Preta em Traje Branco | Trinômio de Valéria Rufino

 


Coluna 11





Trinômio de Valéria Rufino


Um grito para Herzer

Tem um pássaro que canta

a liberdade em sua prisão.

Ele é lindo, e alguém

que não se conhece bem o tem.


Ele canta...

“Eu tô só, num canto”

No espelho, o alguém está se vendo,

Eu solta, pessoa, me vendo.

 

Então usam-me, se esbaldam. 

Matam-me e se perdem

Ressuscitam-me, mostram-me e escondem-me

Deixam-me em pranto 

e forçam-me a sorrir

No entanto, vestem-me ao sol, despem-me no frio.


Meu corpo vazio,

Sem desejo... no cio.

Nesse mundo sombrio,

que me leva ao delírio

do instante que passou.


E aquela vida que eu sonhei ontem

amanheceu morta.

Essa morte eterna da vida,

Vem castrando os meus sentidos,

Vem corroendo os meus gemidos.


Eu vou escorregando de mansinho,

Indo ao encontro radical.

À raiz do pilão, socada, moída,

Está o ser, a razão...

Da pessoa humana natural,

Da vida do ser individual.

Inspiração “A Queda para o alto”, a história de Sandra Mara Herzer


Coisas da vida I

Eu choro na noite,

e me encolho 

embaixo dos cobertores...

Tá frio.

É inverno no coração.


Durante a manhã,

Andei pelas estradas semi desertas;

Pensava e despensava ao mesmo tempo;

Cantava no ritmo dos meus passos,

Andava, andava, andava...

 

Eu li poesia a noite passada,

E ri da alegria dos dias passados.

Eu tomei quentão no instante que passou,

Queimei minha garganta,

Sonhei com beijo de dragão.

 

Pensei que era calma a minha canção,

Mas, era podre angustiante,

O arroz azedou, a carne apodreceu.

O alimento servido na grande mesa está podre.

 

A vida fúnebre acordou com sono,

Eu tive um pesadelo 

sonhei com as coisas da vida.

 

Calcei os chinelos,

Mas preferia andar descalça,

Pisei no cimento frio... concreto


Sentia cheiro de terra molhada

Molhei um vaso de plantas,

E a terra cheirou...


Cheirou forte demais...

Acho que a água estava contaminada;

A planta murchou.


Poeta 

Sou um poeta a beira do abismo,

Negro desboto à luz de mercúrio.

Viril vampiro na madrugada,

Buscando o sangue

Nas ruas anêmicas

Dessa cidade sem compaixão.

 

Sou um poeta-solidão

Com o cigarro entre os dedos,

Queima meus olhos a fumaça.

Encharcado de angústia.


Sou um poeta

Que fuma desbragadamente,

Fumo dores e desespero,

Fumo todos os cigarros,

Cinzas espalhadas à minha volta.


Minhas cinzas,

Do corpo queimado,

O crânio fervente

Derrama uma calda vermelha...

 

Sou um poeta a beira do cais

Onde delírios e amores jazem

Sou um poeta

Navegando em busca de paz.


Valéria Rufino Martins, paulistana, professora de história, mestre em educação. Poeta e educadora. Sua escrita traça poemas curtos, inspirações em haicais, poesias concretas e produção de vídeo-poesias. Valéria por ela mesma: “ eu sou eu, mas nem sempre eu, nem sempre sou”.




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