Resenha do livro de poesia NO OLHO DO PARADOXO, de Priscila Prado


(Capa do livro NO OLHO DO PARADOXO)


PORQUE NO OLHO DO PARADOXO É POSSÍVEL ABRIR ASAS DE VOAR IMENSIDÃO EM NÓS 

por Nic Cardeal

No livro intitulado NO OLHO DO PARADOXO (Curitiba: Insight, 2015), Priscila Prado traz à escrita poética os paradoxos intrínsecos à realidade, trabalhando magistralmente com o binômio 'espaço-tempo', bem como com seus ecos e/ou efeitos sobre a psiquê, o coração, a alma.

Como muito bem dito na primeira orelha, "o olho do paradoxo é este espaço-tempo que habitamos, cada um ocupado em manter-se no centro de um olho que é múltiplo, interseção dos inúmeros furacões que nos acometem e acolhem simultaneamente. O centro deste paradoxo hipercomplexo é um equilíbrio tão perene quanto precário, dinâmico, instável, vivo. Por isso estes poemas provisórios"

O livro, todo costurado por esses 'poemas provisórios', é dividido em três partes (arrisco dizer - quase etapas de vida): (1) 'tudo o que não sei'; (2) 'não só mas também'; e (3) 'no olho do paradoxo'.

Quando poetiza sobre 'tudo o que não [sabe]' (1), Priscila lembra-nos das palavras de Clarice Lispector: "Eu sei de muito pouco. Mas tenho a meu favor tudo o que não sei e - por ser um campo virgem - está livre de preconceitos. Tudo o que não sei é minha parte melhor: é a minha largueza. É com ela que eu compreenderia tudo. Tudo o que não sei é que constitui a minha verdade". Eis aqui a poesia da incansável busca, entre idas e vindas pelas palavras - belas palavras - : "pela janela eu vejo tudo:/ diante da minha janela/ tudo o que em vão procuro! (...)" (2015, p. 9). Entre o olhar, o toque, o cheiro, o gosto, n"a química e os sentidos" é até possível perceber "a temperatura da saudade" (2015, p. 11), porque em Priscila mesmo a saudade pode ser quente ou fria, o medo pode cheirar a ventanias inusitadas, nos espaços de fora ou de dentro há aromas de sentimentos - por isso mesmo que são dos humanos esses versos de fazer vibrar muito mais do que os sentidos! 

A autora tem o dom desse navegar em mares raros da poética espacial/especial, quando nos aponta que "a materialidade é a ponta de iceberg da realidade" (2015, p. 14). E nos põe a pensar que nossa viagem se dá 'de pé à ponta' dessa ínfima 'ponta de iceberg', gota d'água, átimo de segundo, de toda uma inteira e tão vasta eternidade que se estende infinitamente realidade afora/adentro...

A autora 'inda aproveita o mergulho nesse 'tudo que não [sabe]', para trazer à tona diversos aforismos (textos curtos e sucintos que enunciam uma regra, um pensamento) tautológicos (no uso de palavras diferentes  para expressar uma mesma ideia, em redundância) - e poéticos (proféticos) -, como por exemplo: 

"quando você sabe/ não duvida" (2015, p. 15);

"a mudança de perspectiva/ adultera a imagem" (2015, p. 18);

"quando não tem mais volta/ o caminho é de ida" (2015, p. 21).

Também trabalha incrivelmente com os 'aforismos paradoxais', quando escreve que "as semelhanças/ confundem/ as diferenças/ identificam" (2915, p. 24); ou, quando  diz que "o que conheces/ te impede/ de conhecer" e "o que sabes/ te impede/ de aprender" (2015, p. 26). Essa é a poética muito profética de Priscila, pois ela sabe que sensações, pensamentos, sentimentos, podem muito bem ser lembrados/esquecidos, porque quando "feitas as pazes com as memórias/ com a saudade e a mágoa/ já se pode lembrar/ e esquecer" (2015, p. 34).

Ao mergulhar em 'não só mas também' (2), a poeta encontra simetrias nos paradoxos existenciais, lembrando o filósofo pré-socrático, pai da dialética, Heráclito: "As coisas paradoxais são perfeitamente coerentes em sua simetria: na unidade não há paradoxo". Por isso o mergulho na realidade do urbano, do barulho, em busca do silêncio, do muro, do 'depois do muro' - do lado de lá - do mundo, do pedinte, da esmola, da mola, da esquina, do sinal, da favela, do cortiço, da ruína, da riqueza, da moeda - cara ou coroa -, quem vai pagar o preço da nossa indiferença? A resposta grita em Priscila: "(...) mensageiros do vento avisam:/ o tempo escorre pra dentro/ até a alma não querer mais nada:/ apagada" (2015, p. 55). Porque a poesia aqui é até mesmo dantesca: "(...) o inferno/ é não compreender o idioma/ dos outros/ o inferno/ é não compreender o idioma/ da alma (...)" (2015, p. 60).

Por fim, a poeta chega no ponto máximo do livro, 'no olho do paradoxo' (3), verdadeiro furacão cujo olho - seu centro - representa o próprio paradoxo do furacão  - a calmaria bem no centro da tempestade. Aqui a poeta consegue trazer a palavra exata na hora propícia e na medida certa, como se lavrasse (arasse) a tempestade à procura do silencioso instante de plenitude: "um silêncio mais profundo do que existe./ o eco do silêncio no oco da matéria:/ onde a sua fonte? (...)" (2015, p. 73). Como se buscasse o destino, assim tão longe - que "é cada vez mais perto" (2015, p. 77). 

Depois de tudo, enfim, é preciso falar sobre o fim. E a palavra desliza em direção ao vazio dos nossos propósitos de existir, fazendo-nos suaves plumas a planar no vento, porque o fim pousa pleno de asas silenciosas em seu gesto equilibrista: "na medida em que as coisas/ estão contidas em seu oposto/ a velocidade se aproxima/ do repouso" (in: a morte (II), 2015, p. 84). Porque, de fato, é fato: "(...) há paz no olho do paradoxo" (2015, p. 105)!

Penso ser fundamental para quem ama poesia - e ama essa constante busca de maior entendimento da vida - a leitura de 'No olho do paradoxo'! 

Em tempo: ainda que seja mesmo muito paradoxal a própria vida, é bem lembrado por Priscila que, mesmo no furacão, há um olho (centro) que tudo vê, que tudo faz serenar, que faz abrir asas de voar imensidão em nós!

(Foto: arquivo pessoal)

PRISCILA PRADO é escritora e advogada. Finalista do Prêmio Jabuti 2013 com o livro interativo de poesia ilustrada PREGUIÇA, CORAGEM E OUTROS BICHOS (edição própria, 2012). 

Autora também de A QUALQUER MOMENTO AGORA (poemas, Edição da autora: Curitiba,  2005); ALAS, PÉTALAS & LABAREDAS (poemas, editora Bolsa Nacional do Livro: Curitiba, 2016) e ENCONTROS DESCONCERTANTES (poemas e fotos, Editora Insight: Curitiba, 2018). Atuante em coletivos de incentivo e divulgação de literatura infanto-juvenil e de autoria de mulheres. www.priscilaprado.com


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