Resenha do livro O INDIZÍVEL SENTIDO DO AMOR, de Rosângela Vieira Rocha

(Capa do livro O INDIZÍVEL SENTIDO DO AMOR)


UM MERGULHO N'O INDIZÍVEL SENTIDO DO AMOR'

por Nic Cardeal 

Muito já se falou sobre o livro O INDIZÍVEL SENTIDO DO AMOR, da escritora ROSÂNGELA VIEIRA ROCHA, publicado em 2017 pela Editora Patuá. No entanto, penso que nunca será dito o suficiente, nunca será sentido o bastante. Dilacerante, profundo, de fazer intensos rasgos em nossa percepção, para que alcancemos veios muito mais profundos em nossa maneira de ver o mundo, de perceber o outro, de experimentar o amor em todas as suas nuances, de compreender o sentido da efemeridade de tudo isso a que chamamos ‘viver’. 

Creio que não há quem não se sinta atingido por essa narrativa. Estava certa a também escritora e amiga do Mulherio das Letras, Giovana Damaceno, quando certa vez disse que, para os que a conhecem, não há como ler os livros de Rosângela sem ouvir sua própria voz. De fato, durante toda a minha leitura fui acompanhada da voz da autora, em minha mente ou em meus ouvidos. Não sei dizer exatamente onde é que ela se posicionava – ela, a voz, ou ela, a própria autora  – mas é certo, estava o tempo todo comigo, era como se me contasse a sua história de amor (e de dor), ao vivo e em cores – ou mesmo, nos momentos mais tristes, em preto e branco – como se lesse cada linha de seu texto, em voz alta, dentro de mim. 

‘O indizível sentido do amor’ demonstra que, de fato, não se pode dizer o sentido do amor, a não ser vivenciando-o em sua essência, em suas entranhas e em seus estranhos meandros. Após a morte de seu marido, José Antônio Simões Filho, a autora precisou ir em busca de respostas (ou, quem sabe, de mais perguntas?) para muitas questões não esclarecidas, que ficaram à margem de todos os anos vividos junto ao grande amor de sua vida. Enquanto as buscava, Rosângela ia e vinha entre o passado e o presente, retomando a juventude, escancarando dores emocionais profundas, arando a terra à procura de resquícios preciosos de um tempo quase extinto nas memórias de seus (dois?) mundos. O livro é sobre a vida, as alegrias da vida, as ‘torturas’ da vida. O livro é sobre a morte e suas feridas, nunca extintas. Não por acaso, a autora abre a narrativa destacando Marguerite Duras: “Parecia que o amava com um amor eterno e nada de novo podia acontecer a esse amor. Eu me havia esquecido da morte” (2017, p. 11). Como bem esclarece Lima Trindade na apresentação da obra, “Rosângela é da estirpe das escritoras que não oferecem salvação de natureza alguma a seus leitores. Sem fazer alarde, a cada livro conquista um público leitor mais apaixonado e reafirma o seu talento de investigação com mão firme. Em “O indizível sentido do amor”, ela escava a terra devastada e retira a pedra bruta, apresentando-a já inteiramente lapidada” (2017, p. 6).

Sim, mais um livro de Rosângela Vieira Rocha que é fundo. Muito fundo. E vasto. Escancarado na dor. Talvez um dos mais fundos livros que já li. Parece mesmo ser capaz de ir além do fundo, ultrapassando o chão, abrindo sulcos para muito depois do que possa parecer ser, enfim, o fim do sofrimento. Se você já viu um poço, imagine-se dentro dele. Tão profundo como um poço sem fundo. Sem água. Mas transbordante das suas próprias águas de chorar rios até tocar em profundos mares.

