Histórias recontadas por Roberta Gasparotto



A escritora Roberta Gasparotto reconta histórias reais, vivenciadas por outras mulheres, em uma série que ela intitulou: "Diga-me uma história e eu conto sua memória".  Trazemos aqui, as histórias de três mulheres também escritoras, Micheliny Verunschk, Rosângela Vieira Rocha e Nic Cardeal, recontadas por Roberta.

Imagem Pinterest

"Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos". Com essa mensagem de boas vindas, somos recepcionados na capela dos ossos. A história desse lugar é bem interessante: três monges franciscanos queriam criar uma capela, dentro da Igreja de São Francisco, que representasse a fugacidade da vida. É bem verdade que, quando a capela foi construída, no século XVII, a cidade portuguesa de Évora, onde se localiza a capela, estava com os cemitérios lotados, de forma que os monges uniram o útil ao agradável (?), e retiraram várias ossadas do cemitério para construir a famosa capela - seu interior possui as paredes e as colunas revestidas somente por ossos humanos. Pois bem, há uns três anos, estive pela segunda vez nesse local, e me aconteceu um negócio meio esquisito, deixa eu te contar. A capela estava lotada de turistas, e todos estavam muito entusiasmados em fotografar o lugar e tirar fotos das ossadas. Vá entender o gosto peculiar das pessoas, não é mesmo? Mas até aí, tudo bem. Acontece que, naquela época, o tal do pau de selfie estava no auge. Há coisa mais entojada que pau de selfie? Se tem, eu não conheço. Era pau pra lá, pau pra cá... e esses paus são um perigo, viu? A juventude põe aquele troço na mochila e vai que vai, sem saber qual direção o pau aponta - e apronta. De repente, eu só vejo um enorme pau se aproximando do meu rosto e, na mesma hora, senti um puxão para trás. De relance, vi que era um homem muito alto, japonês, e quase negro. Se esse bendito homem não tivesse me puxado, muito provavelmente o pau de selfie me causaria sérios danos, pois vinha em direção ao meu olho. Fiquei meio atordoada com aquilo, e, logo em seguida, como o passeio já estava no fim, saímos todos da capela. E se eu te disser que procurei o homem para agradecer, e não o encontrei? Achei isso tão curioso, pois, a princípio seria muito fácil localizá-lo, porque ele tinha um biotipo bem particular, que se destacava dos outros turistas, em sua maioria japoneses também. Lembro que olhei por todos os lados, e nada. Se com os demais turistas não estava, aonde estaria o misterioso japonês? Pois é, até hoje eu não sei a resposta. A única coisa que sei, é que eu vivi uma  história intrigante na enigmática e um tanto sinistra, capela dos ossos.

(Rosângela Vieira Rocha)


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Primeiro veio o susto, enorme, diga-se de passagem. Depois, o alívio. Não, minto. Entre o susto e o alívio, houve um intervalo que eu nem sei precisar se foi de horas ou dias. E nesse meio tempo, se instalou, em mim, o espanto. Aquele espanto que te chacoalha inteira, quando acontece algo da ordem do inefável. Bem sei que, do inefável, é quase impossível falar, justo por ser uma experiência inexprimível, mas, fazer o quê, se estou com vontade de contar? Vou, aqui, compartilhar uma vivência de tanta força e potência, que até hoje mexe muito comigo. O fato se deu quando eu tinha por volta dos meus vinte e dois anos de idade. Nessa época cursava faculdade de psicologia no Recife, mas morava em Olinda. Após a aula, fui, como de costume, pegar o ônibus de volta pra casa. Ao virar a esquina, vi que o ponto de ônibus estava lotado, de modo que fiquei um pouco afastada da pequena multidão. Nesse momento, uma pessoa vem e me empurra com muita força contra a parede. Lembro que eu senti, na hora, minhas costas doerem. Acho que cheguei a gritar: "você é louco?", sem saber se era um homem ou uma mulher. Acontece que, simultaneamente a isso, eu percebi o motivo do empurrão: um vaso caía exatamente onde eu estava antes da pessoa ter me empurrado. E, de repente, quando quis agradecer por aquele gesto que salvou a minha vida, cadê? É como se a pessoa simplesmente tivesse sumido da minha frente. Não, peraí, deixa eu lhe contar direito: a pessoa, realmente, desapareceu após me dar o empurrão protetor. Nada, nenhum vestígio. Na verdade, em nenhum momento eu soube quem era, nem a vi. Se eu estivesse em um sonho, tudo bem, pessoas, do nada, desaparecem. Mas tudo era muito real, e só lembro que depois, eu tremia muito. Mesmo assim, consegui pegar o ônibus, voltar pra casa, mas fiquei extremamente intrigada com tudo aquilo: a cena do vaso caindo, onde eu, segundos antes, estava; a (não) cena de quem me salvou... Tenho a sincera convicção de que, quem me livrou da morte -  sim, porque dela dificilmente escaparia - não foi propriamente uma pessoa. Pelo menos, não de carne e osso. Naquele momento, quem me empurrou para a vida, foi meu anjo da guarda que, para minha felicidade, estava dando plantão naquela esquina. 

