Reflexões sobre a escrita em tempos de isolamento - por Luciana Hidalgo

Christen Dalsgaard

- Um trecho do livro "Literatura da urgência"

Acordei hoje pensando na “escrita de si” conceituada por Michel Foucault e resolvi disponibilizar aqui esse trecho do meu livro “Literatura da urgência” porque tem tudo a ver com nosso tempo de isolamento. A “escrita de si” como uma espécie de “cuidado de si”, exercitada na cultura greco-romana, é importantíssima nessa hora. Eu a utilizei para analisar o "Diário do hospício" de Lima Barreto, mas acho que pode ser útil a todos os confinados. Escrevamos, mais do que nunca.
“Michel Foucault formulou o conceito ‘escrita de si’ no contexto de uma série de estudos sobre as ‘artes de si’ nas civilizações grega e romana. Partindo de uma démarche filosófica que investigava as relações entre subjetividade e verdade, o autor pesquisou a relevância do ‘cuidado de si’ na cultura greco-romana, mostrando como essa questão atravessou toda a reflexão moral, desde os primeiros diálogos platônicos até grandes textos do estoicismo tardio (Epicteto, Marco Aurélio). A ética desse cuidado consistia em objetivos definidos: retirar-se, viver consigo mesmo, bastar-se, fruir consigo.
Num momento histórico posterior, contudo, Foucault identificou o ‘cuidado de si’ condenado como elemento suspeito, uma forma de egoísmo, ou individualismo, em contraposição a um interesse coletivo – um desvio em parte associado ao cristianismo devido ao sacrifício e à renúncia de si pregados como dogmas. Segundo o autor, entre os gregos, sobretudo, o indivíduo deveria ocupar-se de si antes de alcançar efetivamente o exercício da liberdade. O cuidado em questão constituía, assim, uma forma de autoconhecimento, questão essencial na Antiguidade e premissa de um bom governante. Antes de se ocupar dos outros com competência, era preciso ocupar-se de si com destreza.
A ‘escrita de si’ surgiu como uma das formas de ‘exercícios de si sobre si’, uma prática ascética que transcendia a ideia de renúncia moral e compreendia a tentativa de se elaborar, transformar-se e alcançar um certo ‘modo de ser’. Foucault tomou como ponto de partida para essa reflexão Atanásio, santo que viveu de 295 a 373 aproximadamente em Alexandria, Egito, conhecido pelo excesso de austeridade e ortodoxia. Em ‘Vita Antonii’ – livro sobre a vida de Santo Antão escrito por Atanásio para monges que habitavam em países estrangeiros – o autor incentivava as anotações de atos e pensamentos como elementos indispensáveis à ascese.
O ‘diário’ do asceta deveria conter tudo o que tentadoramente permanecesse recôndito: incorreções, pecados, mentiras. Atanasio deu a esse tipo de escrita um status até então inaudito: ‘Eis algo a se observar para assegurar que não se peque. Anotemos e escrevamos, cada um, as ações e movimentos da nossa alma, para que os conheçamos mutuamente e estejamos certos de que, por vergonha de sermos conhecidos, pararemos de pecar e de ter no coração o que quer que seja de perverso. (...) Não fornicaríamos diante de testemunhas. (...) Que a escrita substitua os olhares dos companheiros de ascese: enrubesçamos por escrever, tanto quanto por sermos vistos, guardemo-nos de todo pensamento ruim’ (apud FOUCAULT, 1994: p.415-416).
Os escritos da reclusão deveriam exercer o papel de espelho do mal, um espaço a ser preenchido com o que houvesse de negativo, oculto, na conduta dos monges isolados, em retidão absoluta. O estímulo à escrita não incluía o registro de aspectos positivos das personalidades, autoelogios. O caderno de notas era o confessionário das letras, uma narrativa criada na solidão eclesiástica com o poder de representar o olhar externo severo e, sobretudo, substituí-lo.
As páginas escritas ganhavam, assim, a função de exorcismo de demônios, expiação de culpas, destinadas a um interlocutor invisível. Ou seja, o próprio autor ocupava o lugar do confessor. Em última análise, conjugava a ambígua função de autor e leitor de si. A escrita constituía uma autoconfissão, exigindo disciplina e austeridade redobradas, pois faltavam olhos e ouvidos alheios, ou seja, inexistia a figura do interlocutor entre o pecador e seu senhor. Em suma, todo este mecanismo de escrita possuía um objetivo final que passava ao largo da elaboração estético-literária: a redenção do ‘eu’, isto é, do ‘pecador’.
Foucault ressalta que o texto de Atanásio não esgota todas as significações que a ‘escrita espiritual’ possuiria ao longo dos séculos: ‘Mas podemos reter vários enfoques que nos permitem analisar retrospectivamente o papel da escrita na cultura filosófica de si antes do cristianismo: sua ligação estreita com o companheirismo [no sentido da solidariedade entre pessoas voltadas a um mesmo interesse], sua aplicação ao movimento do pensamento e seu papel de prova da verdade.’
O autor ressalta que esses diversos elementos encontravam-se em Sêneca, Plutarco e Marco Aurélio, embora com valores diferentes. Entre diversas práticas, a escrita sobressaía: ‘Nenhuma técnica, nenhuma habilidade profissional, pode ser adquirida sem exercício: não podemos mais aprender a arte de viver, a ‘technê tou biou’, sem uma askêsis [ascese], que deve ser compreendida como um treinamento de si por si: esse é um dos princípios tradicionais aos quais há muito tempo os pitagóricos, socráticos, cínicos haviam dado grande importância. Parece que, entre todas as formas de treinamento (que comportavam abstinências, memorizações, exames de consciência, meditações, silêncio e escuta do outro), a escrita – o fato de escrever para si e para o outro – teve posteriormente um papel considerável’ (FOUCAULT, 1994: pp.416-417).
Sêneca aconselhava a conjugação leitura-escrita, enquanto Epicteto associava a escrita pessoal à meditação. Plutarco, por sua vez, detectou uma função ‘éthopoiéthique’: a escrita como uma espécie de operadora da transformação da verdade em ‘éthos’. Esses tipos de escrita constam de documentos dos séculos I e II estudados por Foucault e possuem duas finalidades distintas, sendo classificados como ‘correspondência’ e ‘hypomnêmata’ – estes, como já se mencionou, eram registros e cadernos pessoais que funcionavam como guias de conduta na cultura greco-romana, contendo citações, fragmentos de obras, pensamentos, argumentos e meios de se lutar contra um defeito (raiva, inveja etc.) ou uma adversidade (luto, exílio etc.).
Foucault distingue claramente os ‘hypomnêmata’ dos diários íntimos ou das narrações cristãs, por não constituírem uma ‘narração de si’, ou seja, ‘não têm por objetivo fazer vir à tona os arcana conscientiae cuja confissão – oral ou escrita – tem valor purificador; o movimento que eles buscam efetuar é inverso desse: não se trata de perseguir o indizível, de revelar o escondido, de dizer o não-dito, mas de captar, pelo contrário, o já-dito; juntar aquilo que pudemos ouvir ou ler, e isto para uma finalidade que nada mais é do que a constituição de si’ (FOUCAULT, 1994: p.419).
Esse breve prólogo sobre as inúmeras configurações da ‘escrita de si’ constitui um ponto de partida para a análise de ‘Diário do hospício’, de Lima Barreto. No relato de si realizado na condição de interno, o autor conjugou elementos dispersos e fragmentados que remetiam muitas vezes a ele mesmo. Compôs descrições do hospício com sua hierarquia, rotina, médicos, funcionários, doentes, inserindo-se, a si mesmo, no contexto. Registrou reclamações sobre a inadaptação ao cotidiano do manicômio e a revolta pela internação à sua revelia. Empreendeu uma autoanálise: fracassos, problemas familiares. Formulou críticas à sociedade como sistema (hipocrisia, racismo, sistema de pistolões, desigualdades sociais) coerentes em relação às que constam das crônicas e romances de sua autoria. (...)
Lima Barreto comungou à sua maneira do culto à escrita como escudo formulado por Antonin Artaud. O escritor descobriu e exerceu, a seu jeito, a função terapêutica do cuidado de si assinalado por Foucault, ainda que proprietário de um corpo provisoriamente embargado pela autoridade numa situação-limite: ‘Ocupar-se de si não é uma simples preparação momentânea da vida; é uma forma de vida. Alcebíades se dava conta de que deveria cuidar de si, à medida que ele queria posteriormente ocupar-se dos outros. Trata-se agora de se ocupar de si para si. Deve-se ser para si, e ao longo de toda a sua existência, o seu próprio objeto (...) Mas, sobretudo, essa cultura de si possui uma função curativa e terapêutica. Ela se aproxima muito mais do modelo médico que do modelo pedagógico. É preciso, é verdade, lembrar-se de fatos muito antigos na cultura grega: a existência de uma noção como a de ‘pathos’, que significa tanto a paixão da alma quanto a doença do corpo; a amplitude de um campo metafórico que permite aplicar ao corpo e à alma expressões como tratar, curar, amputar, escarificar, purgar. É preciso lembrar também o princípio familiar aos epicuristas, cínicos e estoicos, de que o papel da filosofia consiste em curar as doenças da alma’ (FOUCAULT, 1994: pp.416-417).”
Do ensaio “Literatura da urgência – Lima Barreto no domínio da loucura”, de Luciana Hidalgo (2008).
***