“Tenho absoluta certeza de que sou a única também que acaba de atravessar o mar em busca de fatos que ocorreram há mais de quarenta anos” (2017, p. 20). Rosângela precisou ir longe, no espaço e no tempo, para entender. Ou, quem sabe, para não compreender e, então, perceber que há razões incompreensíveis para não dizer o sentido do amor. Rosângela foi em busca: “preciso encontrar uma pessoa para fechar uma ferida, diminuir esse peso que me dobra os joelhos. Retirar esses dedos de ferro que me apertam a nuca, faxinar a minha carne, limar os meus ossos, untar as minhas cartilagens, alvejar a minha alma, alcançar um fiapo de paz” (2017, p. 13). Tudo por um fiapo de paz. Um encontro por um fiapo de paz, necessária costura na tentativa do remendo da alma rasgada de dor. Então ela foi. 

Para além dos mares, a pessoa estava à sua espera em Lisboa. Alípio Cristiano de Freitas, um amigo de seu marido, português, militante político no Brasil no período de 1957 até aproximadamente o ano de 1979. Autor do livro 'Resistir é preciso', publicado no Brasil em 1981. Fundador do Partido Revolucionário dos Trabalhadores - PRT. Assim como seu marido, foi preso e torturado pela ditadura em 1970. “Com toda a atenção de que sou capaz, vou juntando suas sílabas, bebendo suas palavras, tentando fazer delas um colar precioso, uma joia que guardo e tiro do bolso de minuto a minuto, à medida que ponho uma nova conta no fio” (2017, p. 22). Assim descreve a autora as conversas com o português, que narrava desordenada e espaçadamente as lembranças vividas no Brasil sob a ditadura torturante e torturadora, no período de convívio com José Antônio. 

Como em uma colcha de retalhos, Rosângela vai costurando, aqui e ali no tempo, as lembranças do marido sendo levado ao hospital, sua interminável permanência na UTI e a evolução da doença que o levou à morte; e os tempos vividos juntos, logo depois de sua saída da prisão, o seu casamento e os longos anos de convivência, entremeados do silêncio – torturante – diante de lembranças de tristes períodos – de torturas. A todo instante somos apunhalados pelo ‘indizível’. Ele, o sentido que não se pode dizer sobre o amor, apunhalando-nos página a página, como se nos perseguisse, impávido, destemido, persistente, quase capricorniano. “Fiquei perplexa. Era como se eu tivesse entregue um pacote em algum lugar, uma encomenda, uma caixa, um embrulho, e não uma pessoa. Nem sequer tive tempo de retrucar ou fazer outra pergunta. Em poucos instantes a porta se fechou de novo, sem estardalhaço” (2017, p. 41). Assim foi o sentir dessa impressionante mulher, ao acabar de deixar seu amor na UTI do hospital, a esposa que nunca mais o teria de volta em casa. Enquanto as horas, os dias e noites prosseguiam, na longa espera por melhoras, o tempo ocupava Rosângela com lembranças da juventude em comum, do namoro, do casamento, dos anos de universidade, das viagens, dos estudos, de um amor único e completamente indizível... E como retrata maravilhosamente bem esses tempos! Define seu amor de forma tão direta e simples que chega a ser encantadora: “Naquele sábado ele usava calça roxa boca de sino e camisa preta de mangas compridas. Tinha cabelos longos e um estranho e comprido cavanhaque crespo, de cor ruiva, bigode e costeletas enormes. Usava óculos de lentes grossas. Não era bonito mas sabia ser esquisito, do jeito que eu sempre gostei. Meu gosto por gente esquisita é antigo, veio da meninice, nas montanhas de Minas. Não um esquisito simples, diga-se de passagem – mas um esquisito cuja essência da esquisitice mereça ser desvendada” (2017, pp. 55/56).

Entre essas idas e vindas a um passado longínquo e outro tão recente, Rosângela enfim percebe que precisará lidar com o inevitável. Aquele inevitável que todos evitamos a todo e qualquer custo. Até a última gota de esperança. Até o último suspiro do viver. Ela sabe que o inevitável está próximo, batendo descaradamente à sua porta, no apartamento confortável e seguro, enquanto procura compreender que a sua busca “era guiada somente pelo desejo e pela fé, sem a mais leve probabilidade de alcançar a meta. A esperança não vê empecilhos, a esperança é gratuita, improvável, onipotente, e só vê o reluzir de seu próprio verdor” (2017, p. 75). 

