai publicitando o trabalho.

Sinto a literatura como uma ferramenta social de mudança. Quando ela vem da periferia traz as narrativas das ditas "minorias”, quando ela coloca mulheres no topo das discussões. Que é uma coisa que os coletivos literários têm feito: é problematizar o  “não lugar” das manas nas lideranças dos movimentos de cultura e inserir essa voz feminina nos Espaços Coletivos. Acredito que toda a literatura é uma ferramenta de mudança.

Literatura também é um anúncio de autoestima. Minha escrita / literatura é para outras pessoas, mas fundamentalmente para mim. Para eu entender que é possível escrever, que é possível ter uma equipe editorial assessorando os meus processos, criticando pra construir significados positivos na minha escrita, que tem uma marca muito feminina e vai trazendo questões da maternagem, da sexualidade, da profissão, das aventuras literárias e artísticas, da solidão da mulher negra, dos relacionamentos que dão certo, daqueles que não dão e de tantas outras problemáticas que estão em torno da vivência feminina. Eu tenho escrito assim, para as manas e para mim.

Minha voz literária é de uma mulher preta, trabalhadora, mãe, uma mulher comum, mas que sonha, que vence aí toda correria diária na periferia, na Educação, nos coletivos, no território. É literatura de afeto, de amor, de paixão. Eu acho que ela deixa uma marca dessa questão da visceralidade que eu trago. Sabe as entranhas expostas? Sem medo, sem pudor de ser quem eu sou, ela traz o potencial feminino de (re)construção das vivências, de mudança e disputa dos nossos lugares de fala.

Escrever na quarentena me ajudou muito. Criar uma regularidade, desenrolar ideias, remodelar textos, fazer edições e aprimorar meu contato com essa ferramenta que é o espaço leitor e escritor.

Eu tenho lido mais que o habitual, não tanto quanto gostaria. Leio as minhas manas e confesso que ultimamente por conta até desse meu envolvimento com os coletivos os livros de cabeceira são livros das vozes que ecoam na minha cabeça. Vozes dos meus parceiros nos coletivos e às vezes predominantemente ecos femininos. Mas eu gosto dos meninos também. Eles trazem uma escrita potente, uma característica incrível nos textos que tem me feito refletir, me feito pensar.

Houve momento que eu quis realmente só quer ficar na observação. Esse momento tão denso pelo qual a gente passa. Então me permiti relaxar e não ficar o tempo todo tendo que demonstrar produtividade, eu também tenho me dado esse tempo embora me envolva em muitas frentes de escrita, não só na questão literária mas na questão de educação e eu gosto.

A escrita me possibilita viajar nas ideias, aprender, agregar conhecimento e desenvolver conteúdo que tenha significado para os lugares que frequento e onde quero chegar.

Usar e exibir minha literatura na pandemia a princípio pareceu um nó, já que não sou uma escritora/poeta renomada. Mas eu penso que oportunidades surgem quando mesmo em isolamento a gente não se omite em pelo menos botar a cara na janela.

Essa é a vigésima semana que escrevo aqui, e hoje a escrita é de celebração pelos caminhos trilhados junto a tantas mulheres incríveis que dividem suas palavras e seus deságues. Este tem sido um importante espaço de depuração da minha trajetória como escritora/colunista. O que eu produzo divido com as pessoas, pois eu não consigo conversar com uma pessoa mesmo por mensagem sem usar esse escopo e esse padrão meio literário e poético que faz parte de quem eu sou.

A função da minha literatura também é denúncia e manifesto. Tentativa de fazer com que as pessoas reflitam através dos textos e das poesias que eu escrevo. Minha escrita algumas vezes é o grito entalado na garganta que Jenyffer Nascimento anuncia em Terra Fértil.

Tenho refletido sobre a escrita periférica. A periferia é a margem, a borda mesmo, quase sempre tá esquecida. Mas não é por isso que ela deixa de ser produtora de Cultura. Mesmo estando aí nas franjas da cidade nós temos um potencial na oralidade que é característico dos nossos povos originários, dos nossos povos negros, dos nossos povos nordestinos. É o que nós carregamos na periferia, nesses traços de corporeidade e oralidade, que estão muito marcados. Por isso eu penso que existe essa gama de saraus pela cidade que convergem mil formas de declamar, recitar, cantar, manifestar, agregar, protestar contra as desigualdades existentes nesses lugares.

