Em uma Metáfora bem-humorada, o passado alerta o futuro: crônica de Marisa Zani

Salvador Dalí

MÓVEIS MEMÓRIAS*
                    por  Marisa Zanirato

Tudo começou quando o discreto guarda roupa colonial apaixonou-se pela culta e rebelde estante de livros.

Ele, legítimo jacarandá, viúvo da distinta e refinada cristaleira, tinha desse casamento uma filha: mesa de jantar – donzela de certa idade, educada para servir discretamente. Entretanto, no final dos afazeres, depois de esvaziadas as taças de vinho, mesa de jantar entrava em devaneios nos quais ela se transformava na macia e aconchegante cama, protegida e amada pelo criado-mudo.
   
Estante de livros não tinha linhagem nobre. Pertencia à geração beat: aglomerado de madeira revestida com padrão cerejeira. Ainda jovem, acolheu Platão, Marx, Sartre e Nieztsche, com a mesma irreverência com que acolhera atlas geográficos, dicionários, literatura védica e revistas em quadrinhos. Já na maturidade, permitiu-se algumas veleidades, ostentando sem constrangimento um aparelho de TV e um DVD. Porém, num cantinho meio escondido, guardava com muito carinho discos antigos de Raul Seixas e Pink Floyd. 
     
Teve um curto relacionamento afetivo com armário embutido – jovem robusto, um pouco vazio e secretamente apaixonado por uma elegante mala, também vazia. O namoro com o sofá também terminou na maciota. Estante de livros não era dada a compromissos duradouros.
   
Por essas e outras, o romance entre o nobre guarda-roupa e a descontraída estante de livros tornou-se objeto de comentários na cozinha. Geladeira e fogão, nas horas de folga, não falavam de outra coisa, para desgosto de máquina de lavar, que alimentava certa esperança de que as calças e camisas, devolvidas limpas e perfumadas, demonstrassem ao guarda-roupa que ela tinha muito mais coisas em comum com ele, do que aquela lambisgóia metida à culta. Quase silenciosamente, máquina de lavar derramava lágrimas de espuma. 
 
 As irmãs gêmeas cadeiras de varanda também não economizavam fofocas. Diziam que guarda roupa colonial era um velho rabugento com dobradiças enferrujadas. Riam-se das pretensões da doméstica máquina de lavar, mas também não apreciavam estante de livros, alegando que era maluca e pedante. Na verdade, não perdoavam o rompimento do romance de estante com sofá, o confortável primo das gêmeas. 
     
Aconteceu que o inusitado caso amoroso afetou quase todos: cadeiras trocaram de lugares, pia de cozinha entupiu e as camas beliche brigaram, indo uma para cada lado do quarto. Só a velha cadeira de descanso não se abalou: continuou se espreguiçando em seu canto, indiferente ao que acontecia à sua volta.
     
Guernica, de Picasso

Para desgosto dos mais conservadores, o diz-que-me-disse aumentava dia após dia. Numa noite em que o ambiente ficou insuportável com os cochichos, piadinhas e risadas, berço de nenê acordou e desandou a chorar. Foi o pretexto suficiente para que o neurastênico coronel armário de aço decretasse estado de exceção a fim de restabelecer a ordem e a decência no recinto.
    
Estante de livros foi considerada subversiva. Seu comportamento anarquista e os discos escondidos serviram de provas para o veredicto do tribunal composto por freezer,  microondas e capacho de entrada.
    
Destituída de suas funções, foi condenada ao quarto de despejo; os livros e discos confiscados e vendidos para um sebo. Seu lugar foi ocupado por sistema modulado, moderno e sem história, dotado de mesa de computador e prateleiras para TV e DVD.
Desolado, guarda roupa colonial pediu asilo em uma loja de móveis usados. Foi substituído por armário embutido, uma das testemunhas de acusação de estante de livros.

A tímida mesa de jantar passou a ter pesadelos recorrentes, nos quais ela vê a si mesma desmontada e queimada numa fogueira de festa junina. Fogão e geladeira fizeram cara de paisagem e as gêmeas cadeiras de varanda, arrependidas, converteram-se à religião da moda.

Máquina de lavar centrifugou as lágrimas e aceitou namorar botijão de gás. Tão atarefada em suas obrigações domésticas, não percebe que ele é trocado periodicamente. Berço de nenê dorme placidamente.

As noites agora são silenciosas. As conversas foram proibidas após o apagar das lâmpadas. Entretanto, aos sussurros, circulam boatos sobre a possível destituição do coronel armário de aço. Provavelmente entrará para a reforma em algum o ferro velho.

Também no silêncio da noite, eu, computador, gravei estas notas em minha memória. 

*Crônica vencedora do mapa cultural paulista fase final estadual em 2012.

Marisa Zanirato é graduada em Filosofia pela Unesp de Assis e professora aposentada. Participou de três edições do Mapa Cultural Paulista, sendo finalista  estadual na categoria crônica na edição 2011/2012 e finalista regional, na categoria poesia na edição 2013/2014. Tem trabalhos publicados em jornais da cidade de Assis e em três  antologias : Eternos Elos, Filhas de Maria e Valentin e EscritAssis. Foi membro do Conselho Curador da FAC- Fundo Assisense de Cultura- em 2014/2015. Continua a escrever no local onde decidiu morar, viver e ser feliz, longe do mundo virtual.

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