Coluna 04 - In-Confidências por Adriana Mayrinck

                                                        Coluna 04

Cinquenta dias em casa...

por Adriana Mayrinck

Aprendi a conviver com as distâncias - desde sempre.

Nasci em Recife, metade da família pernambucana, a outra metade, apesar de carioca, dividida entre São Paulo (avô paulista), Rio de Janeiro e Minas Gerais. Depois, aos 3 anos fui morar em Copacabana. Para resumir, foram muitas idas e vindas, entre Recife (no total, 8 anos), Rio de Janeiro e Teresópolis (38 anos), nos intervalos muitas viagens, 3 meses em Bruxelas, até aterrar há quase 4 anos, em Lisboa. Passei a vida assim, convivendo com abraços e sorrisos de chegada, novos amigos, novos lugares, abraços e lágrimas de despedida.


E lembranças.
E saudades.


Sempre vivi e acreditei que a vida é para ser sentida... Aproveitar cada momento com quem está ao nosso lado, reter o que agrada, fixar cheiros, sabores, sorrisos, olhares, abraços, melodias, paisagens - na memória. Necessito do toque, do convívio. Gosto de olhar nos olhos, falar pessoalmente, sem nada interferindo. E como é difícil quando se tem alma nômade. Mas são essas impressões que guardo, nesse meu relicário, tão seletivo.


Utilizo as redes sociais com uma certa impaciência e rejeição. E obrigação. Após algumas postagens e respostas, desconecto. Não sei lidar com isso, não consigo acompanhar a todos e dar a devida atenção, acho que sempre falho com alguém, não tenho paciência para determinadas situações e prefiro sempre manter a devida distância. Sou a pessoa mais anti social em uma rede social. Não consigo ficar horas acompanhando as inúmeras postagens e já foi o tempo de fazer comentários e entrar em discussões infindáveis no início de tudo isso, percebi em pouco tempo, que esse universo não era meu. Complicado responder a uns e não a outros, simplesmente por não ver. Humanamente impossível, principalmente para mim, responder a todas as mensagens e comentários, no Facebook, Instagram, Twitter, YouTube, Bloguer...


Por ironia (e necessidade) acompanho a vida, pelo ecrã, do computador, da tv, do telemóvel (celular). Participando de tantas iniciativas de entretenimento e convívio virtual, fico a pensar, se tenho mesmo que me adaptar a esse novo tempo e deixar as minhas convicções de lado e me render definitivamente a essa nova era de videochamadas e lives (sinceramente não sei dominar muito bem). Sinto-me mais confortável entre os blogues e e-mails.


Ao buscar algum entretenimento, até para aprender como a coisa funciona, deparo-me com essa necessidade de se expor ao mundo, essa loucura constante de "lives" e videos dentro do quarto, da cozinha, da sala, da casa de banho (banheiro) apenas para promover a própria individualidade.


Não percebo tanta solidão, ansiedades, síndromes, tédio e desespero expostos nas redes sociais, nesse momento atípico em que a humanidade está passando. Essa agonia das pessoas que possuem tanto conforto, incomodadas por estar em casa. São elas, que nos enchem diariamente de lixo eletrônico, mesmo que a gente não procure ou não queira saber. E penso naqueles que não têm para onde ir, dividindo um quarto com toda a família, talvez até sem uma televisão para distrair.


Apenas cinquenta dias e tantas reclamações que me causam tremenda confusão, ao perceber a contrariedade, a descrença, a irresponsabilidade de tantos que fingem e querem impor uma normalidade que no momento não existe e colocam-se em risco, e o que é pior, a quem está a sua volta. Não aceito a indisciplina, a revolta em seguir regras que são para a nossa própria proteção. Proteção não só de um país, mas de toda a humanidade. E se estivessemos confinados em um búnquer devido a uma guerra nuclear, ou andando por destroços de uma cidade arrasada por bombardeios? E se não pudéssemos mesmo respirar, devido ao ar tóxico? E se cortassem as comunicações?... e se...


Acho que não recebi o livro de instruções desse novo tempo.


Por isso, por mais que eu tente, ainda resisto a acompanhar esse mundo virtual. São tantas as incoerências, que começo a acreditar que alguma coisa se perdeu na virada do século e nessa era chamada modernidade, onde as ferramentas de convívio social, viram divãs de analistas para uma humanidade senil, fútil e vazia.


Estou tentando aprender a passar pelas redes sociais sem deparar-me com determinadas situações e me indignar, pelo assunto , imagens , comportamentos e erros de português. Ainda não consegui encontrar esse filtro de proteção para a minha falta de paciência.


