Improvisos & Arquivos | Depois que passar essa pandemia - Publicação Coletiva

|  Improvisos & Arquivos - 07  |


Depois que passar essa pandemia
por Chris Herrmann

Esta é a sétima edição do nosso projeto de improvisos que se transformou em coluna. Improvisos & Arquivos terá sempre alguma variação de abordagem, mas manterá a ideia de improvisação, seja minha por sugestão de amigos ou vice e versa. A publicação de hoje contém miniprosas  de 28 autores (mulheres e homens) dos amigos que aceitaram o desafio de prosear sobre o tema acima proposto. 

Agora, vamos aos resultados, lembrando que algumas das prosas trazidas podem não ser inéditas. Como o nome da coluna já diz sobre a fonte - improvisos & arquivos...

Arte: Luciane Valença

p r o s a s


Quando acabar essa pandemia olharemos para a verdade. Ela não será bonita como o dia de sol em que sairemos e nos abraçaremos sem medo. Não, a verdade será sempre o que não queremos ver e estará escondida nos amigos que não mais veremos. Quando acabar essa pandemia e nós nos encontrarmos espero ver apenas ver verdade no ser humano: distinguir quem aprendeu e quem se perdeu, quem sobreviveu a si mesmo, quem saiu da crisálida do egoísmo. Para esses o dia final da pandemia será de sol, será de sabedoria e acima de tudo de humanidade. Esses, espero, são  meus verdadeiros amigos. 
Quando acabar essa pandemia continuaremos de onde paramos: a esperança de um mundo justo e digno. Continuaremos e continuaremos de mãos dadas até fazer do sonho uma nova realidade. 

Carmem Teresa Elias


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Blues

Coloco o pé fora da cama e sinto frio. Recolho. O quentinho da coberta me remete ao tempo em que eu poderia ficar deitada até quando o corpo me implorasse para  se pôr em pé. Agora o contrário. O corpo pede para ficar e eu o obrigo a se levantar, enfrentar o frio e a rua.  Detesto a rua. Cheia de gente. A maioria ainda usa máscaras, não mais as coloridas, com figuras de gatinhos ou de cores vibrantes. Não. Agora somente as brancas encobrem a desesperança. Filas enormes serpenteiam quarteirões. Pessoas de todas as idades voltam a se aglomerar nas portas das igrejas, das ONGs assistenciais, nas praças e pátios em busca de uma cesta básica, de um litro de leite ou de um improvável emprego. Uma mulher desenha em uma prancheta. Um homem, na gaita, toca blues. A arte vive.

Henriette Effenberger


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Quando passar essa pandemia, o pobre continuará padecendo,  consumismo se reaquecendo e as mentiras políticas permanecerão.
Quem sonha com grandes mudanças na humanidade, descobrirá que na verdade, continuaremos sem rumo e sem noção.

Anita Costa Prado


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Quando passar essa pandemia, dançarei no Jardim como se fosse criança. Ali correrei atrás  das borboletas, abraçarei meus amigos e com eles contarei estrelas...
Quando passar a pandemia, vestirei uma nova roupa de poesia. Ora esperançosa, ora triste prosa, me derramarei em versos... até que o mundo volte à normalidade com a qual se acostumam os olhos que não veem a alma das coisas.

Palmira Heine


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Efeitos da pandemia

Quando acabar essa pandemia também acaba meu prazo, e agora? Terminar o doutorado. 
Tantas demandas da pandemia, sensação de estagnação. E a tese? 
Vixe! Mas, calma, tá, tudo bem! Já superamos o momento de caos, já aprendemos a dar aula virtual, já nos acostumamos até com a dor nas costas, com o passeio de máscara no supermercado e com as horas que não parecem, mas passam. Agora precisamos nos cuidar, amar e, aos poucos, todos os dias retomar. Retornar com os planos, com os casamentos adiados, com os projetos interrompidos e com os abraços, pouco a pouco, mais apertados. 
Quando essa pandemia acabar não sei bem onde estarei, por isso não sei onde vou te encontrar, mas tudo indica que continuarei me cuidando, apoiando causas sociais e navegando as mídias sociais. 
Então, já que aqui estamos, aqui continuamos, nos encontramos nos abraços virtuais.

