O verso do avesso — Marilia Kubota

MOSAICO Coluna 13   Crônica

O verso do avesso 
por Marília Kubota

Sempre que chegava a data da comemoração da imigração dos japoneses ao Brasil, me pediam, quando eu trabalhava como jornalista, indicações para falar com fontes na comunidade de brasileiros asiáticos. As entrevistas seriam de pessoas que pudessem dar depoimento sobre os tímidos, honestos e diligentes japoneses, trajando quimono, comendo feijoada com "palitinhos"   que às vezes as mulheres também usavam como grampo para prender os cabelos  e contando piadas falando "errrado".
Durante anos fui assessora de imprensa do Nikkei Clube de Curitiba e trabalhei para jornais étnicos. Por isto, eu era uma referência no assunto para os colegas jornalistas. Depois do centenário da imigração, acabei me envolvendo mais com literatura e a academia. Deixe para trás este passado.
Colegas jornalistas ainda me procuravam como fonte. Alguns, já professores de cursos de jornalismo, me indicavam para os alunos. Um das últimas indicações foi desgradadável. A estudante passou duas tardes me entrevistando, conseguiu as referências que queria   só uns contatinhos   e não agradeceu. Depois disto, recuso a ajudar colegas aflitos em orientar TCCs de asiáticos. 
Semana passada li um livro que me fez voltar a este passado. Era um típico "Memórias de imigrante japonês", em que os autores (um casal) louvava as aventuras da família em solo brasileiro, exaltando feitos de patriarcas e matriarcas. No final do livro, havia um álbum de fotos. Muitas semelhantes às que a minha mãe colou em seu álbum. Percebi que tinha uma história de família igualzinha a qualquer outra de etnia japonesa. O que me fez refletir sobre a ideia que podem não existir "experiências originais". 


Tomoo Handa

Mas mesmo vivendo as mesmas experiências, há registros extraordinários. O escritor e artista visual Tomoo Handa, por exemplo, retratou em crônicas saborosas o cotidiano de japoneses no Brasil. Desde a confusão com comidas  usavam chuchu para fazer conservas, na falta de nabo ou gengibre   até a miscigenação na moradia, feita de sapé, palha e terra batida, seguindo o modelo da casa do caboclo.
Para alguns asiáticos de etnia japonesa, a paisagem, a história nunca existiu, só "indivíduos que venceram" e as fotos de família romantizam esta narrativa. No livro do casal, me espanta  ou não   não haver posicionamento político.É como se a família existisse fora do tempo e do espaço, imune a acontecimentos históricos do país e do mundo.

Há um modo poético de olhar uma história de vida. O modo como Tomoo Handa olhou, e Haruo Ohara, que captou em fotos  a "paisagem na neblina" do interior de Londrina, ou  Nempuku Sato, conseguiu depurar haicais no interior de São Paulo olharam. Os três artistas registraram o cotidiano transcendente da terra selvagem em pintura, fotos e poemas .

E há o modo que, desejando destacar feitos individuais, só consegue se integrar a uma história de massa. O destino de celebridades contemporâneas talvez seja este: o de ser um nome num álbum. Um poeta, olhando para os semelhantes, e para a terra que o acolheu, será celebrado, na história, por ter olhado o que ninguém olhou.


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Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Ótimo texto, Marília Kubota. Talvez não existem mesmo experiências originais... talvez somente existam olhares originais sobre experiência que parecem individuais mas, no fundo, são coletivas. Esse é um tema para pesquisar e analisar.

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