Mas, bem sabemos, nenhuma esperança sobrevive ao inevitável fim dos dias, para cada um de nós, cada qual a seu tempo... Eis aí talvez o ‘não mistério da fé’. Sentir na pele, nos ossos, na flor ou no cansaço dos anos, no respirar contínuo e inofensivo, no abrir e fechar diário dos olhos, que nada, absolutamente nada poderá nos impedir de alcançar o inevitável fim dos dias, do tempo, da efemeridade de toda uma vida. Do ‘quase impossível’ adeus que deve ser dito a quem se antecipa na ida. Da solidão que se avizinha de quem sobrevive ao outro e, mesmo assim, deve continuar na vida: “Nunca estive tão sozinha como naqueles dias. Não me sentia à vontade com ninguém para falar sobre a dimensão e a profundidade do meu pavor” (2017, p. 115). 

Sim, esse livro é de vida. É de amor. De morrer. E de sobreviver. Esse livro é da percepção das dimensões do inevitável: “Exaurido, o sobrevivente, impedido de ressuscitar o seu morto, quer a qualquer custo dominar as causas, entender as razões, provavelmente para sentir que ainda lhe resta algum controle da situação, por menor que seja, pois é difícil demais se curvar à própria impotência diante de algo tão grandioso. É desalentador saber que estamos à mercê da morte, que não existe esconderijo seguro, pois sempre haverá o momento em que ela nos alcançará, de uma ou outra maneira. (...). Como era possível que alguém antes vivo e essencial na minha vida tivesse desaparecido assim? Como pode alguém que é deixar de ser? De que maneira se pode mudar a categoria do é para a categoria do foi?” (2017, pp. 157 e 165). 

É um livro sobre o silêncio, aquele que nos atravessa a alma após fecharmos a última folha. Quando se ouve a própria respiração e sequer se sabe o que dizer. Quando se faz inevitável reler o posfácio de Maria Valéria Rezende, e repetir com ela, em voz alta: “o indizível só pode ser adivinhado escutando-se longamente o silêncio” (ROCHA, 2017, p. 195). Então, quando terminei a leitura, debrucei-me sobre o livro fechado, vi a flor sobre o cimento rachado, e compreendi. Há que sobreviver, mesmo em tempos áridos. Por inteiro ou aos pedaços. Porque uma flor pode e nasce até em solo seco, rochoso, provando que ao amor sempre é possível sobreviver, para além do próprio fim do ser amado. Por toda uma vida. Porque perdas não sustentam palavras a esmo. E as palavras, em Rosângela, nunca são a esmo. Elas lembram, a todo tempo, que esse ‘sonho’ é mesmo assim: depois do começo, depois do fim, a gente desperta na outra face da mesma moeda. Moeda de troca entre uma realidade nua e crua, e a outra realidade de que “a vida é sempre ficção, porque dela não sabemos senão fragmentos, mas ficção necessária porque precisamos de sentidos, de uma verdade que vá muito além do que percebem nossos pobres cinco sentidos”, como bem disse Maria Valéria Rezende (2017, p. 196).

(Foto: arquivo pessoal)

ROSÂNGELA VIEIRA ROCHA nasceu em Inhapim/MG, e vive em Brasília desde 1968. Além de escritora, é jornalista, Mestre em Comunicação Social pela ECA/USP, bacharel em Direito e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social da Universidade de Brasília. Recebeu vários prêmios e o de maior destaque foi o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG/1988, com o romance Véspera de lua. Também escreveu Rio das pedras (novela, 2002), Pupilas ovais (contos, 2005), Fome de rosas (romance, 2009), e Nenhum espelho reflete seu rosto (romance,  2019); além de sete  livros infantojuvenis: A festa de Tati (infantil, 2008), Dias de santos e heróis (infantil,  2009), Três contra um (infantil,  2011), Nem tudo foi carnaval (juvenil,  2012), Janaína,  a bailarina (infantil,  2012), O macuco Felício (infantil,  2014), e O vestido da condessa  (infantil,  2014). Atualmente tem colunas nas revistas culturais e literárias Germina e Flor de Dendê. 





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