Crônica | Meia verdade ou meia mentira? - Chris Herrmann


Crônicas que as lembranças me embrulham de presente - 12
Meia verdade ou meia mentira?
por Chris Herrmann

Naquela época, eu vivia no Rio de Janeiro, tinha 19 anos e meu pai tinha falecido há pouco. Eu estudava Letras na UFRJ durante o dia e procurava trabalho em um horário que não atrapalhasse os meus estudos. A situação financeira da minha mãe estava difícil e, mais ainda, eu sentia a necessidade de trabalhar e ajudar. Já tinha experiência como secretária, com inglês, traduções, datilografia, estenografia e operação de telex nacional e internacional. A dificuldade de encontrar algo que se encaixasse no meu tempo disponível era grande. Por esse motivo, me inscrevi em várias agências de emprego no centro da cidade (nos anos 80 não havia internet para todos, como hoje) e deixava claro que aceitaria também um trabalho temporário. Eu só queria uma chance.

Certo dia, recebo uma ligação telefônica de uma dessas agências, e a moça ao telefone disse que se me interessasse, havia uma vaga de serviço temporário por três meses na presidência de um banco internacional no centro da cidade. Era preciso ter bom inglês e experiência como teletipista, o que eu, obviamente, tinha. Haveria uma seleção com entrevista e teste com telex no dia seguinte, às 9h da manhã, lá mesmo na presidência do banco. Fiquei animadíssima! O salário era excelente, o horário perfeito e, além de tudo,  uma ótima oportunidade de ampliar meus conhecimentos e adquirir mais experiência.

Porém, antes de continuar a história, quero abrir aqui um parêntese. Hoje em dia, o aparelho de telex ficou obsoleto. Ouvi dizer que, eventualmente, alguns navios ainda utilizam. A verdade é que o mundo evoluiu e os meios de comunicação também. Os jovens de hoje não têm ideia do que seja uma máquina de telex e para que serve. Mas naquela época, praticamente todas as empresas tinham uma ou várias daquelas máquinas. Minha paixão por telex começou quando eu era criança e visitava com minha mãe, o meu pai na hora do almoço dele, na rua 1‘ de Março, no centro do Rio. Meu pai era chefe de telecomunicações do Lloyd Brasileiro - Companhia de Navegação. O andar das telecomunicações era enorme e eu ficava fascinada com aquelas máquinas e fitas furadinhas que proporcionavam a comunicação em tempo real com o mundo inteiro. Hoje isso parece piada, mas naqueles tempos isso era o máximo da modernidade (risos). Anos depois, fiz questão de aprender telex e também ler a fita perfurada. E era boa nisso.


Pois bem, voltando ao telefonema da moça da agência de emprego, ficou combinado que eu compareceria à entrevista de seleção na presidência do banco internacional, que não revelo o nome para não ficar ainda mais embaraçoso para mim, pelo que eu vou contar a vocês. Pouco antes de terminar a ligação, a moça disse: “ah, quase ia esquecendo de lhe dizer que saber lidar com máquina de telex eletrônica é o pré-requisito. De preferência, da marca Siemens. Mas você também tem experiência, não é mesmo?“ Naquele momento, eu gelei. Porque eu só havia trabalhado com máquinas de telex da geração anterior às eletrônicas - as manuais, que eram completamente diferentes de se trabalhar. Eu já tinha visto uma de longe. Era novidade no mercado, mas empresas internacionais estavam sempre em dia com essas modernidades. Eu quase disse a verdade, mas não sei bem o que me moveu a dizer que tinha experiência sim, com as eletrônicas.

Pronto, depois do telefonema eu fiquei cheia de consciência pesada e pensei: “muito bem, dona Christina, você acabou de mentir descaradamente para a moça da agência e passará o maior vexame no teste de amanhã. Você bem que merece, sua besta quadrada!“. Nisso, minha mãe que estava na sala e ouviu a conversa, me perguntou: “minha filha, por que essa cara de assustada? Se você foi chamada para uma entrevista de emprego, deveria estar contente“. Então eu contei para ela os detalhes, no que ela caiu na risada. Ah, então é isso? Não fica assim nervosa. O máximo que pode acontecer, é você não passar no teste. Ou então você telefona para a moça da agência desmarcando e conta a verdade. E eu: “sim, mãe, é o que eu deveria fazer. Não estou me sentindo bem em ter mentido.“

