Coluna | Meu pai, a ditadura e a esquerda - por Chris Herrmann

Crônicas que as lembranças me embrulham de presente - 14


Meu pai, a ditadura e a esquerda
por Chris Herrmann


Tive uma infância pobre e nela tive o dissabor de viver nos tempos da ditadura. Meritocracia é uma farsa que só agrada aos hipócritas e aos que se acostumaram com o “jeitinho” das maracutaias. Ser de esquerda não é “ser comunista”, mas ser a favor de mais justiça social. Ser de esquerda não é ser “terrorista”, mas é lutar pela igualdade de oportunidades, não importando se você é preto, branco, pobre, rico, homem, mulher, homossexual, heterossexual, trans, amarelo, índio. 

Embora eu tenha nascido em um ambiente humilde de uma família numerosa, meu pai lutou muito para que tivéssemos acesso a uma boa educação. Lutou tanto que esqueceu da própria saúde e morreu aos 52 anos, quando eu tinha 19. Lutou para nos tirar de escolas públicas arbitrárias e nos colocar em escolas sem limitações, mesmo que ele se arrebentasse trabalhando também na estiva à noite, carregando sacos pesados nas costas e destruindo sua saúde. Apesar de meu pai ter tido muitos erros por conta da educação machista que recebeu (típica brasileira), ele se esforçou para dar uma boa educação aos seis filhos. Ele era militar, mas não concordava com a ditadura e, principalmente, com a tortura típica dos anos 70.

foto | arquivo pessoal: eu com meu pai
em uma festa junina no RJ

Antes de morrer, ele me chamou um dia para conversar e, mesmo sem perceber, plantou em mim ideias feministas. Ele disse mais ou menos assim: “eu errei muito com a sua mãe por ser machista, e por não enxergar a força das mulheres. Você é inteligente e forte, minha filha. Sei que vai longe. Estude muito e o mais importante: nunca dependa de um homem. Acredite no seu potencial. Se um dia você se casar, que seja com um homem que te respeite de igual pra igual.”

Pois é, pai, dei minhas cabeçadas na vida, mas estudei, trabalhei muito e hoje estou feliz com uma família pequena aqui na Alemanha sem me esquecer das suas palavras. Sem esquecer de quem eu sou e de onde eu vim. Sem esquecer de que amo o Brasil e todas as suas diversidades  naturais, culturais e étnicas. Sem esquecer que um dia você me disse: “filha, nunca tive muito dinheiro e portanto a maior herança que posso lhe deixar é uma boa educação, a de casa e a dos livros com boas escolas.” 

Você e minha mãe conseguiram. Obrigada, meu pai. Obrigada, minha mãe. É por isso que enfatizo em meus textos nas redes sociais a importância a educação como base para um mundo melhor. É por isso que sou a favor da igualdade de oportunidades para todos, sem discriminações. É por isso que sou de esquerda! 



Comentários

PUBLICAÇÕES MAIS VISITADAS DA SEMANA

A terapia da palavra em quatro poemas da jovem escritora Maria Luiza Brasil

Cinco poemas de Eva Potiguar | Uma poética de raízes imersas

Improvisos & Arquivos | árvore/poemas - publicação coletiva

PodPapo 09 - entrevista com a escritora, editora e coordenadora do Focus Brasil NY Nereide Santa Rosa

A beleza no humanismo e na denúncia da poesia de Edir Pina de Barros

Um conto de Marithê Azevedo | "Céu Escuro"

Divina Leitura | As multiplicidades de "Santuário" de Maya Falks

Uma crônica de Guiniver | "Essenciais e Perfumados"

Quatro poemas de Helenice Faria | Uma poética da resistência

Três poemas de Dayane Soares | Uma poética do tempo e da ancestralidade