Talvez não consiga dizer especificamente o que é estar à margem na periferia por que mesmo morando na periferia eu percebo uma série de privilégios que eu tenho em detrimento de outras pessoas. E isso incomoda também. Principalmente nesse momento em que tudo isso fica tão visível e tão desgastante.

Eu penso que a minha literatura agora é de conexão com essas pessoas que dividem essa margem comigo e que de alguma forma ainda estão para além dela mais invisíveis que eu. É com essas pessoas que eu gosto de estar, é com elas que eu gosto de sentar no boteco, é com essas pessoas que eu gosto de “versar”, é nos olhos delas que eu me encontro.

Mas tem sido complicado a gente ter uma situação um pouco mais favorável e ver os nossos tendo dificuldade. Tendo essa doença tão próxima, evoluindo tão rápido, tendo as perdas financeiras, emocionais, familiares...enfim.

A periferia é um Universo de potencialidades, possibilidades, desigualdades, encontros e despedidas. Não é vista pela elite, nem pelos manipuladores do sistema. Essa horda sedenta no capitalismo que cria e dá manutenção a essa necropolítica instalada, desconhecem a natureza criativa geradora que emerge da periferia, de todas as periferias.

Nós somos as forças motrizes desse sistema, que apesar de movida no nosso braçal opera contra nós. Nós é que enchemos os cofres públicos com a nossa produção que é explorada e mal remunerada. Precisamos ser visibilizados, os coletivos dentro dessas comunidades nesses bairros periféricos fazem muito pelo seu território, e isso nos dá minimamente uma centelha de alegria. Porque nós ali nos entendemos como agentes do nosso processo de reconstrução social e isso é muito importante. Entendo que criar nossas próprias narrativas dê outro tom ao que dizemos, afinal falamos por nós.

Mas além da denúncia é preciso fazer o anúncio como diria P. Freire. Por isso escrevo fundamentalmente sobre amores: Fraterno, Eros e Ágape. Isso eclode habitualmente, talvez seja até repetitivo. Tem muito de canção na minha escrita, muitas vezes faço intertextos entre as músicas que eu gosto de ouvir os meus escritos para apresentar como forma de fruição estética. Mas também como forma de reflexão.

Não me furto a trançar narrativas as vivenciadas na pele e as descobertas durante o processo escritor/leitor. Minhas memórias, às vezes, não são exatamente lineares. Faço saltos ou intertextos com situações passadas e atuais. Tenho um longo caminho a percorrer. Sou um tantinho prolixa e não tenho nenhum poder de síntese. Uso infinitas reticências com aquilo que me transborda e ainda não sei versejar. 


E agora meu desejo para a literatura feminina é que nunca calem nossa voz, é que nunca nos apaguem verbalmente, fisicamente, é que dentro desses coletivos respeitem o nosso lugar de fala, nos cedam agência e o protagonismo nas ações junto aos manos. Que respeitem o nosso caminhar e que sejam parceiros na publicidade das nossas vozes. O que eu desejo para as mulheres da literatura é sucesso, visibilidade, que sejam potencializadas as oportunidades de criação e publicação, que as mulheres sejam escritoras, produtoras culturais, que elas estejam na linha de frente dessa geração de conteúdo relevante.

Ah... E eu quero minhas manas pretas no topo né?
Quero minhas manas sendo aclamadas por sua literatura, nas listas das editoras e dos mais vendidos. É isso que eu quero. Todas no topo e se eu puder chegar junto vai ser incrível também.






 

Comentários

  1. E a cada dia a sua escrita nos leva a lugares cada vez mais espetaculares, a novos sabores, a novos amores. Obrigado por ser esta fonte semana de inspiração a sermos melhores, que encontramos nos seus textos. Obrigado.

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    1. Querido Marcos, a literatura é mesmo fascinante. Vamos juntos reescrever intenções. Um grande abraço!

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  2. Belo texto Guiniver, você está construindo seu próprio caminho nessa estrada de letras. A sua verdade é seu melhor guia. Bora!

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