Quatro Vezes Amor - quatro poetas- quatro poemas

Aquarela de Luciane Valença


Antes que termine o dia...

Chris Herrmann, Kátia Borges, Lia Sena, Mara Magaña

***

O amor aparece nos momentos mais distraídos.
Uma porta se abre.
Os pesos se vão. 
As levezas entram por ele.

(Chris Herrmann)

***
certeiro

o amor é bicho desembestado
mesmo quando sangra e manca
não perde o passo
não erra o galope
o amor não deita na rede
pega avião a jato.
não mede esforços
não vê empecilho
o amor não é de papo
não é de prosa
é de poesia
o amor é de fato
a cada dia, o que importa
o amor não fica à beira da porta
não faz arrodeio, não mede distância
o amor adentra e faz bem feito
cresce no peito e pulsa na veia
é de parelha: corpo e sensação
o amor é mais que pão
é mesa farta, banquete.
se esparrama pela casa inteira
brinca no tapete da sala
acende a lareira
molha as plantas no quintal
o amor nunca é meia boca
é boca cheia de arrebatamento
é o melhor intento e a maior satisfação
é explosão e quietude
leito e vida mundo afora
o amor não se escora
procura, batalha, decide
- o amor acha jeito-

(Lia Sena)
***
Pequena flor

Meu apartamento, no 12º andar,
fica tão perto da varanda
do vizinho do outro prédio
que, se esticar o braço com jeito,
conseguirei regar suas plantas.

Escrevo sobre mim, essa lonjura,
e sobre você, pequena flor,
na solidão do sábado.

A vida é esse verde entre nós.

Talvez biólogos nos expliquem
a fluidez do amor, a essa altura.
Serei melhor se lançar água
e, dessa distância que penso segura,
salvar uma begônia.

 (Kátia Borges)

***
das histórias de amor
ainda é imprescindível
uma história de amor
ainda é bonito
saber que duas pessoas
se amam
se beijam
um homem
uma mulher
como no retrato
sisudo
dos meus bisavós
na parede da sala
da minha infância
ainda é confortante
ver dois garotos
as mãos se tocando
em plena avenida
e os olhos
no encontro
só possível na paixão

ainda é fantástico
conhecer uma história
de amor
mesmo que seja
platônico
ela se entregando
em sonhos
ao príncipe cabeludo
daqueles dias
que sequer imaginava
das noites insones
do nome repetido mil vezes
no caderno
da música que os unia
e que ele nem
gostava
uma história de amor
ainda comove
ainda nos põe
lágrimas nos olhos
assistir ao filme
romântico piegas
nas tardes
junto à mãe
no sofá imitação de couro
inteiramente azul
a teve em pebê
esperando o soldado
que não vai voltar
da guerra
dolorido suplício
de uma saudade
as histórias de amor
ainda sobrevivem
nas garotas
que se beijam
afogueadamente
nas esquinas
sem dramas
sem medos
sem disfarces
mesmo que
o lobo as ataque
furiosamente
de pura inveja
ainda assim
é transcendental
o amor
ainda é lindo o amor
quando acomete
o menino agora menina
a menina agora menino
que ama o menino
que ama a menina
que ama simplesmente
e põe em muitos
um nó na cabeça
porque não pode
entender o amor
não pode entender
esse amor
que vira a vida
que vira as certezas
de ponta cabeça
ainda é insuperável
o amor
quando acelera
o coração
queima
a pele
incendeia a boca
solta labaredas
entre as pernas
e se desmancha
inteiro em gentilezas
comidinhas depois
do amor
como eternizou
o poeta
que amava o amor
ainda é importante o amor
e suas matizes de mil tons
pretos amarelos
brancos vermelhos
ainda é imensurável o amor
romeu julieta
manuelita bolívar
bishop lota
abelardo heloísa
david giovanni
ao som de dio come ti amo
love is a many splendored thing
volver a los diecisiete
eu sei que vou te amar
tocando sem parar
na rádio da memória
ainda é inebriante
um poema de amor
drummond e suas cem razões
o casamento de adélia
o laço de fita de castro alves
eu te amo com chico e tom
casablanca de ana
espanca com seu fanatismo
a fidelidade inteira
num soneto de vinícius
ou um bilhete de mário
a coisa de minutos de leminsky
a canção desesperada de neruda
o amor de maiakóvski
no cenário de cecília
ou no presságio
de bernardo soares pessoa
no tenta-me de novo de hilst
e no fogo camoniano
que arde sem se ver
ainda é preciso
uma história de amor
(Mara Magaña)

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