Depois fui para o meu quarto e fiquei pensando, pensando, e me lembrei que o meu amigo Hermes trabalhava à noite na Interbrás e lá havia máquinas das duas gerações. Liguei pra ele que estava em casa (porque era de tarde) e tivemos uma ideia. Ele telefonaria para o seu amigo na Interbrás que faria cópias do manual e, como ele tinha carro e onde eu morava era caminho da casa dele, o Hermes pediria para ele entregar na portaria do meu prédio. Fiquei um tanto esperançosa, embora soubesse que essa ideia maluca poderia muito bem dar para trás. O Hermes disse que só precisava confirmar primeiro com o amigo. Eu aguardei uns minutos e ele me ligou de volta: “Olha, Chris, já combinei tudo com ele e ele ainda ofereceu você fazer uns minutinhos de treino antes de você ir para a entrevista e teste. A Interbrás é bem pertinho desse banco“.  Ah, que beleza, agradeci muito aos dois e o plano parecia trazer um pouco de luz no final do túnel...

A alegria durou pouco quando eu desci para pegar a cópia do manual na portaria. Fiquei estarrecida  quando vi o calhamaço e pensei em desistir daquele plano dos diabos! (risos) Fui pra casa toda murcha e mostrei à minha mãe. Ela ficou sem saber o que dizer. O pior é que já eram quase sete horas da noite e não adiantava mais ligar para a agência de emprego para desmarcar. Lá o expediente terminava às seis da tarde. Fui para o meu quarto e me joguei na cama com aquele manual assustador que parecia dar um sorrisinho sarcástico para me dizer: “você pensou que seria moleza, não é, sua ingênua?“


Pois bem, fiquei pensando que dei tanto trabalho ao Hermes e ao amigo dele para nada. Além de mentirosa, ainda sou uma aproveitadora da bondade alheia, pensei. Foi então que resolvi a começar a ler o manual e fazer marcações. Lia e relia onde achava mais difícil. Depois peguei uma folha grande de papel de presente e fiz um desenho no verso. Um desenho muito mal feito, por sinal. Mas era o desenho da máquina de telex eletrônica Siemens que continha no manual. E marcava no desenho anotações do que me parecia mais importante de não esquecer. Era uma espécie de resumo de toda a leitura do manual, que só eu entenderia, naturalmente. Virei a noite estudando aquele manual de trás para frente, de frente para trás e anotando no desenho grande que eu improvisei. Dormi debruçada naquele mundo de papel umas duas horas somente, quando o despertador fez um estardalhaço para me acordar. Tomei banho, engoli o café, me arrumei correndo e usei a maquiagem para disfarçar as olheiras e o cansaço que estampavam meu rosto.

Peguei o metrô e fui direto para a Interbrás, onde o amigo do Hermes já me esperava para que eu treinasse uns 20 minutos na máquina dos meus pesadelos! Qual não foi a surpresa que eu tive, quando ele disse que eu poderia treinar somente 5 minutos, já que o chefe naquele dia chegaria mais cedo e ele teria problemas por permitir uma pessoa de fora a mexer na máquina. Fiquei suando frio, mas procurei aproveitar aqueles cinco minutos como se fosse defender a minha vida! E de lá fui para a entrevista e percebi mais quatro pessoas na sala de espera comigo. O primeiro pensamento que me veio é que aquelas quatro pessoas que aguardavam, como eu, não devem ter mentido como eu, e que eu não teria a menor chance e seria muito bem feito pra mim.

Depois da entrevista e teste fui para casa sem muita esperança. Horas depois, me telefona a moça da agência: “Christina, parabéns, você foi a candidata selecionada para substituir a secretária da presidência do banco durante a licença-maternidade dela! O feedback da sua entrevista e teste foi excelente. Você já pode começar amanhã.“

Ainda hoje custo a acreditar que eu vivi essa bizarrice. Dias depois, dei uma passada na agência de emprego na hora do meu almoço com o objetivo de contar à verdade, mesmo que “saísse mal na fita“. Estava feliz com o trabalho, mas me sentia mal por ter mentido. A moça sorriu e disse: “você ficou preocupada com isso? Não precisava. Você foi fazer o teste com experiência naquela máquina. Se de 12 meses ou 12 horas, o que importa é que gostaram da sua entrevista e do seu teste. E preciso lhe dizer uma coisa: você é uma lutadora. Parabéns!“

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