De Prosa & Arte | Ressaca de Carnaval e Pandemia - Reflexão sobre um ano que não acabou

 


Coluna 22


Fonte: https://blogdojuca.uol.com.br/2019/03/jesus-e-o-diabo-na-terra-do-carnaval/ 
Arte By Guiga Preta in picsa


Ressaca de Carnaval e Pandemia - Reflexão sobre um ano que não acabou

Ano passado veiculou-se a galope a imagem acima e alguns religiosos associaram essa intervenção artística à expansão do Coronavírus em âmbito Mundial. Eu fiquei de cara com isso. E esse texto tava escrito desde lá. Ainda vi umas manifestações no ano corrente. E este texto passou a me cutucar. Hoje vou me arvorar a dividi-lo.


Como Arte Educadora preciso explicar que CARNAVAL é um traço cultural do povo brasileiro e como tal, é produzido pelo e para o povo. Toda interpretação que se dá aos enredos, alegorias e fantasias, tem sim um posicionamento ideológico que passa pelo social, faz críticas a muitos nichos da sociedade, inclusive críticas religiosas.


Porque o Brasil é machista, misógino, homofóbico, intolerante com religiões de matrizes africanas. A Arte como um todo está aí pra fazer denúncia e não só entretenimento.


Eu acho no mínimo inocente da  nossa parte achar que há um DEUS INQUISIDOR que castigaria o ser humano em escala mundial, porque o brasileiro quis brincar o carnaval e trazer a baila uma cultura preta própria que é massacrada e segregada todos os dias por religiões neopentecostais.


A minha crença sobre esse vírus é científica. O ser humano consome indiscriminadamente,   não tem cultura de sustentabilidade, produz muito lixo, escasseia os recursos naturais pelo egoísmo e pela ganância. Quando a natureza se sente saturada de tempos em tempos ela nos mostra que precisa se refazer e consegue sem nossa interferência humana. A natureza nos antecede. E nós a destruímos. Eu acho que o homo sapiens (ser humano) talvez tenha sido a espécie no qual o Criador, ou como queiram chamar, depositou a confiança de sua criação. Pelo que vejo since 1978 nós o decepcionamos miseravelmente. 


Não culpemos o carnaval.

Há excessos de todo tipo nas festas populares. Mas a gente se excede diariamente desde a hora em que levanta até a hora de dormir. A natureza grita por socorro. E nos mostra que sem ela é impossível viver.


Um vírus que se alastra em escala mundial também é fruto da desigualdade imposta pelos governos largamente incompetentes. Alguns podem ficar em casa e evitar a disseminação do vírus, e não o fazem. Outros precisam pôr comida na mesa porque no nosso país a riqueza é mal dividida e boa parcela da população precisa se expor ao precário transporte público pra garantir o pão de cada dia.

Enfim, a Hipocrisia,

Enfim, as desigualdades sob as lentes de aumento.


Um inimigo invisível foi capaz de bloquear nossa prepotência. Nos imobilizar, nos tirar o direito de respirar. Não culpem o Carnaval brasileiro, tampouco a China. Usem seus espelhos flores do campo. Limpem suas janelas lírios da paz

Espero que não se ofendam. Entendam como uma crítica de Arte. A parte da religiosidade.


O Brasil é um país “laico”. Será? 

Pelo menos deveria, como consta na Constituição de 1988. Seria muito bonito se o exercício da laicidade fosse real. Se cada um pudesse cultuar seus deuses e sua fé. Sem o jugo do alheio. Quando fazemos uma avaliação de performance artística com o são as comissões de frente das escolas de samba, precisamos entender que não necessariamente estão ferindo a fé de um ou outro coletivo religioso. Talvez a visibilidade incomode pois está sendo veiculado numa emissora de grande alcance. Isso já acontece nos palcos de teatro diariamente. Chama-se liberdade ou licença poética. 


A Arte é transgressora. É o incômodo mesmo. Para produzir reflexão. Me preocupa o falso moralismo cristão, que se escama vendo cenas roteirizadas, ensaiadas ou o teatro na Passarela do Samba.


Mas que não se levanta contra a queima dos terreiros e casas de culto das religiões de matriz africana, contra quem apedreja quem veste branco. Espanca sua companheira depois de voltar do culto. Violenta e assedia jovens dentro de confessionários. Expulsa seus filhos gays de casa. E os olham como se fossem aberrações.


Temos ideia do quanto jovens e adultos são “demonizados” por exercitarem o direito de amar quem queiram independente de gênero?

Achando que sua afirmação como sujeito de direitos LGBTQIA+ é pecado cristão?  


As religiões hoje professam uma cura que não existe, pois não há patologia em amar gente, agora o ódio sim é doença venenosa. 


INQUISIÇÃO. Aos pobres, pretos, miseráveis, gays, macumbeiros, artistas, pensadores, filósofos políticos, toda a gente que pensa e tantos outros nichos marginalizados da sociedade. Ainda há INQUISIÇÃO.


Também não vejo levante quando as escolas de samba exploram a nudez feminina, tornando-a produto, vejo que erguem-se hordas de “pessoas de bem” aplaudindo o nu artístico. Sambando ao lado de “mulatas do tipo exportação”. 

Ao Carnaval cabem críticas sim e esta é uma delas.

Ah… mas com minha inabalável fé cristã, não se pode mexer e não se deve questionar ou criticar.


A religião matou milhares de mulheres sábias por julgarem-nas feiticeiras, a este crime só se dão algumas páginas em livros de história. Se abrirmos os porões do Cristianismo vamos nos deparar com muitos crimes de ódio, executados por religiosos, aos quais Satã duvidou serem possíveis. Ainda hoje vemos o ódio destilado nas bancadas do congresso: Intolerante, capacitista, misógino, homofóbico. Será que realmente governam para o povo?


Agora a ARTE, ah… a ARTE, que delícia lidar com isso.

Quando a ARTE produz incômodo e faz tremer a hipocrisia brasileira fico feliz de ter escolhido o lado certo da história. O lado crítico, performático, colorido, aquele que bota todo mundo pra pensar. Toda História tem dois lados, em tudo temos a face do BEM e do MAL. O que vimos não é religião. É Carnaval, traço cultural brasileiro, é Arte. É crítica.


Na religião e no mundo, às vezes o BEM vence, outras o MAL. Olhem ao redor: o ódio está chapelando e goleando de sainha a humanidade. Estamos permitindo que o mal vença todo dia, todos nós de qualquer ordem religiosa ou de nenhuma. Temos feito o mínimo pra evitar a catástrofe. E às vezes de forma egoísta pra salvar o nosso que está na reta.  Ainda escolhemos Barrabás, todos os dias. E seguimos morrendo na mão da mentira que a gente cultiva. 


Nesse cabo de guerra, o BEM e o MAL duelam desde que mundo é mundo. Desde que ganhamos o maior presente que não sabemos usar com responsabilidade: livre arbítrio.


Temos criado no mental que é melhor correr pelo fácil, que pelo certo.

Acorda, Alecrim Dourado que nasceu no campo sem ser semeado.


Desculpem o desabafo. E viva a ARTE!






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