De vez em quando um conto | Lia Sena




O Dia
por Lia Sena

Levantou de sobressalto; olhou pela janela e deu de cara com um céu lindo, azulzinho, com pequenas nuvens brancas e pensou: Nada deixará esse céu cinzento hoje!
Uma alegria imensa tomava conta de todo o seu ser -era hoje, finalmente o dia! Depois de seis meses que ela havia partido, estimulada por ele mesmo, pra realizar o sonho de fazer aquele curso tão desejado e que impulsionaria sua carreira, mesmo tendo que sair do país, chegara o esperado dia do retorno. É fato que três meses atrás ele a visitara rapidamente; mataram um pouco da saudade, mas era diferente agora! Ela voltava à casa e muito mais feliz com a nova conquista. Ele, inebriado com a ideia dessa volta tão iminente, tirara o dia de folga; não iria hoje à empresa, deixaria a casa do jeito que ela gosta; tomaria um banho demorado, faria a barba e a esperaria com todos os mimos; jantar providenciado pra mais tarde, um vinho que ela gosta tanto, as plantas na varanda (ela não gosta de flores mortas nos vasos); as orquídeas e lírios florescem a casa e o incenso de canela no quarto, daria o toque final... Pensava nos filmes que veriam juntos, nas músicas que ouviriam e dançariam de rostinho colado, do amor que fariam, intenso e carregado de saudade boa.

Fotografia por Lia Sena

 Um pouco de internet pra passar o tempo, antes de ir ao aeroporto encontrá-la. Estarrecido, dá de cara com a notícia: um voo que perdeu o controle, já quase chegando e numa tentativa de aterrissagem forçada, o acidente! Mortos,sangue... Suas vistas turvas; seu raciocínio, conturbado; Viu nuvens vermelhas, naquele infinito céu azul; precisava correr pra lá. Quem chamaria, o pai, o irmão, o melhor amigo?  O irmão foi dirigindo o carro, enquanto ele se contorcia em desespero e lágrimas. Saiu de casa do jeito que estava: bermuda chinelos, cabelo desalinhado. Uma estrada que não acabava nunca o consumia, até que o cenário de dor, descortinou-se à sua frente. Pessoas em desespero, procurando seus parentes, alguns já chorando seus mortos, autoridades tentando afastá-los, muita destruição e sangue... Quase desmaiou, as pernas não obedeciam, mas precisava seguir, precisava achá-la e em meio aos escombros, percebeu uma equipe médica que resgatava alguém. Tinha as roupas parcialmente rasgadas, cabelos sujos de sangue, escoriações pelo corpo e um machucado no rosto. Ele nunca a vira tão linda! Nunca experimentara antes a sensação de felicidade que o tomava inteiro; jamais imaginaria que a sua volta tão aguardada, seria, na verdade, a maior alegria da sua vida! O irmão retornou dirigindo o seu carro. Ele, na ambulância, segurando a mão daquela mulher que lhe sorria, realizava o melhor percurso já feito  em sua vida e experimentava a melhor modalidade de prazer que alguém pode sentir!

***



Lia Sena é escritora baiana, tem quatro livros do gênero poesia, publicados, participação em várias Antologias e Revistas eletrônicas. De vez em quando escreve contos e crônicas.  . Recebeu o prêmio Sosígenes Costa de Poesia em 2018 e o livro premiado, Na Veia da Palavra, será lançado pela Editus (Editora da Uesc). Publicou recentemente o Romance, "depois o Amor' (Selo Editorial Ser MulherArte). Integrante do Mulherio das Letras e Articuladora do Mulherio das Letras da Bahia, atualmente é editora adjunta da Revista Ser MulherArte.


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