Resenha do livro de poesia infantojuvenil GARIMPO, de Líria Porto

(Capa do livro GARIMPO)


NO GARIMPO DE VERSOS E RIMAS RARAS

por Nic Cardeal 

No livro GARIMPO (Belo Horizonte/MG: LÊ, 2014), finalista do Prêmio Jabuti - poesia/2015 - , a espetacular poesia de LÍRIA PORTO mais uma vez faz maravilhosa dupla com as incríveis ilustrações e capa de Silvana de Menezes.

O livro é, de fato, um autêntico garimpo de versos e rimas raras, palavras soltas, finas asas! ERA UMA VEZ uma LAGARTA, ou será que era só um risco RASO e sinuoso, indo de um lado a outro da calçada, entre ACORDES e recortes, procurando a rota certa da estrada, e a palavra a servir como genuíno GUIA da saudosa alegria. Tudo sempre é possível no GARIMPO das palavras: tem verso pra CONQUISTA, pra NAMORO, INDIFERENÇA, DESENCANTO, e até pra danada INDIGESTÃO: "mastigo mastigo salivo/ engulo as palavras rumino-as/ elas retornam à língua/ azedas" (2014, pg. 18)! Mas não precisa ficar triste não, porque a peneira desse GARIMPO é miúda apenas na sua tecidura - ela é mesmo imensa no ASSOREAMENTO de tudo o que tem sentido nesses versos de nobres rimas: "ou rio da vida ou ela me encharca" (2014, pg. 14)!

Sabe aquele BAGAÇO tão PREMATURO que saltou de um TROPEÇO da garganta, sem nem avisar e nem pagar a conta? Era a palavra-chave dessa n(ave), como uma asa de verdade fazendo voar a imaginação em cada página dessa RE_MISSÃO! Porque até o bagaço pra Líria é pura poesia: "a escrita me pega me traga me suga me mastiga/ e cospe o refugo" (2014, pg. 27).

Aqui a ÂNCORA cai exatamente AOS PÉS DA LETRA, aportando o barco da rima exata na medida certa, em doces VULNERABILIDADES sem receita! Sim,  é mesmo bem  INCONDICIONAL o amor por essa poesia: tudo aqui reverbera em múltiplas FACILIDADES, sem TRAUMAS, com ou sem ESPECULAÇÃO, porque "viver é capricho/ ou é nada disso" (2014, pg. 37)! Até pode chover GRANIZO, nascer rosa com ESPINHOS, encontrar uma tempestade em CRUEL DESOBEDIÊNCIA pelo caminho, porque "a sede de liberdade/ causa transbordamentos" (2014, pg. 30), ou até mesmo uma nuvem perdida no céu feito um BORRÃO branco de algodão! Tudo é possível no caminho da imaginação de Líria, as palavras fazem fila na INFÂMIA ou na GUERRILHA, no RETORNO da estrada, no descanso ou na INÉRCIA, na cidade ou nos cantos mais RUPESTRES! A palavra é de fato um grande GUIA: sabe DE COR E SALTEADO a estrada e a linha, a realidade e a fantasia!

Tudo é assim desse jeito comovente -  mesmo ENQUANTO DURMO meu coração é só AUSCULTA: não importa a raça, a CASTA, de que MATERIAL é feita a palavra, "um penhasco um precipício/ umas asas o escafandro/ um pé de vento um grilo/ lápis e papel" (2014, pg. 18), tudo pode acontecer no GARIMPO desse porto de lírias rimas, até usar de RIMAS CANINAS, porque "corações perdigueiros/ farejam e caçam/ amores verdadeiros" (2014, pg. 17)!

A leitura de GARIMPO é muito, muito promissora! Você poderá correr o risco de até achar um grande veio de rabiscos, uma caneta de muitas cores, um punhado de pedras brilhantes do tipo 'ouro-de-tolo', ou mesmo um pote de palavras silenciadas há tanto tempo, e que quando encontradas, farão muito gosto em 'dar uma palavra' da sua lavra! Tudo dependerá de sua imaginação!

(Foto: arquivo pessoal)

LÍRIA PORTO, escritora mineira de Araguari, também  é autora dos livros Borboleta desfolhada e De lua, publicados em Portugal em 2009. No Brasil já publicou: Asa de passarinho, Editora Lê, 2014; Cadela prateada, Editora Penalux, 2016; e Olho nu, Editora Patuá, 2017. É autora do blogue Tanto mar. Participou das antologias Dedo de moça - escritoras suicidas, e Cartas embaralhadas, organizada pelo escritor Leonel Prata. Tem poemas publicados em vários jornais, revistas e sites, como 'Germina Literatura', 'Mallarmargens', 'Poesia Perfeita', e 'Zunái', entre outros. Reside em Araxá/MG.






Comentários

PUBLICAÇÕES MAIS VISITADAS DA SEMANA

A terapia da palavra em quatro poemas da jovem escritora Maria Luiza Brasil

PodPapo 09 - entrevista com a escritora, editora e coordenadora do Focus Brasil NY Nereide Santa Rosa

A beleza no humanismo e na denúncia da poesia de Edir Pina de Barros

Um conto de Marithê Azevedo | "Céu Escuro"

Cinco poemas de Eva Potiguar | Uma poética de raízes imersas

Divina Leitura | As multiplicidades de "Santuário" de Maya Falks

Quatro poemas de Helenice Faria | Uma poética da resistência

Três poemas de Dayane Soares | Uma poética do tempo e da ancestralidade

Um miniconto de Silviane Ramos | "De que cor ficou?"

Seis poemas de Mara Senna | Ponta de estrela