Abre o olho – Marília Kubota


MOSAICO Coluna 14   Conto

Abre o olho 
por Marília Kubota


Sonhei que eu caminhava por uma trilha, quando encontrei uma placa em que estava escrito: Abre o olho. Meus olhos estavam bem abertos, mas logo que vi a placa, pisquei. Saiu um bocado de pus. Eu não sabia de onde vinha o pus. Talvez fosse conjuntivite ? Tinha ouvido falar que havia uma epidemia. Fui caminhando pela trilha e encontrei outra placa: Abre o olho. Pisquei e mais uma camada de pus aflorou. Conforme seguia a trilha, fui encontrando placas com os mesmos dizeres. Eu piscava e saía pus. Não percebi imediatamente, o pus saía e a remela se depositava em meus olhos. Na quinta ou sexta placa é que percebi o desconforto de ter um grude . Comecei a esfregar, o grude não saía. Eu não conseguia parar de seguir as placas. Meus pés se moviam sozinhos, e embora eu sentisse grande desconforto, as perseguia. Assim, depois da décima, meus olhos estavam tomados pelo pus. Fecharam-se. Não conseguia abrir. Esfreguei com força. O pus não saiu. Meus pés continuaram a se mover sozinhos. Fiquei com medo de cair. Já não enxergava nada. Mas não caí. Como já não enxergava as placas, agora caminhava às apalpadelas. Pude reconhecer as placas escrito Abre o olho. Em vez de olhar, tocava nelas, sentindo o toque áspero da madeira. Quando estava apenas olhando, não percebi que as placas eram feitas de madeira. E que os escritos era inscritos talhados nelas. Conforme eu tocava na madeira, um pouco de pus saía de meus olhos. Assim, devagar os fui abrindo. Como agora eu havia descoberto o truque, não olhava mais para as placas. Ficava com os olhos fechados e as tocava. Depois de tocar algumas, percebi que os olhos estavam limpos. Mas eu não queria abrir e ver as placas. Meus pés moviam-se sozinhos na direção da trilha. Descobri que havia aprendido a caminhar de olhos fechados sem cair, nem me perder. Depois de um tempo, em vez de tocar em uma placa de madeira, percebi que segurava uma mão. A mão se enfiou em meus dedos e disse: aqui é seguro. Não tenha medo. Você pode abrir os olhos. Eu ainda tinha medo, mas a mão segurava meus dedos com força. Assim, confiante, abri os olhos. A dona da mão tinha um rosto igual ao meu. Ela falou: Que bom que você conseguiu voltar. Escutei na tevê que hoje os caçadores estavam inquietos e atiravam sem parar.



Comentários

Postar um comentário

PUBLICAÇÕES MAIS VISITADAS DA SEMANA

A terapia da palavra em quatro poemas da jovem escritora Maria Luiza Brasil

Cinco poemas de Eva Potiguar | Uma poética de raízes imersas

PodPapo 09 - entrevista com a escritora, editora e coordenadora do Focus Brasil NY Nereide Santa Rosa

A beleza no humanismo e na denúncia da poesia de Edir Pina de Barros

Um conto de Marithê Azevedo | "Céu Escuro"

Improvisos & Arquivos | árvore/poemas - publicação coletiva

Divina Leitura | As multiplicidades de "Santuário" de Maya Falks

Quatro poemas de Helenice Faria | Uma poética da resistência

Três poemas de Dayane Soares | Uma poética do tempo e da ancestralidade

Um miniconto de Silviane Ramos | "De que cor ficou?"