De Prosa & Arte | Verso-Prosa-Prece de Guiniver e Lucas Almeida


Coluna 21

Fonte:@marcosnunes.fotos


Verso-Prosa-Prece de Guiniver e Lucas Almeida 

*Meu santuário de vozes / Meus Orixás como aporte / Livros, segredos, patuás / Dandara, Zumbi, trincheiras da morte.

É no vácuo profundo da existência que reside a força motriz de nutrir dias cinzentos. É da benção dos ancestrais forjada no suor do rosto que se cria ferramentas de luta. E do pó da terra, da unção do fogo, do movimento do ar e da fluidez da água que se alquimiza a criação de si. O quanto de nós está expresso no que o outro é capaz de enxergar?  O quanto do outro em contrapartida somos capazes de acolher e agregar? 


*Meu santuário de vozes / Cachoeiras, lavadeiras, / Oxum como dama de ouro e sorte / Lélia González e a interseccionalidade / Espada de Oyá cortando os ventos da morte.

A poesia é sempre um encontro, é sopro no universo sensível. Poetas lhes dão forma, sentido, ajeitam numa roupagem aprazível aos olhos, já que a escrita é desenho e porque sabem que cada verso é sagrado. Toda prosa é um novo caminho, um cruzamento, uma intersecção ou uma encruzilhada. São peças miúdas as palavras: traiçoeiras, sorrateiras, às vezes rimando a aurora da sorte com a sombra da morte.


*Meu santuário de vozes / Rios que correm / Beneditas, Camilas, Zezés / São pedras no caminho da casa grande, / hoje é a vez de Nanã, a senhora da morte. 


A prosa é assim: substantivo feminino, como é o poder gerador que desabrocha nas palavras e no corpo das fêmeas anunciando suas tempestades. É nesse corpo-cápsula, nessa cápsula-verso que brota, que se regenera e onde se molda a vida em poemas completos do Sagrado. É dentro desse Universo que se cria a sorte.


*Meu santuário de vozes/ Pretas, baluartes, malês,/ Nagôs, Jejes e Voduns / Jexá, Keto e Angola / Brasil, alma e espírito mata/ Ogum nos proteja da insanidade da morte. 


Poetas são páginas intensas de palavras e diretrizes, são nações inteiras, são amor e a guerrilha concentrados, são dualidades, a contraparte, e o dilema. Assim como as palavras são amálgama da construção de cada verso solto no abismo da compreensão. Poetas  são  capazes de deter o controle da fina e tênue camada entre a vida e a morte de um verso. Pessoas são poemas. Que neste obscurantismo pelo qual passamos, que sejamos capazes de cuidar das nossas palavras. Pra que não morram os poemas antes da prece.


*Poesia Meu Santuário por Lucas Almeida


Foto/fonte: pixabay.com/



Lucas Almeida, nascido em Recife. Professor de história da rede estadual de São Paulo e poeta. Formado pela Universidade Nove de julho. Desenvolve projetos de cultura afro brasileira e indígena para as escolas. Colaborador da Revista Kasmurro, com textos e poesias.






 







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