Mundo felino | da existência enquanto gato - novo livro de André Ricardo Aguiar

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“da existência enquanto gato” - novo livro de André Ricardo Aguiar
por Chris Herrmann

Na segunda edição da minha coluna sobre o mundo felino, apresento o livro da existência enquanto gato (Confraria do Vento, 2020), de André Ricardo Aguiar, um grande amigo escritor, que não somente ama gatos, bem como nos surpreende com muita arte e criatividade mergulhando nesse mundo.



Primeiro, a entrevista inédita que o André me deu o prazer em conceder à revista sobre seu livro:

1- Chris Herrmann: Ricardo, sabemos que você gosta muito de gatos. Além disso, o que te moveu a escrever o livro Da existência enquanto gato’?

André Ricardo Aguiar: Motivações as mais diversas. Uma delas: escrever sobre o gato enquanto intertextualidade, pelos inúmeros textos que já li. Era um modo de me dedicar à paixão felina. A outra coisa é que eu queria um livro monotemático que não fosse monótono (e os bons neste estilo, sei que existem, não estou dizendo que o livro de um tema só é monótono). Por último, queria voltar à poesia. Queria um livro sobre um aspecto da vida: o gato como modo de ser, de agir. Não vejo como um livro que só quem gosta de gato vai querer ler. É um livro lúdico, mas também é uma homenagem a tudo o que é criado, como estimação ou aprendizagem. Por isso que eu digo, brincando que poemas e gatos se equivalem. 

2- CH: Neste livro, os poemas são todos sob o olhar do autor, ou há poemas escritos também da perspectiva de um gato? 

ARA: Há mais de um poema sob a perspectiva felina. O Carta do gato ao possível dono é como uma carta de recomendação: o felino quer isso e aquilo. Cadeado é mais sutil, mas a ótica pode ser tanto de quem cria ou de quem é criado. O livro foi escrito por um dono de gatos que, em tese, tenta decifrar o tal do gato (na perspectiva externa, através de uma teia de relações, e na interna, de quem tem um gato particular em casa). No meu caso, mais de um.

3- CH: Este livro compila poemas teus escritos em diferentes tempos, ou são todos recentes?

ARA: O poema mais antigo é de um livro de 1999. O poema foi pinçado ali. Chama-se O gatoDepois o que abre o livro, Loa para um gato. Então, eu diria que ao longo de muitos anos, pratiquei com o gato este modo poético. Mas boa parte são de 2018 para cá. 

4- CH: Você tem gatos ou já deve ter tido. Fale deles e/ou delas?

ARA: São dois gatos castrados, Yoda e Doris. Convivem bem, embora em alguns momentos um olhe de um jeito mais torto e renda uma briga. Doris por conta de Doris Lessing, pois escreveu um belo livro sobre gatos. E Yoda porque quando filhote era orelhudo e lembrava o personagem de Star Wars. São como o yin e yang. O macho é mais bonachão, quieto, de contemplação. Aliás, mais assustado também. E de ficar olhando o vazio como se fosse a Netflix. Doris é bagunceira, uma felina de grandes saltos, resmungona e quase vegana (adora alface). No entanto, em época de frio, se ajudam. Se aquecem. São gatos de apartamento, acostumados com o ambiente. Rendem bons poemas. Por isso pago em sachê. 

5- CH: Se o famoso gato ‘Garfield’ pudesse ter lido o seu livro, que tipo de mini resenha você imagina que ele faria para incentivar a leitura dos seus amiguinhos felinos (ou não)?

ARA: Da existência enquanto gato é um livro que eu não tenho preguiça de ler – desde que não seja numa segunda-feira. O autor não me parece um exemplo de produtividade, mas nesse livro ele se puxou. Recomendo tanto quanto uma lasanha.




RELEASE Da existência enquanto gato

Poemas são alçapões do ser. Imprevisíveis armadilhas em que se capturam os seres e as coisas. Ou deslocamento de universos, como este, dos gatos.  Com metalinguagem e senso lúdico, e por um movimento em espiral onde autor e leitor são criadoresesta pequena obra abarca o modus vivendi felino, seara onde poetas e escritores deram sua contribuição em peças de alta voltagem: Baudelaire, T. S Eliot, Gullar, Fernando PessoaDorisLessing, entre outros. São universais e particulares, e cabem tão bem no poema que o leitor captura em dois movimentos: gatos que adquirem as características próprias do discurso poético e poemas que saltam e se escondem no mistério do insondávelmundo felino. Os dois podem ser a mesma coisa na clareira da página.

Da existência enquanto gato é um livro singular em sua natureza. São poemas dos mais diversos modos de apanhar os gatos. De personagens inseridos ao longo da história a motores de um universo particulartemos, na fatura estética e no estranhamento literário o resultado de um lirismo filosófico e universal. Atravessa o livro um amor aos felinos e um cuidadoso artesanato com a palavra-gato, “tocaiando o silêncio”, na feliz expressão de Orides Fontela

Bestiário portátil, traindo uma espécie de síntese de humor e amor, Da existência enquanto gato revela ainda a face múltipla que a poesia é capaz de gerir entre os seres e os bichos, criando um vínculo em tempo real, pois o tempo dos gatos (suas quebras de regras, seus domínios do instinto) são matéria também para leitores curiosos que mapeiam, com encanto, tudo o que se move em direção à palavra.

* Link para a compra do livro:
https://www.confrariadovento.com/editora/catalogo/item/278-da-existencia-enquanto-gato.html


André Ricardo Aguiar,  escritor, publicou Alvenaria (1999) Prêmio Novos autores paraibanos na categoria Poesia. Na literatura infantil lançou as obras: O rato que roeu o rei (Rocco), Pequenas Reinações (Escrituras) e Chá de sumiço e outros poemas assombrados (Autêntica). Pela editora Patuá publicou: A idade das chuvas (poemas) e Fábulas portáteis (contos). É membro-fundador do Clube do conto da Paraíba.



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