A poesia de Vania Clares| 5 poemas


Luciane Valença


CONDIÇÃO: MULHER
                          
Já me perdoei.
E como Lilith
ainda encontro
asas no espelho,
ainda busco
onde pousar.
Já sucumbi no fogo
entre as mil
ardidas vivas,
ainda me queima
nas entranhas
o estigma imposto.
Já caminhei nua
pelo deserto
em autopunição
por meus pecados.
Já ofendi Atena
e acabei decapitada
por transformar
homens em pedras.
Já ofereci a face
vermelha dilacerada
direita e esquerda.
Já subi ajoelhada
as escadas do templo
e continua tatuado
em mim o pecado original.
Já rasguei minha carne
ao provar amor
com dor parindo.
Todos os dias
apalpo a marca
da perpetuação
da espécie.
Todos os dias
lembro que sou
significado e
significante.
Todos os dias
sobrevivo
sendo costela de Adão.
Nem todos os dias
sobrevivo.                                                                                           
Quero viver! 

Luciane Valença

ÁRIA


Às vezes hiberno.  Necessito.
Indisciplinadamente e sem discernimento
maturo na quietude o que assimilo.
Repleta de mundo, de rostos, de gestos,
penso, penso que somos e temos.
Quase se perde o tempo do que foi
e diante do que resta finjo me apressar.
Atenta à voz semente que se forma
vibro, desfibrilo, ressuscito.
Incontida e luminescente
canto as notas do amor que recolho.


Luciane Valença


PRIMEIRA NOTA DA NOSSA SINFONIA

Que esqueças de contar as gotas,
não conte. Até se descobrir sorvendo aos goles
o que vem sem medidas: a poesia, a emoção.
Que degustar seja um ato prazeroso, delicado
e a surpresa do gosto se faça novo acorde
para a sinfonia que escrevemos na alma.
Imaginamos os movimentos,
ensaiamos os passos e a sintonia se faz,
intensa e farta.  Reergue-se  a vontade
e estamos atentos, leves, entregues
a este presente que dançamos agora.
Somos raros e privilegiados.
Existe música. E a ouvimos.




Luciane Valença

PERFIL
                                                                                        
A luz espontânea refletida
senão é, a clara oferta
dos que amam, em mim contida.
E que seja a ferro e fogo
a defesa do que brilha
e dos que me brindam!
Se sobreponha aos medos,
aos silêncios, aos cárceres,
se sobreponha aos imprudentes,
aos cegos, aos omissos,
porque estes subestimam,
se mascaram, se repetem
Eu, tu, somos viventes
(não sobre) que de alma aberta
cultivam  insistentes
- num vício interminável,
indestrutível, imutável -
o ciclo regenerador
de  absorver  sorrisos


Luciane Valença


CANTO DA TRANSMUTAÇÃO
(OU CANTO ÀS BORBOLETAS)

Componho lembranças em elegias,
que recito como quem divaga
em outras, alheias paragens.
_   Reflete beleza o espelho
e me encontro num rastro de luz _
De qual alquimia me farto?
Preenchem a mesma terra,
o ser obreiro que tritura a dor
e o que se deleita em êxtase,
a embriaguez e a sobriedade,
a agonia e a euforia,
o diabólico e o divino.
Ainda me pertence a semente
protegida do vento e do fogo,
das palavras vãs e infames.
Ainda me pertence a semente
no aguardo de água e chão.
Mas o que me segue,  eu faço sombra,
mesmo que obstinado, insistente.
Acolhe-me, morada do sol
e ostenta flores brotando
a delinear um novo rumo.
Incorpora-me ao que obrigo às margens.
Pois o que me prende e me renasce,
o que me brinda ao acaso,
o que me segue pulsante,
é somente tão plena e sentida vida.

***



VANIA CLARES, paulistana, é escritora, contista e poetisa, e diretora da Sarasvati Editora e Comunicações. Estudante de Filosofia e ativista cultural. Participou de vários encontros literários na Oficina Cultural Oswald de Andrade e é membro da ACL-Academia Contemporânea de Letras, tendo como patrono Caio Fernando Abreu.

Todos os livros estão disponíveis em e-book na amazon.com.br       

POESIA:

URGÊNCIA DE AURORAS
DO PARAPEITO VITAL
GERMINAÇÃO-SEMENTES DE UM NOVO TEMPO
OUSO          
PLENITUDE       
POR TRÁS DO VIDRO FOSCO
SEGUNDO TEMPO
DEPOIS DA CHAMA ACESA

CONTOS

SALÃO DE BAILE (citado como inspiração para o filme Chega de Saudade, de Laís Bodanzki e Luiz Bolognesi)
ESBOÇOS IMPERFEITOS
PARA ALGUÉM QUE ME PERGUNTOU O QUE É PRECISO PARA SER FELIZ

ROMANCE

PERMANÊNCIAS OUTONAIS
O LIVRO DO ÚLTIMO DIA (escrito com Malik Al-Shabazz

ANTOLOGIA

FRAGMENTOS DE ESCRITORES CONTEMPORÂNEOS -(com os acadêmicos da ACL-Academia Contemporânea                                                                                                 
                                                                                       de Letras)
 SALVANTE I – POESIA VIVA  da Sarasvati Editora



              

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