Luciana Hidalgo é uma escritora brasileira, Doutora em Literatura Comparada pela UERJ e pós doutora pela Universidade Sorbonne Nouvelle Paris 3, onde é pesquisadora.
A autora já deu palestras sobre seus livros e temas na programação principal da Festa Literária de Paraty (Flip), na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em universidades como UERJ, UFRJ, USP, UFMG, e em diversos centros culturais no Brasil. Na França, deu palestras na Sorbonne (Université Paris 3 e Paris 4) e no Centre Culturel International de Cerisy-la-Salle, bem como na Universidade de Viena, na Áustria, entre outros centros culturais e universitários europeus. Ganhou dois prêmios Jabuti com os livros , Arthur Bispo do Rosário - O Senhor do Labirinto (Editora Rocco/1966) e Literatura da Urgência - Lima Barreto no Domínio da Loucura (Annablume/2008). Em 2011 lançou O Passeador, pela Rocco, romance que foi finalista dos prêmios, Portugal Telecom, Jabuti e Prêmio São Paulo de Literatura em 2012, na categoria "melhor romance". Em 2016 lançou pela Rocco, o Romance Rio - Paris - Rio. Dedica-se agora, à escrita de novo Romance que sairá em breve.

Comentários

  1. Muito bom. Sou leitor e fã incondicional da profª / escrita Luciana Hidalgo.

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