Viviane Klen-Alves


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Quando passar essa pandemia terei de reaprender passos e caminhos. Minhas mãos terão esquecido o toque de outras mãos. Meu peito não saberá respirar até se encher profundamente, e meu sorriso, de tanto se esconder, já não se sentirá à vontade no meu rosto. Quando passar essa pandemia, já não sei se serei eu mesma, ou apenas a mulher aprisionada nas telas de conversas tão remotas, uma impostora coberta de versos para disfarçar seu nada. 
Quando passar essa pandemia, preferiria voltar ao passado perdido que trilhar um futuro roubado a tantas pessoas. 

Lucia Bettencourt


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Alguma poesia

Quando passar essa pandemia, apertarei menos meus passos. Passarei a celebrar ainda mais as coisas pequenas da vida, menos as mentes. Respirarei mais fundo e chorarei um misto de alívio e tristeza. Cumprimentarei desconhecidos, abraçarei árvores e amigos. Mas não porque que terei esquecido todas as dores, mortes, injustiças, solidões e máscaras. Não há como esquecer a dor imposta pela incompetência dos homens “de bem” (os que já usavam máscaras antes da pandemia). Se resisto a tudo isso até agora, é porque apesar de tudo que me corrói e aos meus, agarro-me sempre e sempre mais, em alguma poesia. 

Chris Herrmann


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Quando passar a pandemia, nunca mais precisarei comprar roupas. Já ganhei tantas máscaras lindas, que me bastarão para meu (curto) resto de corpo!

Maria Valéria Rezende


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Da janela de casa, vejo que as pessoas se abraçam. Vejo um mundo que é novo porque traz o velho de volta. Desejo estar com elas em papo na esquina, em rodas de conversa na beira da porta de casa, até mesmo nas cachoeiras cantando e lavando as roupas de ganho. Desejo tudo isso que me foi roubado. Da janela de casa vejo que as pessoas se abraçam, menos eu, que me acostumei à solidão. Não tenho quem me abrace nem a quem abraçar. E tudo que já foi normal, para mim é apenas um sonho. Da janela de minha casa o mundo é novo. Eu continuo em pandemia. 

Carollini Assis


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Quando passar essa pandemia, nao terá passado a tristeza pelos que se foram. Quando passar essa pandemia, nao terá passado a indignação por um país desgovernado. Quando passar essa pandemia terei revisto meu conceito de prioridade - aliás já é outro. Quando passar essa pandemia verei que mudei um pouco, sem deixar de ser eu mesma. No mais, vou querer estar  e abracar os amigos.

Valeska Brinkmann


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Leitores

Depois da pandemia, descobriu que viveria sem muitas coisas, menos sem os livros. E nada melhor do que escolhê-los em uma livraria, podendo folhear, cheirar. Foi o que fez na primeira saída depois da quarentena. A moça estava lá, olhando e cheirando livros. Olharam-se e riram porque tinham nas mãos obras da mesma autora. Conversaram de perto e ele reparou que ela tinha a boca linda. Ela também reparou na boca dele. Foram tomar café, descobriram outras afinidades e se beijaram, um longo beijo de língua. 
Saíram da livraria carregando livros e esperanças em um mundo melhor, com menos consumismo, mais respeito ao meio ambiente e justiça social, mas também com muita pressa:
— Na minha casa ou na sua? — ele perguntou.
— Já?
— Vai que pinta outra pandemia.

Sonia Nabarrete


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Quando passar a pandemia, primeiro quero ver o mar mais próximo na costa brasileira e molhar meus pés na língua de espuma que encharca a areia cinza, que é para guardar de recordação. Depois, sigo para o aeroporto rumo à Andaluzia, para terminar de fazer o que comecei há mais de três décadas, porque tudo, enfim, precisa terminar um dia.

