Uma crônica em tempos de quarentena - Por Marta Godoi

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 Portugal/Margem Sul do Tejo/Setúbal 

Na casa de casais
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por Marta Godoi

As flores coloridas na Praça do Bocage dão o tom primaveril aos dias. No Montalvão, agapantos altivos, brancos e lilases imperam. Só perdem para as escandalosas bougainvilles boninas. O barulho contínuo no prédio vizinho, as obras no entorno do Convento de Jesus dão o recado de retomada mas os números de infecção pelo coronavírus também dão: estamos aí. No casarão rosa em frente, dois homens refazem o reboco do muro. O ajudante é tão franzino que quando enche a pá com os entulhos pra jogar no caminhão tenho a sensação que ele vai junto. Um fiapo. Que muro! Contornos e mais contornos. De um tempo em que se tinha mais tempo. O tempo está tão bom que lavamos as mantas usadas no finalzinho do inverno e no abril de chuvas mil. Terminei de ler o segundo romance aqui. Li o A noite passada, como uma lesma. Processar os acontecimentos sobre a Revolução dos Cravos que foi sonegada nas aulas de História, durante a ditadura, por motivos óbvios, doeu. As personagens e os seus dramas faziam conexões com os do Brasil. Tudo vindo do mesmo manual fascistinha. A revolta contra o Portugal cinzentão que se arrastava no pós-guerra, homens e mulheres estupefatos com a chegada da televisão, a novela Gabriela, a fuga de um torturador da PIDE para o Brasil e, por fim, a cruz de diamantes brasileiros que conduz a narrativa. Ficção ou realidade? Não importa. As histórias dos países se bicam. "Quando se fica sem memória, fica-se também sem língua", citação do livro. Tinha ficado apenas com o canto do Chico. "Foi bonita a festa pá, fiquei contente e ainda guardo renitente um velho cravo para mim". Notícias de fazer inveja a Gabriel García Márquez chegam do Brasil. Prenderam a fake líder dos 300, Prenderam o Queiroz em Atibaia, na casa do advogado do presidente fake, o ministro fake da educação fugiu para Miami. Ufa!! A forte moça brasileira começou a trabalhar num lar de idosos. Conta alegre, mostrando fotos, que as senhoras fazem questão de colocar até os brincos depois do banho. Comemorou com o marido português um ano e seis meses de casamento no mesmo dia em que fizemos trinta e sete anos de casados. Comeram peixes e beberam vinho verde Casal Garcia. Li que pela primeira vez nos últimos anos, em 2019, o número de nascimentos supera o de mortes em Portugal. Os imigrantes são os responsáveis e põem em prática o crescei e multiplicai- vos. Bom sinal. Sementes nalgum canto.



 Marta Siqueira De Godoi Sampaio é mineira da roça e mãe do Caio e Tarsila, casada com Oneas e professora aposentada que depois dos cinquenta vive a experiência como imigrante em Portugal para ver de mais perto o neto, filho do filho, chamado Raoni que nasceu na Espanha. Só que no início do caminho veio a pandemia. Agora, nada será como antes.
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