(Micheliny Verunschk)


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É tão bom termos motivos que façam nossos olhos brilhar, e eu tenho vários: uma família numerosa - às vezes um tanto ruidosa, mas bastante amorosa. Tenho meus livros, poemas e amigos. Meus gatos. A natureza que tanto amo. Eu somo tudo isso e ainda acrescento outro, menos visível. O que vou lhe dizer pode ser visto como algo bastante esquisito ou, simplesmente, como uma gostosa visita. Vou lhe contar alguns detalhes e, então, você decide o que achar: na primeira vez que isso aconteceu, eu tinha por volta dos meus seis, ou sete anos de idade. Papai me levou ao médico, pois estava com febre. Estávamos na sala de espera, quando de repente vi, entre as folhagens de uma planta, um homenzinho minúsculo, de gorro vermelho, barba branca e suspensórios. Fiquei fascinada com aquele ser tão pequenino, que, anos depois, descobri tratar-se de um gnomo. Naquela  ocasião, tentei me aproximar, mas ele, bastante assustado, se escondeu entre as folhagens. Chamei meu pai pra vê-lo. "Não tem nada aí, filha. Isso é a febre". Até poderia concordar com papai, se isso tivesse acontecido só uma vez em minha vida. Mas o fato é que depois desse, sucederam-se uma infinidade de outros. Até hoje é assim, já me acostumei com essas aparições, e nunca deixo de me encantar com elas. O episódio que mais me intrigou foi quando, morando no último andar de um edifício altíssimo, todas as noites eu tinha meu sono interrompido pelos morcegos, que por lá, também residiam. Toda noite era a mesma ladainha: meus vizinhos vinham e se debatiam em minha janela. Quando eu, já exausta, não sabia mais o que fazer, pensei em chamar o corpo de bombeiros. Claro que pensei nisso com um enorme peso na consciência, pois sabia que isso iria desalojar os meus vizinhos. Foi aí que o inesperado se apresentou: sonhei com dois enormes morcegos voando, um com cabeça de homem e outro com cabeça de mulher. Ambos me encararam, furiosos. Como de costume, eu percebi, no próprio sonho, que eu estava sonhando. Resolvi continuar para ver onde aquela conversa iria parar. No sonho (ou pesadelo) eu expliquei a eles que não queria lhes fazer mal e que não teria coragem de pedir para expulsá-los. Disse, ainda, que não conseguia dormir por causa deles e aquilo estava acabando com a minha saúde. Propus um acordo: eles me permitiriam dormir e eu, permitiria que eles ficassem por ali. Na manhã seguinte ao sonho/pesadelo, eu acordei exaurida, como se tivesse levado uma surra. Ao dormir, para minha grande surpresa, os morcegos, que, antes, apareciam todas as noites, não apareceram em minha janela. Também não vieram na noite seguinte, e nem na seguinte, e nem durante o mais de ano que residi por lá. O que eu acho que aconteceu? Uma professora minha, na época eu fazia um curso de parapsicologia, me explicou que, no sonho, eu entrei em contato com o espírito dos morcegos. Se eu acredito? Claro que sim. E nem se trata, propriamente, de acreditar. Eu vivi isso. E, com frequência, eu vivencio e visualizo um mundo riquíssimo que se esconde bem debaixo dos nossos olhos humanos, já tão gastos e vazios. Eu amo a frase do incrível poeta gaúcho Caio Fernando Abreu: 'quem só acredita no mundo visível tem um mundo muito pequeno'. Quanto a mim, eu quero cada dia mais, expandir o meu!⁣

(Nic Cardeal)


***

ROBERTA GASPAROTTO é gaúcha de Passo Fundo, mas reside em Brasília desde os seus quatro anos de idade.
Formou-se em Psicologia e trabalha com crianças e adolescentes vítimas de violência. É pós-graduada em Língua Portuguesa, com ênfase em produção textual, já intuindo, talvez, que seguiria no mundo da escrita.
Atualmente divide seu tempo entre trabalho, filhos e os escritos que publica nas redes sociais, como uma forma de partilhar seus anseios, angústias e questionamentos. Além de crônicas, poemas e contos sobre assuntos diversos, possui mais de duzentos e cinquenta poemas com nomes de mulheres e também, tem uma série que se chama: diga-me uma história e eu conto sua memória, que é publicada em seu Facebook e Instagram, além de ser publicada toda sexta-feira na revista crônicas cariocas. Quem tiver interessada em ter a sua história recontada, pode enviar um e-mail para a autora: robertagasparotto16@gmail.com.


Comentários

  1. Adorei ler as histórias recontadas por Roberta Gasparotto. Dessa vez não foi a minha boca, mas os meus ouvidos que ficaram com um gostinho de "quero mais". Li também a entrevista da Nic Cardeal e fiquei encantada e curiosa para saber mais sobre esta escritora. Parabéns, Lia Sena! Você contribui para tornar o meu mundo mais bonito e desperta a minha consciência para lutar por um.mundo mais justo e igualitário. Obrigada, por compartilhar um saber que nos liberta...

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