Virginia Finzetto 


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Quando passar essa pandemia, seja noite seja dia, eu sorrirei bem mais. Não que me falte sorrisos, mas a graça é pouca quando meu povo, além de luta, vive em luto. Assim que eu puder novamente respirar o outro, seus sonhos e até reclamações serão como chuva aguardada. Não sei se meus galhos terão crescido tanto, mas estão prontos para abarcar todos a quem amo. A quarentena tem me ensinado todos os dias a olhar para o lado e ver os rastros vivos de quem, ao se cuidar, mostra que não esqueceu de mim. Então, quando passar a pandemia, por mais clichê que pareça, nossos corações dirão mais: eu te amo!


Joaquim Antonio


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Sobreviventes

Ano 2025. Morreram cinco bilhões de pessoas. Os mais ricos não foram atingidos pela pandemia e já reorganizaram seus exércitos de armas, informações e leis. A história se repete.

Joel Nunes


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A Pandemia acabou!!! Vivaaaa! Agora todos voltaram às suas vidas. E eu.... posso continuar usando máscara? Não consigo me livrar dela!!!!


Maria Cristina Arantes


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Quando a pandemia passar, terei largado o exagero entre os dedos, no esfrega-esfrega de tantos desesperos?
Se a pandemia passar, novos horizontes serão permitidos para além dos meus curtos passos já tão costumeiros? Entre mim e o mundo, qual a distância mais próxima da esperança?

Nic Cardeal


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Quando essa pandemia passar e esse vírus não mais nos pegar, vou pegar muitas outras coisas:  Chuva sem guarda-chuva, as mãos dos meus amigos, parentes queridos, pegar a estrada sem pensar em nada nem ter data para voltar, pegar Sol e sentir a areia da praia, correr pela cidade até que as forças se esvaiam de tanto me fartar de liberdade!

Nilza Freire


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Depois da escuridão 

Desta hora tão escura, deste breu da meia-noite, você assiste em solitude o lume da Via Láctea. Sabemos que a lua cumprirá seu percurso, os cometas seguirão sua viagem e as estrelas cadentes farão nossos olhos brilharem com um tanto mais de luz. Mas sabemos principalmente que esta escuridão, este isolamento, este distanciamento também passarão. E nesse dia o jasmim continuará perfumando o vento, assim como o crepúsculo continuará pintando um quadro colorido no espelho do lago, da mesma forma que o canto da passarada seguirá sua sinfonia no bosque. Mas nesse dia, você e eu, estaremos de mãos dadas.

Tchello d’Barros


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Quando a quarentena acabar, nos reuniremos no quintal colorido de flores. Unidos no amor, juntos comeremos queque e queijo, reviveremos os beijos e abraços e com eles construiremos um castelo. Seremos Querubins em quaresma, sem querela, sem quezília, sem máscaras, sem gel nem gelo. Apenas beijos e abraços em quatrilião e em queimor. Na quermesse da esquina a quinta-essência, na quelha um poeta come um quivi, enquanto uma mulher rega as flores no túmulo do covid... Acenando aos que vivem juntos e felizes.

Sapuya Pinoca Wendalika


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Bella        

Imaginariamente, sente o perfume de cravos vindo do varal. Brisa leve, faceira de contente, penteia desarrumadamente o cabelo dela. As franjas das cortinas dançam mornamente.
Tão sonhadora, Bella nem sabe que a pandemia chegou e já se foi há um ano e dois dias. É assim "o dia  seguinte"  de Bella, mas, não sejam excludentes com ela. Não é  alienação. É que ela é como aquele moço que extraiu toneladas de batatas das areias do deserto...

Ana Cleusa Bardini


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O café

Minhas mãos pendiam para os lados, meio sem direção. Disfarcei a respiração funda com o antebraço. Sem máscara, a vida invadia o ar, ainda que com odor de morte. Eles morreram. Pensei neles. Em todos eles. Ouvi Schubert que vazava pela janela da casa do lado. Nem sabia que o vizinho tocava piano. Subia a rua devagar. Pardais e sabiás rebentavam pelas árvores floridas daquela primavera. Aos sessenta anos decidi fazer vestibular para Belas Artes.
A mãe da Marta morreu. Não tomamos o café que lhe prometi. Nunca me sobrava tempo. Fiz bolo de chocolate e fui visitar Marta. Choramos juntas. O arco-íris reacendeu o céu do Sul. Minha avó jurava que tinha um pote de ouro no fim do arco-íris.

