Sinfonia - Marilia Kubota

Mosaico - coluna 16 - Crônica


Sinfonia
por Marília Kubota

Eu moro num pequeno apartamento no centro de Curitiba. Escuto todos os sons ao redor. O ranger de uma porta se abrindo, na casa vizinha. O barulho das chaves. Motores de carros, motocicletas e ônibus, vindos da rua. E o cantarolar de pássaros que vivem em gaiolas, no apartamento do prédio em frente.  

Esta sinfonia  e os dias ensolarados tornam meu isolamento menos árduo. Abrir a janela da sacada e  ouvir o canto acima do ruído nervoso de motores automotivos e  vozes que se exaltam me dá a impressão de não ficar tão sufocada.  

Além do canto dos pássaros, ouço, vez ou outra, alguém  praticar violino. Este tipo de gratuidade me faz ter a sensação de estar saindo à rua. Ler, ver filmes, ouvir música na internet, conversar nas redes sociais, são respiros. Mas volta e meia penso na sensação de flanar sem destino para encontrar eventos ou amigos ao acaso. 

A música dos pássaros ou do violino são gratuidades que se contrapõem ao ritmo nervoso da cidade.  Os homens de poder inventam artimanhas para permanecer poderosos.  Nas redes sociais se proclama: é preciso lutar contra suas tiranias.  Os pássaros do prédio vizinho nada sabem destas artimanhas. Ao ouvir sua cantoria, ouço outra sinfonia. Começo a escutar o movimento do ponteiro de segundos no relógio de casa. 

Escutar o som mínimo do relógio evoca o carrilhão em casa de minha avó. Era um relógio de parede que  ficava  atrás de uma poltrona. Acima dela, havia prateleiras  com livros. Eu sentava para ler as obras do Clube do Livro, do qual meu tio era assinante. Agatha Christie, José Mauro de Vasconcelos, Thomas Mann, Machado de Assis, Dostoiévski. Não sei como eu escolhia os títulos para leitura. 

Voei do canto dos pássaros para a lembrança de uma adolescente solitária lendo um livro. Pássaros e violinos evocam o mundo submerso da literatura. Não consigo avistar nas janelas de apartamentos contíguos um leitor  submerso numa poltrona.  É por isto que a evocação da memória da leitora precoce se entrelaça ao canto dos pássaros e aos exercícios de um  violinista teimoso.

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