Conto e poesia- Artes integradas de Dairan Lima

Um Conto e um Videopoema

Monika Luniak


Ao Som de Gita

( por Dairan Lima )

Resolvi terminar o namoro, porque você, ao ouvir o ronco do jipe do meu pai, pulou em cima da bicicleta e sumiu na estrada poeirenta e eu fiquei na maior frustração. Depois arrumei outro, o Zé Cristino, que era lindo de morrer com aquele cabelão comprido e olhos gateados. Foi até a fazenda do meu pai me pedir em namoro. Eu tinha tudo para esquecer a desfeita que você me fizera, mas não conseguia esquecer as primeiras sensações de ter o coração na boca e as mãos suando, geladas sempre que o via. Você arrumou a Irene para namorar, eu ficava roxa de ciúmes. Nas festas de Santo Antônio, no pátio da igreja matriz, o que rolava era Gita, que pirava a cabeça da moçada da época do paz e amor. Nunca esqueço, você fugia da sua namorada e eu do meu. Dançávamos colados nas festinhas, ao som do Maluco Beleza, eu sentindo seu corpo tenro no meu, sensação indescritível.
Um dia, marcamos um cinema, às escondidas. A gente mal se falava, apenas seu dedinho roçava o meu e era como se corresse em nós uma espécie de circuito elétrico. O filme era Sissi, a Imperatriz, que ficou para sempre marcado em meu inconsciente. Mas grande foi o susto ao nos depararmos com o Zé Cristino na saída, na porta do cinema, e que já havia descoberto tudo. Fiz que não o havia visto, ele foi atrás, pegou o meu braço, eu estava gelada. Disse:
- Você é descarada mesmo, hein?! Me traindo com um ser tão desprezível e eu perdendo meu tempo, gostando tanto de você!
Baixei os olhos, envergonhada e quando os levantei foi só para confirmar minhas suspeitas: Covarde! Você havia evaporado de novo. Resolvi terminar o namoro que não havia. Mudei de rota, fiquei sem nenhum dos dois. Mas sempre estávamos a nos espionar, a dar um jeito de nos encontrar por acaso nas feiras, no mercado. Esbarrar um no outro, em filas na escola, roçar um braço, sem dizer palavra. Um dia, maldito dia! Veio o acidente de carro, o coma, a perda da memória e o chip implantado no pescoço para reanimar o cérebro. E, finalmente, o choque: Você não mais se lembrava de mim! Eu era uma desconhecida. Quando saiu do hospital, era outro garoto, mais gordo, indiferente nem sequer me via. Conheci pela primeira vez o sofrimento, a frustração e finalmente, o afastamento total. Gita não mais tocava seu coração! Eu ficava a passear pela praça, só, tentando me acostumar com o inusitado da situação com que eu teria que conviver. Você foi ficando cada vez mais alheio, perdido num mundo desconhecido e novo, indiferente, aparvalhado, sentado na porta de casa, de uma cidadezinha quente. Eu tentava trazer você de volta com sucessivas visitas e conversas que não faziam mais sentido, não rendiam mais nenhuma sensação. Você ficou perdido num mundo, do qual eu nunca mais faria parte.

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Vídeo feito pela poeta Cássia Fernandes - Poema de Dairan Lima "Para onde vai?"




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Dairan Lima nasceu em Dueré, Tocantins e vive em Goiânia-GO. Poeta desde a mais tenra idade, ama a arte e toda a poesia que advém dela. Formada em Letras pela Universidade Federal de Goiás, é professora aposentada e trabalhou muito como modelo vivo, inclusive para Carlos Sena Passos. Participou de várias Antologias e em 2016, lançou o livro "vermelho" pela Nega Lilu Editora.

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