Crônica – Olhos nos olhos – Marilia Kubota

  

MOSAICO Coluna 17    Crônica
Olhos nos olhos 

por Marília Kubota

Não olhar nos olhos é sinal de que o interlocutor está mentindo. Pelo menos no Brasil. Já na cultura japonesa, olhar nos olhos é uma afronta. Os japoneses mantêm os olhos baixos, e preferem, espiar, ou espreitar.
Seguindo a tradição de olhar pelas frestas, ou olhares furtivos, usa-se reflexos de vidros das janelas, em metrôs e trens. Assim, podem olhar, até com interesse, indiretamente. Um dos escritores japoneses mais celebrados no mundo, o Prêmio Nobel Yasunari Kawabata, em seu romance O país das neves, descreve a miragem oblíqua de uma garota pelo protagonista através das janelas de trem.
No século X, as mulheres da corte espiavam detrás de biombos para verem reis e nobres conversando, discutindo e escrevendo relatos oficiais. A elas não era permitido participar destes colóquios. Por trás de biombos, mandavam cartas umas às outras, usando uma língua clandestina: a escrita fonética hiragana. Era vedado a elas escrever em kanji, os ideogramas chineses. As cortesãs se apropriaram da escrita facilitada do kanji, criada pelos monges budistas. Usaram esse alfabeto alternativo para se comunicarem.
Na gravura japonesa vê-se a vida pelas frestas: as ilustrações mostram cenas do cotidiano familiar, como os atos sexuais, observados “retirando o telhado das casas”, ou seja, por perspectiva axial. É que ao retirar o telhado, se via o que se passava na intimidade dos lares. Artistas clássicos japoneses só foram conhecer a perspectiva da profundidade de campo ao entrar em contato com os pintores holandeses, no século XVII.
Este modo enviesado de olhar pode ser tortuoso. Ao mesmo tempo, é a maximização do conforto do outro. Tem com objetivo não constranger, deixar o outro imaginar que não é vigiado, embora todos possam ver e ser vistos pelo sistema de frestas.
Devido à herança cultural, tenho grande dificuldade em olhar nos olhos de meu interlocutor. Isto explica a timidez, mas não justifica. Quando soube que há outro grupo de pessoas que têm dificuldade em olhar nos olhos – os autistas – me senti, de certa forma, reconfortada, por não ser a única a pertencer ao grupo dos diferentes. Autistas são pessoas conhecidas por não mentir. O que contradiz o estereótipo de que quem não olha nos olhos tem algo a esconder. Conhecer os extraordinários é ampliar universos.
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(Crônica incluída no livro "Eu também sou brasileira")

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