Uma colher de chá pra ele - Weslley Almeida



| uma colher de chá pra ele - 05 |


Poesia para um tempo que dói



Gustave Caillebotte

A PERMEABILIDADE DAS HORAS

A castidade dos dias
a permeabilidade das horas
meus olhos sangrando
de horizonte o arrebol
a máscara
o álcool
o desapego das coisas fúteis
carros cheios de formol
e valas com mais de sete palmos
feitas a braços de escavadeiras
arrancando terra
corpos ao chão
sem velas, velórios
só valetas
e uma dor que tem comunhão
com o sopro de nossa finitude
da magnitude
dos nossos corpos vãos.

ARQUITETURA DAS SOMBRAS

Ficar em casa
acostumar-se com a arquitetura das sombras
as paredes brancas
sofá, cama
geladeira e fogão
com o hábito da mão
a preguiça dos olhos
toda mecânica e automação
dos nossos corpos biônicos
com hastes de óculos
lentes de contato
pontes de safena
e celular controle remoto
como epiderme músculo ossos
links lives de extensão.

Lida Matviyenko


FAINA

Cunhar moedas
fazer barganha
comprar o pão de todo dia

Dar duro à prole
comer da gana
à tarde à noite
vencer o dia

Fazer da fé
a força a faina
a faca a foice
feição farinha


Candido Prtinari


FLORESTA DE SIGNOS

Ficar no texto
Paradas as horas entre palavras
Entremeios
Penteando os versos, as frases
Como fios de cabelos
À procura de piolhos e lêndeas
Ou de um novo penteado
Que signifique com sua estética
A capilaridade das palavras
A personalidade das letras
A comunhão dos vocábulos
Em horizonte de versos
Parágrafos
E a minha íris apalpando
Tudo
Aquilo
Como floresta de significados.

Duncan Grent


BOUGENVILLE

Sobre minha casa
tem um pé
de Bougenville.
Sob meus pés
pétalas cadentes
estrelas como símile.
Céu: vinho de chão.
Galhos: dedos
braços,
mãos.

Imagem Pinterest






Weslley Almeida é de Feira de Santana. Graduado em Letras e mestre em Literatura pela UEFS, é poeta e compositor.
Foi ganhador do Prêmio Sosígines Costas de Poesia - 2016 pela Academia de Letras de Ilhéus com o livro "Memórias Fósseis".
É revisor e colaborador do Jornal Fuxico - NIT/UEFS.
Escreve no blog Lê-tranças



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