UniVerso de Mulheres 13 - A memória e o erotismo na poesia de Anastasia Candre, 3 poemas traduzidos por Valeska Brinkmann




UniVerso de Mulheres 13

                                                                                       arte ©Eliana Muchachasoy


A memória e o erotismo na poesia de Anastasia Candre

3 poemas traduzidos por Valeska Brinkmann

 

        A chagra

     

    Avó da abundância

    Avó dona da dança de frutas

    Ela planta as sementes

    E delas cuida com amor maternal

    Pau de yuca, yuca brava, yuca doce, yuca para beber

    Vovó eu quero ir para a chagra

    Semear tubérculos, inhame, banana da terra, milho, abacaxi

    Replanto muitas árvores que foram derrubadas

    Cipós que foram cortados e sangram

    A terra que queimaram

    Vem meu irmão 

    E que venha a abundância

    Na chagra se ensina os conselhos 

    Na chagra foi onde me ensinaram

    Na chagra, a avó transmite seus saberes

    A seus filhos e filhas, netos e netas

    * Chagra é uma pequena área de terra cultivada, de aproximadamente um hectare, geralmente localizada a no máximo dois quilômetros de distância da aldeia indígena. É considerado um espaço de fecundidade, socialização e transmissão de saberes ancestrais. Este é um termo usado na Colômbia para „chacara“.


      La chagra

     

      Abuela de la abundancia 

      Abuela dueña del baile de frutas 

      Ella siembra las semillas 

      Y las cuida con amor maternal 


      Palo de yuca, yuca brava, yuca dulce, yuca para la bebida 

      ¡Abuela!, quiero ir a la chagra 

      A sembrar tubérculos, ñame, plátano, maíz, piña 

      Remplazo de muchos árboles que se tumbaron 

      Bejucos que lo cortaron y sangran 

      La tierra que quemaron 

      Llega mi hermano 

      Y llega la abundancia 

      En la chagra se enseña los consejos 

      En la chagra fue donde me enseñaron 

      En la chagra la abuela enseña sus saberes 

      A sus hijos e hijas, nietos y nietas




      Picante como ají 

      Saboroso e picante
      Seu aroma delicioso
      Como o coração da mulher uitota
      Furiosa e seus lábios ardentes

      Mulher uitota seu corpo fragrante
      Como o perfume da flor do ají
      Sua voz forte e picante

      Sozinha ela se acalma de sua raiva, mas seu coração ardente
      E ela começa a rir hi hi hi
      Ají, coração da mulher
      Ají, a força feminina
      Pimenta, planta medicinal uitota
      É o verdadeiro ensino e conhecimento

      O verdadeiro fogo do amor que não se apaga
      E alegre vive em seu doce lar

     * Ají é um tipo de pimenta ardida.



    Picante como el ají

    Izirede-jifiji izoi 

    Sabroso y picante 

    Su aroma delicioso 

    Así como el corazón de la mujer uitota 

    Furiosa y sus labios ardientes 

    Mujer uitota su cuerpo oloroso 

    Como el perfume de la flor del ají 

    Su voz fuerte y picante 

    Sola se calma de su ira, pero su corazón ardiente 

    Y comienza a reírse ji, ji, ji 

    El ají, corazón de la mujer 

    El ají, la fuerza femenina 

    El ají, planta medicinal de la mujer uitota 

    Es la verdadera enseñanza y conocimiento 

    El verdadero fuego de amor que no se apaga 

    Y vive alegremente en su dulce hogar


    O yagé

     

    Eu, eu sou o yagé, não podes me dizer quem és

    Sou teu avô

    Jibóia, é assim que me apresento

    Minha presença é terrível

     

    Eu, eu sou o yagé

    Sou como a onça, me sento com a pele pintada

    Não te assustes com a minha presença, me abraça!

     

    É só tua imaginação

    Não me perguntes „quem tu és?“ Sou o avô yagé

    Sou o espírito que permanece de pé.

     

    Eu sou a cura

    O deus que te inebria de sonhos maravilhosos

    Quantas doenças removi com meu hálito

     

    Minha palavra é de vida e conhecimento

    Eu maldigo aqueles que zombam

    Se me pedem perdão, perdôo

     

    Existo desde o princípio e ninguém zomba de mim

    Eu sou a videira da ciência dos saberes

    De mim, meu povo teve conhecimento

    Eu sou o deus, yagé

    * Yage ou Ayahuasca é uma preparação da medicina tradicional indígena colombiana, tem ação física, mental e espiritual. 


    El yagé

    Yo, soy el yagé, no puede decirme quién eres 
    Soy, tu abuelo 
    Boa, así me presento 
    Mi presencia es miedosa 

    Yo, soy el yagé 
    Soy como el jaguar, que me siento, con mi piel pintada 
    No te asustes de mi presencia, ¡abrázame! 

    Sóloes tu imaginación 
    No me diga, ¿quiéneres? Soy el abuelo yagé 
    Soy el espíritu que permanece de pie. 

    Yo soy la sanación 
    El dios que hace embriagar de los sueños maravillosos 
    Cuántas enfermedades he quitado con mi soplo 

    Mi palabraes de vida y de saberes 
    Maldigo aquellas personas burlonas 
    Si me pidenperdón, perdono 

    He existido desde un principio y ningún ser se burla de mí 
    Yo soy el bejuco de la ciencia de los saberes 
    De mí, mi gente tuvo conocimiento 
    Soy el dios, yagé



    Anastasia Candre Yamacuri (1962 – 2014) colombiana uitoto-okaina. 

    Falava os dialetos Bue, Minika e Ni'pode da língua Uitoto, além de espanhol e português.  Anastasia estudou Linguística na Sede Amazônica da Universidade Nacional da Colômbia, em Leticia. Escreveu sua dissertaçao sobre Canções do ritual dos frutos do uitoto. Foi tradutora de uitoto, língua que também lecionou na Universidade de Leticia.  A poesia de Anastasia Candre se faz no universo das canções cerimoniais uitoto. Seus poemas combinam as características rituais das canções tradicionais com uma expressão mais íntima e pessoal de imagens e sentimentos de força simbólica. 

     Em 2005, ela esteve no Brasil, participando do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.




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