E ao olhar ao redor, o sol na janela, o vento balançando a cortina, o livro na cabeceira, o filme ou a série a espera, penso no quanto me agrada passar as horas nesse meu aconchego, entre os meus pensamentos, as conversas com a filha e as pernas entrelaçadas ao homem que amo. O quanto estar em casa, é extremamente agradável e o quanto me sinto bem.


É, acho que prefiro ficar na minha janela, olhando a vida passar, sem pensar nos dias, ou no que poderia estar fazendo lá fora. Aproveito essa obrigatoriedade de ficar em casa, para vivenciar, o que há 50 dias atrás não tinha tempo...



Quando escrevi este texto, Cinquenta dias em casa... no início da pandemia, acreditei que tudo passaria em alguns breves meses. Muita coisa aconteceu, no tempo, do tempo: perdas, doença, cinquenta anos, muitas ausências, eventos e trabalhos cancelados, saudades das pequenas coisas simples da vida, aprendizados e muita resiliência.


Trezentos e trinta e dois dias em casa...

“Numa experiência pela qual peço perdão a mim mesma, eu estava saindo do meu mundo e entrando no mundo.”  Clarice Lispector


De repente precisei de um choque de realidade e me convencer de que o ir e vir ainda seria restritivo, por muito tempo. Tive que enfrentar o cotidiano sem sair de casa. Não dava mais para me refugiar nos meus livros, filmes, na contemplação das estações da natureza mudando as cores e folhas das árvores através da minha janela.E permanecer em mim.


Se não desse um passo para o mundo virtual, todo o trabalho de três incansáveis anos seriam apenas fotos no álbum de lembranças. As novidades são instantâneas, o mundo abriu as portas e uma avalanche de informações a cada segundo, invadem e ocupam seus lugares momentâneamente. As contas não param e foi esse trabalho que escolhi, por paixão e para sobreviver, negando esse novo momento, deixaria de existir.

Aprendi a desconstruir paradigmas, teimosias, também vergonha e resistências. Aventurei-me, ultrapassei meus limites, me desnudei para o mundo. Descobri outras possibilidades, vertentes e caminhos virtuais. Fiz vídeos, convidei pessoas, na qual agradeço imensamente por todo o apoio e acolhida e fiz muitas, muitas lives. Encontros emocionantes e parcerias, que jamais imaginei.

De alma aberta, sem pré-conceitos, com um olhar mais além, re-criei a minha vida, dividi um espaço antes só meu, com o mundo. Entre as minhas quatro paredes, em frente a uma webcan, a minha janela agora, me expõe e conecta-se com centenas de outras janelas.


A cada dia repenso tudo isso, como sou capaz agora de invadir (com permissão) a casa de outra pessoa no outro lado do mundo e em uma única tarde estar na Alemanha, diversas cidades no Brasil, Suíça, Bélgica, Itália, Espanha e Estados Unidos, sem levantar da cadeira. Tudo tão estranho, tão novo e ao mesmo tempo, confortável e surpreendentemente acolhedor.

Não sou mais e nem apenas o meu reflexo no espelho, reflito-me nos ecrãs até de quem desconheço. E penso na imensa responsabilidade de cada palavra que digo. E sem filtros, sou quem sou, com todas as minhas emoções.

Mas, mesmo assim, nessa avalanche de encontros, parcerias, conversas e muitas trocas de vivências e experiências, principalmente literárias, totalmente virtuais, permaneço com as minhas ausências e solidões. 


Os amigos mais próximos e familiares apesar de tantos recursos, falamos eventualmente, por telefone, por acomodação, tempo ou tradição, essa nova forma de estar, não cabe no nosso cotidiano de convivências, memórias e lembranças. 



A vida inteira, aprendi a levar as pessoas que amo, no lado de dentro. 

E viver, entre distâncias.



(Perdoem a minha ausência)

 

#fiqueemcasa #usemáscara #distanciamentofísico #protejaSe 











Comentários

PUBLICAÇÕES MAIS VISITADAS DA SEMANA

Cinco poemas de Jacinaila Louriana Ferreira | "a voz que insiste em gritar"

Poemia 01 | Tempo - por Chris Herrmann

Mulher Feminista - 16 Poemas Improvisados - Autoras Diversas

Elas me fazem de gata e alpercata | Desfile de meowdas 1 - Publicação coletiva

Coluna 04 | Mulherio das Letras na Lua - JAMMY SAID (Brasil)

Preta em Traje Branco | Dois Versos Vibrantes de Oyá

Comentário afetivo (resenha) sobre o romance O CORAÇÃO PENSA CONSTANTEMENTE, de Rosângela Vieira Rocha

Façanha Feminina | Sarau na Favela

Coluna 03 | Mulherio das Letras na Lua - CECÍLIA DIAS GOMES (Portugal)