Ivy Menon


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Um tempo possível 

O silencio reverbera na paredes. Há um repetido ir e vir dentro da casa, deito no sofá. Enquanto o corpo descansa, ando pelas esquinas da alma. Caminho sem pressa e trilho as estradas da memória, sigo os passos de um tempo em que era possível andar pelas ruas sem pressa e sem medo, sentir o calor do sol na pele e o perfume que emana das flores. Passeio por lá e penso no tempo que virá.

Ines Lempek


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Assim como Clarice Lispector falou de seu tempo na Suíça, em carta a sua irmã Tania Kaufmann, “esse tempo todo foi como o desenvolvimento de uma só ideia: a volta”. O anseio de retorno à normalidade, a um mundo pós-pandêmico, é verdadeiro e, ao mesmo tempo, só isso: uma ideia. Impossível. O que ficará são os vestígios: os casamentos desfeitos, os entes que se foram, as famílias novas, velhas, os sorrisos que, escondidos, se tornarão menos necessários. Ficarão as máscaras que se entrenharam na terra por não serem descartadas corretamente. Sobrarão desejos de compras, idas ao shopping, ao cinema, a busca por alguma rotina. E esse vazio, que nos assombra, e, faz acordar às 3 da manhã com o coração naquela curva de Ímola  de 1994. Acredito na ideia da espera. Na esperança, hoje não. 

Cris Lira


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Brotarei inteira até florir em cachos. Phalaenopsis gigantea e Strongylodon macrobotrys pendendo realizações. Prazer renovado. O desnecessário partirá junto das folhas decíduas. Decomporão em nutrientes. Base do substrato. Como semente alada, seguirei por espaços nunca dantes percorridos. Pégaso voando na velocidade da luz. Encontrarei com tons maiores que quero por perto. Frequências elevadas que fazem sentido no Planeta Terra e Água, biodiverso, no equilíbrio das diferenças, inconstâncias e incertezas. 

Joema Carvalho


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Quando a pandemia passar, desvestida das folhas de outono, desenharei novos arcos-íris para além das janelas fora de esquadro e dos meus olhos desguarnecidos de vastidão.

Maria Marta Nardi


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Quando se for a  pandemia, seremos relentos mais cedos de resistir. Cedos no plural mesmo de ser. Estaremos bem mais atentos de sol, caso não sejam  extintos os vagalumes no inconsciente coletivo das esperas. Seremos relentos retroativos de alguma outra beleza respiratória... no provisório das urgências de onde estivemos desde as artérias do meteoro em flor. Quando pudermos durar.

Patrícia Claudine Hoffmann


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Quando a pandemia passar

E chegará o dia em que o pássaro negro que flanou no céu  deixando rastros de pavor e morte, partirá. Fluirá em cada um de nós, o rio tranquilo e límpido do toque e do afeto, a amenizar saudade e dor. Uma desejada primavera trará consigo cores que encantam e uma revoada de pássaros espalhará sobre o mundo, amores e novidades.
Que brote sobretudo, a semente do amor e em nosso jardim interior seja novamente primavera.

Helena da Rosa


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Nesse distanciamento, olhos nos olhos, todos se comunicam verdadeiramente, e saberemos quem bem-nos-quer.
Entenderemos as visitas mais frequentes dos pássaros em nossos jardins, o azul celestial, o mar límpido, o sentido de rotação da Terra e refletiremos sobre o despontar do sol e do luar.

Denise Moraes



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Comentários

  1. Um belo trabalho. Uma tomada de consciência sobre este momento grave. Textos ora mais otimistas, ora realistas sobre as possibilidades pós-pandemia. Só resta uma certeza, como diria Milton Nascimento: nada será como antes.

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    1. Feliz por ler esse seu comentário lúcido e belo, Ricardo. Obrigada pela leitura e impressões. Um abraço.

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