Três poemas de Dayane Soares | Uma poética do tempo e da ancestralidade

 

Harmonia Rosales


Três poemas de Dayane Soares


Uma poética do tempo e da ancestralidade


Engole o Choro!

Menina lágrima, ouviu.

Pela primeira vez, Para, Para, Para.

Engole esse choro, anda, agora!

Maiss, Maiss. Mais nada, já disse.

Engole logo esse choro. E larga de Pirraça.

 

Tic, Tac, Tic, Tac.

Tempo, Tempo, Time.

 

Aborrecente lágrima, ouviu.

De novo, já tá chorando?

Para de drama, tá de TPM é?

Maiss, Maiss, Mais nada.

Larga de moage, draminha, afss coisa de Adolescente.

 

Tic, Tac, Tic, Tac.

Tempo, Tempo, Time.

 

Adulta lágrima, ouviu.

Humm, oia lá, ohh troço que chora.

Deve ser por causa do ex, de macho.

Que vergonha, numa idade dessa fazendo drama e cena.

 

Tic, tac, Tic, Tac.

Tempo, Tempo, Time.

 

Lágrimas, Lágrimas, Lágrimas.

Choro, choro, choro, gritos e berros.

Ops, mais quem tá chorando? Não sou eu lágrima.

Não pera, morreu?


Harmonia Rosales

 

Meu Querido Pé de Goiabeira

 

Sinto sua falta, agora que já sou adulta.

Como queria ser menina, criança outra vez.

O peito chega doer, os zoio a tremer.

Eu diria saudades. O palavrinha e sentimento que nos fazem perder o juízo e direção.

 

Lembro das tardes, em que tu me permitia, subir em ti e me assentar, para prosear com minha irmã, horas se passavam naquelas risadas longas, naqueles papos infinitos, que sempre tínhamos que retornar no outro dia para sua continuidade.

 

Nos três, eu, minha irmã e tu goiabeira. Éramos confidentes umas das outras, tínhamos nossa própria terapia, naquelas tardes podíamos ser nós mesmas, descabeladas, descalças e vestidas de roupas rasgadas.

Nossa como éramos felizes e não sabíamos.

 

Em nossas tardes não havia espaço senão para a alegria, juntas esquecíamos da dor, do medo e das saudades daqueles que amamos e não estavam mais entre nós.

 

Sinto sua falta, queria poder te ver minha goiabeira e te dizer que cresci, envelheci, me formei, conquistei alguns sonhos, me desfiz de alguns e construí outros.

 

Mais ainda confesso que tenho medos, incertezas e calafrios.

Que tenho certeza que se ainda estivesse aqui, iria me ajudar a solucionar e enfrentar.

 

Sinto sua falta e meu coração dói, pois me deparo com a realidade da vida.

De que tudo aqui é tão fugaz e se desfaz, nossos amigos vão embora e deixa saudades, nossos pais envelhecem, muitos sonhos deixamos pela estrada.

Descobrimos tantas maldades, esquecemos de sorrir ou pedir ajuda, como fazíamos quando éramos crianças, sei lá nos tornamos chatos, medíocres e sem graça.

 

Sinto sua falta, seu eu soubesse que o tempo não brinca em sua velocidade, tenho certeza que demoraria mais para descer e entrar para casa, contemplaria mais juntas o quintal e seus pássaros.

 

Ah se eu te dissesse tudo o que já vivi e passei depois que cresci e envelheci. Não que a vida não tivesse mais sentido, mas parece que tudo ficou mais nítido e cinza.

 

O arco-íris não aparece mais com frequência, o sabiá não vem mais todas as tardes cantarolar, o cheiro daquela terra molhada, agora cheira asfalto, meus amigos eu não mais abraço.

 

Desculpa se não me despedi de ti, é que eu cresci, envelheci e fui me distanciando, e você sem eu perceber se foi, hoje no seu lugar tem um pé de bananeira.

 

Essa poesia escrevo para me reconciliar e te agradecer, por tudo que me fez, por ter me curado diversas vezes, ter me aguentado no peso e choramingos, escutado e me ensinado que o Amor e Valor estão nas coisas simples e nos protegerá sempre em que nossas memórias, pudermos revisitar.

 

 

Mãe Preta

 

Suas mãos calejadas, ásperas.

Sempre foram suas marcas.

 

O silêncio era nítido em seu olhar.

Mesmo no falar, que muitas das vezes, era disfarçado em sorriso, pra não chorar.

 

Ela se tornou cicatriz, atriz, Meretriz.

Foi chamada e julgada de Prostituta, Puta, Vagabunda, Amante, Cartomante.

Tudo suportou, para que seus filhos não conhecessem a dor.

 

Guerreou, Lutou, Batalhou, Trabalhou em meio ao Sol, Espinhos e Lágrimas que abafadas eram no escuro de senzalas contemporâneas de quarto de empregada.

 

Se libertava e reconstruía quando ia pra mata, se encontrar com Orixás e Oxalá.

 

Seu rosto foi tatuado de marcas, que só sua alma poderia descrever como estas foram desenhadas, naquela pele preta clara, que reluzia como o brilho da noite.

 

E acredite para ela a noite poderia ser eterna, pois era nela que mãe Preta poderia ser Livre, para gritar, chorar, conversar consigo mesma, e ser compreendida.

 

Era nas madrugadas adentro, que ela se entendia.

Ria de suas dores, temores. Sonhava, Meditava, Rezava, Dançava sozinha, pois sabia que ela mesma era sua melhor companhia.

 

Lembrava, Recordava de suas Alegrias, Amores, Desilusões. Mas ela adorava, preferia e gostava da solidão. Acreditava que nela se achava de fato a alegria, Amor, Perdão e Contemplação das mais belas Poesias e Melodias.

 

Relembrava saudosamente de todas as suas irmãs Pretas, e toda sua Ancestralidade Materna, e sentia que independente da dor e fardo carregado, sua vida era Resiliência, Resistência e continuidade de sua Matrialidade, que como poesia lhe remetia à certeza da Eternidade.


Harmonia Rosales



Dayane Thais Leite Soares é aquariana, cuiabana, bacharel em Turismo, graduanda em História pela UFMT Cuiabá, apaixonada por música, dança, café, brigadeiro, conversas longas e risadas. Escrever poesia é a arte que a cura, sua verdadeira terapia. Acredita na Arte como cura dos seres.



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